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MIMO 2017: Jeito brasileiro de tocar guitarra e fé de Maria Bethânia dão o tom do encerramento do festival

Fevereiros, de Marcio Debellian, e Sotaque Elétrico, de Caio Jobim e Pablo Francischelli, foram exibidos no Cine Odeon, no Rio de Janeiro.

13 nov 2017
07h32
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A noite de encerramento da edição de 2017 do Festival MIMO de Cinema no Rio de Janeiro celebrou a fé de uma das figuras mais ímpares da MPB, Maria Bethânia. A cantora é a estrela do documentário Fevereiros, que também foi exibido no Festival do Rio deste ano.

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

"Além de ser sobre a Bethânia e sobre a Mangueira, acho que esse filme fala de ancestralidade, de todos aqueles que nos constituíram até a gente chegar aqui: Nossa família, o amor, a alegria", contou o diretor Marcio Debellian ao apresentar o longa-metragem no último domingo (12) para a plateia mais lotada do festival realizado no Cine Odeon, na Cinelândia. Algumas das discussões do longa-metragem dialogam com Híbridos, Os Espíritos do Brasil, exibido no MIMO no dia anterior e melhor filme do braço carioca festival em 2017.

Outro destaque da noite foi a sessão de Sotaque Elétrico, que tenta entender algumas das diversas facetas de um mesmo instrumento musical em seus diferentes contextos da música brasileira. "No começo esse projeto surge como um documentário mais clássico para contar a história da guitarra e aos poucos a gente se deu conta que não era isso que a gente queria fazer", contaram os diretores Caio Jobim e Pablo Francischelli. "Decidimos ir por outro caminho", explicam, "e não fechar a questão".

Após 13 sessões de filmes em três dias, o Festival MIMO de Cinema parte para a cidade de Olinda (PE) depois de passar por Ouro Preto (MG), Tiradentes (MG) e Paraty (RJ). Com uma seleção composta apenas por filmes que, em maior ou menor escala, tem a "música como fio condutor", a mostra é o eixo cinematográfico do evento que também conta com diversos shows gratuitos, workshops, oficinas e debates.

EXPLODE CORAÇÃO


Fevereiros, de Marcio Debellian

A música brasileira nunca mais foi a mesma desde que a Maria Bethânia substituiu Nara Leão no espetáculo Opinião em 1965, conquistando o lugar que os deuses da música reservaram para ela no panteão da cultura brasileira. Em mais de 50 anos de carreira, porém, algo além de sua possante "voz de cobre", nas palavras do irmão Caetano Veloso, se manteve intacto: O interesse pela cantora pelos mistérios da fé.

Fevereiros examina a importância das tradições culturais na construção da identidade pessoal e coletiva. O longa exibe o lado ensolarado da alma de Bethânia em seu ritual anual de retorno às suas raízes durante a Festa da Purificação. A celebração é realizada no início do ano em Santo Amaro, cidade natal da artista. Do reencontro com as origens, o filme traça um paralelo entre a cidade baiana e o Rio de Janeiro (que ganha perspectiva histórica no depoimento do professor Luiz Antônio Simas). O elo se dá através do samba. Em 2016 a Abelha Rainha foi homenageada com o enredo "Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá", da Estação Primeira de Mangueira. O longa-metragem também acompanha os preparativos e o grande momento do desfile da verde e rosa na Marquês de Sapucaí, que colocou fim no jejum de títulos da escola de samba.

Em seus depoimentos, Bethânia fala sobre sua religiosidade sincrética, da formação católica à iniciação no Candomblé, com uma contundência oratória que, mesmo sem o contorno da militância política, levanta a bandeira da liberdade de culto. A devoção é retratada para além das palavras, quando a câmera mostra a ativa participação nas festas de Santo Amaro e, não raro, suas lágrimas sinceras. Coadjuvantes, porém não menos importantes, os depoimentos de Caetano e de Mabel Velloso enriquecem o filme com falas sobre o DNA mestiço da família e as diferentes formas de interpretar aqueles fenômenos religiosos.

As reflexões sobre religião feitas por Caetano e Bethânia, um ateu e uma devota, poderiam ser antagônicas, mas complementam-se. O cantor e compositor chega contar que Mãe Menininha do Gantois (1894- 1986), Iyálorixá mais famosa do Brasil, já disse que os dois são a mesma pessoa. Enquanto ele explica que o eu-lírico do verso "Quem é ateu e viu milagres como eu" é, na verdade, Jorge Amado e não ele mesmo, mostra que seu respeito pelo candomblé e por sua irmã fizeram com que ele chegasse até a se iniciar na religião. Enquanto isso, Bethânia diz que sua cosmovisão religiosa começou a mudar ainda na infância quando seu irmão, também criança e já convencido da descrença em um ser superior, a fez começar a perder um medo exacerbado aprendido na Igreja Católica quando a levou a pensar que o divino está dentro de cada pessoa.

JAM SESSION


Sotaque Elétrico, de Caio Jobim e Pablo Francischelli

Ícone, símbolo e índice do rock 'n' roll, a guitarra assume diversas outras facetas no Brasil, do carimbó do norte do país ao axé da Bahia. Para explorar a pluralidade de timbres e abordagens do versátil instrumento musical, Sotaque Elétrico tenta romper com o formato documental tradicional, mas acaba no meio do caminho entre uma linguagem mais experimental e uma estrutura padrão, o que atenua o potencial do filme.

Uma espécie de primo distante e latino americano de A Todo Volume (2008), o filme alguns méritos claros. A investigação sobre a potencialidade da guitarra e as particularidades tipicamente brasileiras na hora de tocar ou pensar as propriedades do instrumento são debatidas por um time de peso e mostradas na prática. Em um corte o filme vai do virtuosismo metódico de Kiko Loureiro (Angra, Megadeth) ao intenso expressionismo abstrato Kiko Dinnucci (Metá Metá), passando pela estridência alegre da guitarra baiana de Armandinho e pela guitarrada de influência caribenha do Mestre Curica até contornar o rock progressivo de Sérgio Dias (Os Mutantes) e a tensão afrobeat de Lúcio Maia (Nação Zumbi) —  entre muitos outros. Por um lado, a presença de Lanny Gordin é importante por resgatar um nome pouco lembrado atualmente, mas de estrita importância na música nacional em décadas passadas. Por outro, as cenas dedicadas ao músico acabam fazendo o filme destoar do restante do longa por conta da melancolia que carregam.

São interessantes os insights sobre uma suposta oposição entre a uma maneira mais harmônica de tocar guitarra, com base na tradição europeia, contra uma forma mais rítmica, e africana, de suíngar o instrumento, mas a discussão não se desenvolve com mais profundidade. De positivo, ficam os números musicais, muitos deles filmados zelo e requinte. Como em muitas jam sessions , Sotaque Elétrico tem beleza e bagunça, mas mesmo sem alcançar tudo que aparentemente ambicionava é um bom filme.

(Ao término da sessão fica a sensação de que seria interessante saber como músicos de países como Estados Unidos e Inglaterra, terras de gêneros como folk, blues, rock e jazz, reagiriam ao filme. Quais paralelos fariam com as linguagens brasileiras? O que os fascinaria mais?)

CURTAS


A Retirada de Um Coração Bruto (esquerda), de Marco Antonio Ferreira, e Cinebiogravura (direita), de Luís Rocha Melo

A única ficção nacional exibida no Festival MIMO de Cinema deste ano foi o curta-metragem mineiro A Retirada de Um Coração Bruto , de Marco Antônio Ferreira. O filme faz um comentário bem-humorado e agridoce sobre a solidão de um homem idoso que vive na roça, perdeu sua esposa recentemente e é fã de metal. Enquanto não está ouvindo Iron Maiden ou Sepultura, Ozório (Manoel do Norte) sonha em explorar o rock, até que "alienígenas" o ajudam na tarefa. Já Cinebiogravura (direita), de Luís Rocha Melo, revisita a vida do falecido pai do realizador através de recortes de jornais, fotos, cartas e desenhos que fazem uma cartografia da memória mediada pelo que fica impresso no papel. A textura precária das folhas atenta para a fragilidade das lembranças enquanto os sons ilustram a vida do "biografado", um radialista entusiasmado por jazz. O trabalho carrega similaridades com o ótimo (e mais experimental) A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha (1998), de Carlos Adriano.

AdoroCinema

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