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'A Rede Social' se ergue em personagens de caráter duvidoso

6 nov 2010 - 17h37
(atualizado em 6/11/2010 às 20h01)
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Carol Almeida

Tudo conspirava contra: caixas de som problemáticas, carros passando atrás da tela, cadeiras desconfortáveis, burburinho de pessoas ecoando suas animadas conversas no coquetel do evento. Mas nada disso conseguiu ser capaz de desviar a atenção do espectador que foi à sessão de encerramento da 34ª Mostra de São Paulo. Porque A Rede Social é um filme que não deixa espaço entre você e o personagem. Inexiste aqui o habitual vácuo que se cria entre a ficção e sua identificação com ela.

A absorção é completa e vai se criando a partir de um roteiro inteligente, uma montagem brilhante e, acima de tudo, personagens cujas fissuras morais estão em todos nós. E se o filme se vende pelo fator Facebook, pode acreditar que ele se ergue justamente porque se emancipa de seu contexto temporal.

O novo trabalho de David Fincher é primoroso em juntar o quebra-cabeças de um personagem cujo caráter parece ser tão fragmentado quanto a rede social que ele criou. Mark Zuckerberg, conhecido até hoje sob a legenda de "criador do Facebook", é construído no filme como um rapaz mimado, egocêntrico, genial e, claro, inábil em criar laços sociais distante da internet. A interpretação na mandíbula tensionada de Jesse Eisenberg é eletrizante, digna de atenção das premiações porvir. Os diálogos rápidos, quase frenéticos, saem de seus olhos. A velocidade do raciocínio é requisito fundamental para essa interpretação e Eisenberg não perde nem o passo, nem o fôlego. Acompanhar tudo isso pode ser, aliás, vertiginoso.

Fincher, mestre em lidar com personagens tão inteligentes quanto perturbados (a mencionar Seven - Os Sete Crimes Capitais, de 1995 e O Clube da Luta, de 1999), encontra em Zuckerberg sua nova aberração de estimação. Conduz então seu personagem em dois tempos, intercalando a sequência cronológica dos fatos com os dois processos na Justiça respondidos por Zuckerberg, ambos o acusando de tomar só para si algo que teria sido criado por muitos. Assim como na história real na qual o filme se sustenta, há controvérsias em absolutamente todas as alegações que vemos em cena. E esses pontos em que o limite da propriedade intelectual se torna difuso ajudam a construir personagens volúveis e, portanto, concretos.

A edição desses dois tempos é um dos pontos altos do filme e nos carrega por uma história tensa, densa e propensa a nos engolir em total imersão cinematográfica. A fotografia é sóbria, não está ali para sobrepor mensagens, mas em determinado momento, mais ou menos dividindo o filme em duas partes, ela chama atenção em uma cena onde vemos uma competição de remo filmada naquela lente tilt shift em que o foco preciso num determinado ponto transforma uma cena aberta numa quase ilusão, como se a imagem real fosse, na verdade, uma maquete. Nesse único momento em que a foto se faz mensagem grifada, Fincher nos fala de como as pessoas podem ser tão reais quanto os avatares de suas sociabilidades virtuais.

Todos os elementos do filme parecem estar em sincronia com a mensagem do diretor, a começar pelo elenco. Além de Eisenberg, se destaca a interpretação sempre bem acima da média de Andrew Garfield, ator britânico que aqui vive Eduardo Saverin, o "Wardo" co-fundador do Facebook. Até mesmo Justin Timberlake consegue se esforçar em um quase plausível Sean Parker, mais conhecido como o criador do Napster. Timberlake só erra quando tenta reproduzir ele mesmo - o pop star - no personagem que, pensamos nós, parece ter sido desenhado para arroubos de celebridade. Portanto, não destoa da proposta do filme em dar uma aguda verossimilhança aos seus indivíduos.

Na semântica Facebook, o status de relacionamento entre A Rede Social e seu espectador é de casamento completo. E ainda que não tenha a intenção de nos vacinar de uma moral da história, saímos do filme com a impressão que o mundo está cada vez mais lá fora, e que nossa virtual construção de identidade se dilui em mensagens falsamente verdadeiras sobre quem somos e de quem, de fato, chamamos de amigos.

Foto: Divulgação
Fonte: Terra
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