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Em 'Melancolia', Von Trier condena humanidade ao fim dos tempos

27 jul 2011 - 09h46
(atualizado em 27/7/2011 às 20h45)
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Carol Almeida

Treinados a olhar para o apocalipse a partir do repertório bíblico, explosivo e quase sempre masculinamente heróico que o cinema vem nos presenteando ao longo de sua não tão longa história, é bem possível que um incômodo tome conta dos espectadores de Melancolia após sua conclusão. Primeiro porque faltam Bíblia, explosões e heróis, principalmente masculinos, ao filme. Mas sobretudo porque indo contra os nossos princípios de sublimar o Fim com a reconfortante ideia de que ele é coletivo, o novo longa de Lars Von Trier nos atenta para o crescente desespero que este mesmo Fim é uma drama íntimo, pessoal e intransferível.

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Desfecho de uma série de filmes bastante pessimistas com os habitantes da Terra, Melancolia é o capítulo de conclusão de Von Trier sobre a violência de ser humano - não "do", mas "de". É o momento em que o diretor dá um ponto final (assim se supõe) à toda linha narrativa que, desde Ondas do Destino (1996), usa personagens femininas como porta-vozes desse mal-estar terreno. Para encerrar essa dramaturgia do desalento, ele escolhe falar do fim do mundo. E agora sob os olhos de não uma, mas de duas mulheres. O resultado é lindo de se ver, mas bem difícil de se processar ao fim da sessão.

As personagens em questão, sob perspectivas distintas, digerem esse desfecho da humanidade seja com um cinismo melancólico, seja com um desespero asmático. Em qualquer caso, diante do fim eminente, essa vivência introspectiva da contagem regressiva se torna desoladora e estranhamente serena. Não há nenhuma causa nobre, nem mesmo culpa cristã que nos acalente ou dê sentido teológico ou político ao grande evento. Porque é na resignação do fato sem contexto que Von Trier quer nos mostrar como reagem os indivíduos. Ainda que, do lado de cá, saibamos que o contexto existe e que ele se configura nessa filmografia pouco otimista de um diretor que, com um peculiar senso de humor, parece querer acabar de vez com esse martírio de viver.

Nessa estética do fato isolado, Von Trier abre seu novo filme com uma sequência onírica de imagens deslocadas da narrativa. Cenas de curta duração são colocadas em longas câmeras lentas, numa fotografia que mais parece pertencer a um editorial da Vogue, com referências a pinturas clássicas, sendo a mais famosa delas a Ophelia de John Everett Millais, personagem de Shakespeare (Hamlet) que decide ternamente se entregar à morte após uma série de eventos trágicos. Fortes em um significado que só será processado mais tarde, as imagens que antecedem à assinatura do diretor são o elemento teatral que Von Trier nunca dispensa.

A narrativa em si é colocada em cena como dois capítulos. O primeiro é dedicado ao casamento de Justine (Kirsten Dunst). O segundo ao olhar da irmã aristocrática da noiva, Claire (Charlotte Gainsbourg). No primeiro, acompanhamos o gráfico de Justine despencar de um estágio inicial de bom-humor a uma quase inexplicável depressão. Nessa apatia que vai ladeira abaixo, ela se torna mais um elemento deslocado em seu próprio casamento, percebendo muito rápido sua carência de fé nessa união, descrença esta ressaltada sempre que possível pela presença de sua mãe (Charlotte Rampling, atriz que nasceu com o dom de saber olhar todo mundo de cima pra baixo), pela burocrática retidão de sua irmã Claire e mesmo pela falta de bom senso do seu pai, Dexter (John Hurt).

É nesse casamento então, armado em uma enorme casa de campo, que Claire, ao olhar para o céu, observa essa estrela de cor e brilho distinto das demais, uma estrela que seu rico cunhado (Kiefer Sutherland), astrônomo amador, logo identifica como Melancolia. Planeta que, segundo cientistas, estava esse tempo todo escondido por trás do Sol e que agora iria passar perto da Terra, mas distante o suficiente para não provocar alarmes.

A presença desse planeta toma conta de Justine, e seu nome de batismo se apodera da moça. Se Melancolia fosse o ET de Spielberg, Justine seria Elliott. Há uma ligação quase paranormal entre eles. Kirsten Dunst, prêmio de Melhor Atriz em Cannes este ano pelo papel, vai bem na tarefa de entregar seu rosto já naturalmente triste a serviço de uma personagem que até parece ser de fácil construção - de repente, bastava que ela se mostrasse um pouco bipolar e, hora ou outra, se exibisse completamente despida. Mais a fundo, a personagem é bem tecida nos longos closes do diretor em Dunst, nos silêncios bem domados e nos diálogos que vão dando as pistas sobre como ela percebe com um sentido cármico a aproximação de Melancolia sobre a Terra.

Na outra ponta, temos Claire numa Charlotte Gainsbourg que merecia dividir com Dunst o prêmio de Atriz em Cannes. Casada e mãe, ela vai dar outros significados ao apocalipse que se anuncia no horizonte. Claire, botões fechados, fino relógio de pulso, cores frias, é o segundo capítulo desta história. E é com ela e Justine, juntas novamente, que entra em cena o embate entre o olhar da mulher que, por não ter sido muita coisa em vida, se desespera, e o olhar daquela que, por ter sido exatamente o que quis, se resigna.

Nesse processo de narrar a vida de duas mulheres observando essa aproximação de e da Melancolia, Von Trier faz autoreferências à sua obra e recicla ideias - principalmente quando elas estão ligadas ao uso do corpo feminino como epicentro da propulsão motora do mundo. Mas não deixa de ser original quando decide falar de um pontual e silencioso Armagedom da humanidade. Poucos fins de mundo são tão intensamente respirados como este.

Sabe-se que agora, após esse desfecho cataclísmico que ele decidiu dar à humanidade, o diretor dinamarquês investirá toda sua energia criativa em um filme pornô. Controverso como poucos, não seria de se espantar que, após anos de pouca misericórdia com seus personagens, ele resolva se dedicar temporariamente à arte do prazer, mesmo que este, nas suas mãos, possa facilmente ganhar contornos de pequenas atrocidades cotidianas.

Foto: Divulgação
Fonte: Terra
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