Embratur leva Amazônia ao público e a profissionais no maior festival de curtas-metragens do mundo
Pela primeira vez, a Embratur marca presença no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, no centro da França, com uma sessão pública de filmes financiados pela agência no segundo edital do programa Brasil com S - uma vitrine que aposta no cinema como motor de curiosidade turística e janela de descoberta do Brasil.
O Brasil com S vai além do financiamento: ajuda a formar e a lapidar os filmes que apoia. Christiano Braga Lima, coordenador de audiovisual e economia criativa da agência, resume bem a lógica: "Não é só um edital que a gente dá um recurso e o produtor se vira."
O programa desenha uma trajetória completa para os selecionados, do roteiro à distribuição internacional, e faz isso por meio de mentorias técnicas que envolvem parceiros estratégicos. Entre eles está o Projeto Paradiso Multiplica, iniciativa que difunde conhecimento no setor audiovisual conectando profissionais experientes a novos realizadores. E há ainda o olhar de Denise Jancar, consultora com longa atuação em mercados e festivais, conhecida por orientar projetos em circulação global e por representar filmes brasileiros no exterior. "É um edital em que a gente, além de fazer o fomento, faz um trabalho de mentoria", reforça Christiano.
A aposta da Embratur é simples: usar o cinema para emocionar, seduzir e informar. "A gente entende o audiovisual como uma janela para promoção do Brasil, para o despertar do interesse internacional pelo Brasil", afirma o coordenador. Ele lembra que, dentro da agência, a proximidade entre turismo e cinema não é improviso - é estratégia. "A Embratur entendeu a importância do turismo dialogar com o audiovisual e construir uma relação orgânica entre esses dois segmentos", diz o economista, que tem trajetória nas políticas culturais.
Nesta edição, o recorte tem endereço: a Amazônia. "Aconteceu a COP no Brasil, então a gente queria chamar a atenção para aquele território, para sua potência." Das 170 propostas inscritas, surgiram cinco filmes, cada um com uma forma de traduzir o Norte.
"Amassunu", com direção de Juliana Boechat e Venusto, aposta no sensorial da culinária e da paisagem amazônica; "O Retorno", de César Meneghetti com Mario Gianni, revisita memória e ética documental entre os Yanomami; "Te Vejo na Próxima Saída do Boi", da realizadora Keila Sankofa, mergulha no imaginário popular do Pará; "Beira", dirigido por Marcela Bonfim, evoca ancestralidade em Porto Velho; e "Bici", única animação assinada por Otoniel Oliveira, transforma uma bicicleta em símbolo de resiliência em Afuá, na Ilha de Marajó.
Histórias para superar estereótipos
Os curtas tentam desmontar clichês. "A gente sabe que o mundo conhece ainda pouco a Amazônia, ou se conhece, conhece a partir de estereótipos", observa Christiano. A seleção busca justamente apresentar outras camadas: "Criar uma percepção positiva em relação a esse território e toda a sua riqueza cultural, sua diversidade natural, sua riqueza urbana".
A experiência da primeira edição do Brasil com S já mostrava que havia fôlego para uma trajetória internacional, mesmo antes da criação das mentorias. "Na primeira edição, a gente teve 400 inscrições e escolhemos cinco curtas, quando a gente ainda não tinha uma mentoria." Ainda assim, um dos selecionados, "Entre Sinais e Marés" - filmado na Ilha do Mel com elenco e direção formados inteiramente por profissionais surdos - percorreu mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, conquistando prêmios, incluindo um festival dedicado ao público surdo no Canadá. Para Christiano, o desempenho desse curta é a prova de que o programa já nascia com potencial de voo próprio: "Sem a mentoria, você já teve ali curtas que tiveram uma carreira, viajaram internacionalmente."
O cinema brasileiro experimenta um alcance internacional pouco habitual, com títulos como "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto" abrindo portas e reacendendo o interesse estrangeiro por produções do país. "É um momento importante para o Brasil aproveitar", conclui Christiano - e Clermont-Ferrand, com seu público de programadores, curadores e distribuidores, parece ser um bom lugar para isso.