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Em Paris, imortal da ABL Godofredo de Oliveira Neto debate legado da literatura afro‑brasileira

O escritor e academico Godofredo de Oliveira Neto, imortal da Academia Brasileira de Letras desde 2022, é o convidado de uma palestra sobre a literatura afro-brasileira, nesta terça-feira (17), na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Com mais de 20 livros publicados e três livros traduzidos para o francês, ele também é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

17 fev 2026 - 12h20
(atualizado às 12h53)
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Por Patrícia Moribe, em Paris

O escritor e imortal da ABL, Godofredo de Oliveira Neto, nos estúdios da RFI (imagem de arquivo).
O escritor e imortal da ABL, Godofredo de Oliveira Neto, nos estúdios da RFI (imagem de arquivo).
Foto: © Tatiana Avila / RFI

Sob o tema "Literatura Brasileira Afrodescendente, Literatura Negra", o autor analisa as nuances políticas e estéticas que definem a produção literária negra no país. Ele resgata textos clássicos que expõem de forma crua os horrores da escravidão, muitos dos quais foram historicamente "esquecidos" ou suavizados pela sociedade brasileira.

Oliveira cita passagens de Machado de Assis que ilustram a brutalidade cotidiana do período colonial e imperial. Como no conto "O caso da vara", de 1891, no qual o personagem principal presencia o castigo de uma criança de apenas 11 anos. Outro exemplo marcante trazido pelo acadêmico é o conto "Pai contra Mãe", no qual uma mulher escravizada em fuga é recapturada e, no processo, "aborta de medo e de dor numa cena absolutamente horrível". Ele também recorda a infância de Brás Cubas, que torturava o menino Prudêncio, um escravizado da casa.

O trecho mais impactante citado por Godofredo de Oliveira Neto, porém, pertence a Cruz e Sousa, no texto intitulado "Consciência Tranquila". O autor descreve a obra como o texto mais violento contra a escravidão em toda a história da literatura brasileira, onde um senhor de escravizados, à beira da morte, faz um balanço de suas atrocidades sem qualquer remorso. "Ah, Mas eu fiz bem de arrancar os olhos daqueles negros, os dois olhos com uma faca enferrujada", cita o acadêmico. "Depois, ah, aquela negra que estava grávida de mim, fiz bem de enforcar. O outro, também decepei o corpo e joguei pros porcos", acrescenta.

Lugar de fala

O especialista nota que a literatura negra no Brasil foi mudando de tom, ganhando novas vozes, a partir de Lima Barreto e Maria Carolina de Jesus. Ao observar a produção contemporânea de autores como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Eliane Alves Cruz e Jeferson Tenório, Godofredo observa uma transição para um empoderamento positivo e poético.

É nesse cenário que, para ele, o conceito de "lugar de fala" ganha relevo como uma "legitimação do combate". O autor explica que essa autonomia de voz significa que o sujeito negro não precisa mais de intermediários - "um intelectual branco" - para defender suas causas. Embora considere essa ferramenta legítima para a luta atual por espaço, o acadêmico manifesta o desejo de que, no futuro, em uma sociedade mais justa e não preconceituosa, tais distinções deixem de ser necessárias.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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