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Uma conversa com Juliette Binoche sobre cinema, poesia, perdão e a tataravó escrava brasileira

No Brasil, ela disse que gostaria de encontrar os Binoche daqui: 'Queria pedir perdão, porque nenhuma pessoa deveria ser usada. Todos temos direito a nossas escolhas, à dignidade do corpo, do trabalho'

30 nov 2019
13h41
atualizado às 14h26
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NITERÓI - Juliette Binoche chegou no fim da tarde de sexta, 29, no Reserva Cultural de Niterói, no Estado do Rio. Estava deslumbrante, num preto básico realçado por joias e pelo vermelho do batom. Concedeu entrevistas, fez uma live para a TV Estadão (veja abaixo). Ela veio ao Brasil para ser a madrinha da festa de 30 anos da Imovision. Renata de Almeida, da Mostra de São Paulo, e Ilda Santiago, do Festival do Rio, subiram ao palco da Sala Nelson Pereira dos Santos, em homenagem ao grande cineasta, para saudar Jean-Thomas Bernardini e dizer que, sem ele - e a Imovision -, o cinema independente e autoral não teria tido tanto desenvolvimento no Brasil. Juliette Binoche veio num bate-volta. Chegou na manhã de sexta, volta para Paris no domingo, 1.º. Três ou quatro coisas que ela disse.

Sobre a fama de difícil de Krszystof Kieslowski - "Mas de onde vem isso? Kieslowski fazia filmes duros, críticos, intimistas, pungentes, mas pessoalmente era um homem encantador. Sabia onde colocar a câmera, tinha uma relação de muita proximidade e entendimento com seu diretor de fotografia. Apesar do tema, A Liberdade É Azul permanece na minha memória como uma das filmagens mais leves de que participei. Ríamos muito, ele contava histórias. Pura alegria."

Sobre a antepassada brasileira, uma tataravó nos anos 1830. "Sempre fantasiei muito a história de que haveria Binoches negros no Brasil. Esse tatatataravô era branco, francês e fez sexo com sua escrava, com quem teve filhos, criando uma descendência que levou para a França. Meu sangue brasileiro é negro e gostaria de localizar esses Binoches, se existissem, para pedir perdão. Minha antepassada não tinha escolha. Não sei que vida tiveram, mas ele usou seu direito de senhor. Sempre achei que tinha uma dívida. Queria pedir perdão, porque nenhuma pessoa deveria ser usada. Todos temos direito a nossas escolhas, à dignidade do corpo, do trabalho. A vida pode ser muito injusta e cabe a nós impedir que isso se perpetue."

Sobre o colaboracionismo dos franceses (com os nazistas) durante o regime de Vichy, a 2.ª Grande Guerra. "Nós, franceses, lidamos muito mal com nosso passado. Houve resistência, mas muita gente, sim, colaborou. Restou uma herança que permanece no racismo, no apoio de parte do eleitorado à direita representada por Marina Le Pen. Mas, na verdade, não é só o colaboracismo. Napoleão segue endeusado na historiografia oficial, mas fez coisas terríveis nas campanhas do Egito e da Espanha. A França escravizou, torturou e matou na Argélia, na África negra e durante muito tempo esses temas foram tabu. Deveríamos nos desculpar por isso."

Sobre dirigir. "Há muita parceria, muita intimidade entre atores e diretores. Ao discutir o papel, a cena, há uma troca muito grande e a gente termina por interferir na mise-en-scène. Isso acontece muito, e os grandes autores com quem trabalhei - e que a propósito não eram tão grandes assim, tinham o talhe mediano (risos) - foram muitas vezes receptivos às sugestões, e então posso dizer que já dirigi, ou codirigi. Mas tenho vontade, sim. Existem histórias muito íntimas que só eu poderia contar. Tenho alguma coisa escrita que gostaria de filmar. Amo a pintura, todas as artes visuais, então acho que teria prazer nisso. Mas teria de parar, focar. Ficar dois ou três meses só pensando no meu filme. Tenho uma agenda lotada, gosto do que faço. Talvez um dia..."

Sobre escrever poesia, e cantar. "Um amigo pianista me estimulou a fazermos um recital, eu recitando as letras de Barbara (icônica cantora e compositora francesa). Gostei da experiência. Gosto de cantar, mas são coisas delicadas, letras poéticas que remetem a estados d'alma, a coisa íntimas. A poesia é a mesma coisa. Não creio que exista experiências mais íntima do ser humano que expressar-se por meio da poesia. Vem de dentro. Não acho que faça poesia. A gente não faz. Vem, flui através de nós. De vez em quando, essas coisas brotam dentro de mim, mas não sou poeta, não vou fazer sombra a Rimbaud (risos). Mas é gratificante quando brota. Exercitar a sensibilidade, nesse mundo que pode ser tão injusto e cruel."

Estadão
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