Documentário rodado no Piauí é acolhido com entusiasmo na Berlinale
O filme brasileiro "A Fabulosa Máquina do Tempo" abriu, na noite desta sexta‑feira (13), a mostra Generation Kplus, seção dedicada a temáticas infantojuvenis do Festival de Cinema de Berlim. O documentário de Eliza Capai, rodado no interior do Piauí, foi recebido com entusiasmo pelo público em uma sala lotada. Três das protagonistas da produção estavam presentes na capital alemã e foram ovacionadas.
Silvano Mendes, enviado especial a Berlim
Sorridentes, as três meninas, que até a semana passada nunca haviam entrado em um avião nem pisado em uma grande sala de cinema, responderam espontaneamente, mesmo se ainda um pouco tímidas, às perguntas de um auditório com cerca de 1.000 pessoas em Berlim. Manu, Manuellinha e Sophia, algumas das estrelas de "A Fabulosa Máquina do Tempo", encantaram a plateia após dar voz, com naturalidade e frescor, a temas difíceis retratados no filme, como sexualidade, machismo, desigualdade e a transição para a adolescência.
O filme foi rodado em Guaribas, município do sul do Piauí que viveu por anos em situação de extrema pobreza antes de se tornar um símbolo nacional ao receber o lançamento do programa Fome Zero. Nesse cenário simples, mas onde as novas gerações começam a vislumbrar possibilidades, Eliza Capai posicionou sua câmera para acompanhar o cotidiano dessas meninas. Num dia marcado por brincadeiras, no outro por conversas profundas com as mães, elas revelam um universo em que sobrevivência, sonho e descoberta convivem lado a lado.
Aos poucos, a inocência da infância vai cedendo espaço a uma mistura de curiosidade e apreensão diante da nova fase da vida. E quando percebem que é impossível deter a passagem do tempo, projetam-se no futuro e imaginam-se como mulheres independentes e bem-sucedidas.
Brincar de sonhar
Eliza Capai, cuja cinematografia engajada já produziu filmes sobre ocupações estudantis ("Espero tua (re)volta"), sobre os impactos socioambientais das hidrelétricas na Amazônia ("O Jabuti e a Anta") e também sobre violência de gênero, como a série "Elize Matsunaga: Era uma vez um crime", encontrou em Guaribas o cenário perfeito para mostrar que os questionamentos sobre a vida estão presentes desde a infância.
A diretora revelou que sonhava em exibir "A Fabulosa Máquina do Tempo" na Berlinale antes mesmo da seleção. "Dizia para todos que ia estrear em fevereiro de 2026; em Berlim. Só faltava eles selecionarem", brincou. "Quando a gente soube que [além de estrear na Berlinale] ainda ia ser o filme de abertura [da seção Generation Kplus], o que é muito raro, eu fiquei profundamente emocionada", confessa.
Capai também celebra o fato de poder compartilhar essa vitória com as jovens protagonistas, acompanhadas por uma das mães. "Elas entraram no avião e se sentiram entrando na própria máquina do tempo", compara a diretora, que vê nessa experiência a prova de que é possível alcançar sonhos e brincar de sonhar.