Exclusivo: veja entrevista com produtor de 'Meu Malvado Favorito'
Christopher Meledandri fala devagar, bem devagar. Quase como um professor tentando explicar aos alunos que informação não é velocidade, é vivência. Para alguém que trabalha com uma indústria acostumada a amplificar pequenos momentos em elásticas bilheterias, chega a ser estranho ver alguém tão paciente. Mas Meledandri não se abala com o clichê da indústria e, numa curva pouco habitual para as estradas hollywoodianas, saiu da direção da Fox Animation para promover um novo estúdio de animação num mercado movido por três grandes nomes: Pixar (Disney), DreamWorks (Paramount) e a Blue Sky (Fox). Surge assim a Illumination e, com ela, o divertido filme Meu Malvado Favorito, que estreia nesta sexta-feira (6) no Brasil.
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Confira abaixo a entrevista exclusiva que o Terra fez com Meledandri, uma conversa que trata não apenas dos nossos "malvados favoritos", mas revela um pouco dos bastidores da indústria do cinema de animação, a relação do produtor com a criação de personagens e futuros (e promissores) projetos da Illumination, incluindo aí a animação de Onde Está Wally? e o stop-motion da Família Adams.
Você lida com a indústria de animação por muitos anos. Como produtor, o que leva uma história a receber o sinal verde para sua realização?
Pra mim começa com o personagem. Quando trabalhamos na indústria do cinema, sempre nos contam histórias e o que eu descobri por trabalhar com animação é que as histórias estão ali para servir aos personagens. Se você tem um personagem que é atraente e convincente, que tem profundidade e que expressa essa personalidade de maneira única, isso cria um personagem dinâmico. No coração de cada filme de sucesso em animação existem personagens com os quais o público se identifica. Aprendi isso com A Era do Gelo. Quando começamos a lidar com o desenvolvimento da história, e acredito que o primeiro A Era do Gelo tem uma história particularmente forte, o que terminamos aprendendo à medida que fomos avançando é que a razão pela qual a plateia foi tão capturada pelo filme é porque eles amaram os personagens. Quando penso em filmes hoje penso em quem são aqueles personagens, não apenas em que eles são no papel, mas como eles vão se parecer, quais são as qualidades deles que os animadores vão destacar, de maneira que eles sejam absolutamente distintos de outros personagens que eu já tenha visto. Sou convencido por isso.
Você fala de personagens e Meu Malvado Favorito tem como personagem central um vilão. Em breve teremos também Megamente, que também traz como protagonista um vilão. Você acredita que o cinema deve algo aos vilões, até porque eles parecem ser mais multidimensionais que os heróis?
Quando eu era pequeno, meus pais não me levavam para ver filmes da Disney como Bambi ou A Bela Adormecida, por exemplo. Meus pais amavam cinema, mas eles amavam filmes americanos e aquilo que, na época, chamávamos de filmes estrangeiros, feitos fora dos Estados Unidos. E muitos dos filmes ao qual fui exposto quando criança eram filmes sobre anti-heróis. Foi apenas muito depois quando me tornei pai que vi o que era um filme clássico Disney. Sempre fui mais atraído pelo vilão ou pelo anti-herói. E aí quando tive filhos, notei que, mesmo nos filmes em que eu fazia, quando perguntava a eles quais seus personagens favoritos, muito frequentemente esses personagens eram mais vilões do que heróis. Sou fascinado pela essência um pouco fora de padrão que há em todos nós, porque acho que todos temos isso. Acho que a ideia de explorar um personagem que é protagonista e por um acaso foge da linha, é uma ideia muito animadora.
No caso de Meu Malvado Favorito, não se tem o herói por assim dizer. O herói é o vilão. Você não temeu a inexistência do conflito entre o bem e o mal? Onde haveria o conflito?
O que vi como desafio nesse filme foi fazer com que o público torcesse e se importasse com o supervilão. E a maneira de fazer isso é mostrar como ele é vulnerável e que ele tem um particular senso charmoso. Mas acredito que se pudermos fazer um filme em que no começo da história tenhamos a impressão de "opa, esse cara não é do bem", não que ele faça algo que seja particularmente cruel, ele não faz coisas maquiavélicas, mas ele certamente não preenche nossa visão de um personagem heróico. Se você consegue fazer com que uma plateia observe esse personagem e com o desenvolvimento do filme ela comece a torcer por esse personagem que é de fato o protagonista do filme, então essa experiência de assistir ao filme será muito mais poderosa que mais uma história sobre o Bem versus o Mal. Porque, no fundo, já existem tantos filmes sobre heróis versus vilões que eu já estava começando a ficar entediado com eles.
Você mencionou o senso charmoso do protagonista (Gru) e quando os créditos finais sobem vemos uma imagem dele que lembra bastante aquele perfil de Alfred Hitchcock. Há alguma referência ou homenagem?
No começo do processo quando o personagem está sendo desenhado, há muita conversa entre os diretores, produtores, roteiristas, animadores sobre influências que possam inspirar o direcionamento do personagem. Então houve influências humorísticas como Rowan Atkinson (Mister Bin) e Peter Sellers (A Pantera Cor de Rosa). Mas de fato houve uma conversa sobre Alfred Hitchcock. Não que a direção do personagem tenha se encaminhado para isso, mas existe sim uma homenagem àquela imagem gráfica clássica do perfil de Hitchcock.
Sei que na maior parte dos casos, se começa com uma história e a partir daí se desenvolve o visual do filme. Mas sei que em Robôs vocês começaram com uma ideia visual e a partir daí tiveram uma história. Como foi com Meu Malvado Favorito e como será como Onde Está Wally?, pois acredito que este último deve ser algo bastante visual?
Muito bem pontuada e perceptiva questão. Meu Malvado Favorito começou no germe de uma ideia que nasceu com um talentoso animador espanhol chamado Sergio Pablos, que tinha a premissa inicial. O desenvolvimento do filme começou bem, bem suave. Me lembrou a experiência que tive com filmes passados, um deles era um filme em live-action chamado Jamaica Abaixo de Zero, que era sobre o time de trenó da Jamaica que foi para as Olimpíadas. Com Robôs, você foi está absolutamente certa, foi visual de primeira e aí desenvolvemos a história e os personagens. E foi muito difícil. Nós nunca estávamos sob comando de nossa história e lutamos durante toda a produção. O filme sempre mostrava uma imagem sensacional, o design era incrível, os detalhes, a arte, as superfícies eram de pirar a cabeça, mas o personagem central e a história foram sempre complicados. Sofremos com Robôs algo que você mencionou antes, porque nosso personagem central era um herói muito bondoso e nunca conseguíamos totalmente reverter isso. Enquanto isso, na Era do Gelo, como mencionei antes, houve uma preocupação maior com os personagens. Mas a ideia inicial também era visual, era de "e se fizermos um filme que se passa na Era do Gelo? Existe um meio-ambiente nisso que serial visualmente atraente para explorar?". Mas nesse caso nós rapidamente mudamos o foco da preocupação para os personagens. Quanto a Onde Está Wally?, o desafio está no fato de que a experiência de ligação com Wally está na interatividade do processo, com bastante participação do espectador. Há uma mitologia bem limitada nos livros. Por um lado, você tem que criar um filme que se sinta autêntico para alguém que foi criado tentando achar Wally pela última década. Quando essa pessoa assistir a esse filme, ele tem que ser autêntico para ela. E definir essa história nos tem dado um bom trabalho. Já fomos para vários caminhos onde não nos sentimos satisfeitos com o curso da história. Recentemente é que aterrissamos em uma direção que nos sentimos animados. Mas ainda estamos no estágio de roteirizar.
Como indivíduos, tendemos a correr da realidade quando estamos em crise. Você acha que a indústria de entretenimento tem como se beneficiar com a crise econômica no mundo?
Acho que definitivamente na América há uma relação histórica entre tempos difíceis e produção de cinema. Sabe-se que a indústria de cinema foi uma das raras indústrias que não foi devastada durante a Grande Depressão nos Estados Unidos porque as pessoas de fato precisavam escapar. Como um todo, a indústria do entretenimento, além de apenas dos filmes, mas também televisão, games e redes sociais, funcionam um dos benefício, porque as pessoas têm é a habilidade de transcender aquilo que pode ser uma vida cotidiana bem difícil. Tendo isso dito, acho que é nossa responsabilidade como pessoas que trabalham como entretenimento criar coisas que sejam originais, mas que também provoquem e façam você sentir algo. É importante achar oportunidades para permitir as pessoas se a enxergarem muito distantes delas mesmas, o que é legal, é divertido, é imaginação, mas também criar pequenas linhas em que a pessoa se identifique com aquilo.
A piada com o banco Lehman Brothers em Meu Malvado Favorito surgiu disso?
Sim, foi. A piada com o Lehman Brothers é um exemplo de uma colaboração contínua com membros-chaves do time de roteiristas dos Simpsons. Temos um time de colaboradores, tanto roteiristas quanto story-boarders. Aquela piada específica veio de um colaborador que trabalha para os Simpsons.
Há uma máquina de encolher coisas em Meu Malvado Favorito. Se você tivesse o poder de reduzir algo em nossa sociedade, o que você encolheria para que o mundo pudesse ser um lugar melhor?
Encolheria a ganância. Acho que a ganância é a força mais perigosa que existe. Muito dos maiores problemas que enfrentamos hoje têm sua origem na ganância.
O projeto do filme em stop-motion da Família Adams começou ligado a Tim Burton, depois o nome dele saiu de cena e voltou novamente. Como está o projeto?
Bem, agora que é público, posso dizer que estamos desenvolvendo o projeto de uma animação em stop-motion da Família Adams com Tim e estamos ainda no estágio bem inicial desse processo.