Camarote Salvador completa 25 anos com ingressos a R$ 4 mil por dia e deve movimentar mais de R$ 160 milhões
À frente do camarote mais cobiçado do carnaval de Salvador há 12 anos, Luciana Vilas Boas detalha estratégias de ação da marca
O Camarote Salvador mantém sua relevância após 25 anos com estratégias de inovação, pesquisa de tendências, valorização cultural e diversificação de serviços, consolidando-se como referência no carnaval de Salvador e na economia local.
Quem gosta do carnaval de Salvador sabe que todo ano é diferente, ao mesmo tempo em que todo ano é igual. Sim, Bell Marques vai cantar todos os dias por seis horas em cima de um trio elétrico e deixar todo mundo chocado com o vigor aos 70 e tantos anos. Também é verdade que você vai se arrepiar ao cantar We Are Carnaval descendo a ladeira do Morro do Gato. E, ao final do circuito Barra-Ondina, se você é folião raiz, vai olhar da avenida para o Camarote Salvador e se perguntar o que tem ali dentro.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Seja o que for que o Camarote Salvador oferece, parece que vale a pena a quem experimenta. Afinal, já são 26 edições em funcionamento, como o camarote mais visado, desejado e caro do carnaval de Salvador. O ingresso mais barato para 2026, para acesso a um único dia, está custando R$ 2.650; o mais caro, R$ 4.180.
Há 12 anos, quem está por trás do sucesso do Camarote Salvador é a administradora Luciana Villas Boas, CEO da Premium Entretenimento, de 54 anos. A empresa se dedica exclusivamente ao camarote, fazendo os frutos do carnaval renderem o ano todo. O faturamento da Premium não é divulgado. No ano passado, o camarote movimentou cerca de R$ 160 milhões na economia local, número que tende a aumentar em 2026.
“Quando eu fui chamada para ir para a Premium, a gente já tinha, na época, o Camarote Salvador, que era um produto reconhecido, era um produto forte. Mas não tínhamos uma empresa, digamos assim. A gente queria estruturar uma empresa com todos os processos bem definidos, desde financeiros a recursos humanos, a processos ligados ao marketing, à tecnologia. O Camarote Salvador é um evento 100% proprietário”, afirma.
Do camarote surgiu o Hotel Camarote Salvador, com diárias disponíveis a partir de R$ 3 mil. A maioria das opções requer estadia mínima de três ou quatro noites e boa parte delas já está esgotada.
“A nossa estratégia sempre foi, muito conscientemente, uma estratégia de verticalização. Então, a gente tem um produto forte, que é o Camarote Salvador, então como é que a gente oferece o melhor serviço para os nossos clientes no entorno do nosso produto?”, explica Luciana.
Daí surgiram não só o hotel, mas a plataforma de e-commerce próprio, o transfer com escolta e há também um lançamento para o decorrer deste ano que ainda não pode ser divulgado, mas que deve extrapolar o carnaval, segundo a administradora.
O camarote, a Bahia e polêmicas
Em 2001, quando o Camarote Salvador abriu as portas pela primeira vez, a música que estava na cabeça dos foliões era Uma bomba, do grupo Braga Boys. De lá para cá, muitos outros hits nasceram e morreram, assim como bandas viveram os cinco minutos de fama que uma música que estoura no carnaval é capaz de dar. A varanda do Camarote Salvador, por sua vez, permaneceu ali, assistindo aos ciclos de cada ano se concluir.
Luciana Villas Boas explica que o segredo para manter um produto vivo por tanto tempo está na pesquisa de tendências que são feitas atualmente a cada dois anos. Com o ritmo das mudanças geracionais, a CEO acredita que possa ser necessário até expandir para de ano em ano.
“O que essa geração Z, por exemplo, está consumindo em termos de entretenimento? O que ela prioriza? O que ela gosta em termos de atração? O que ela quer ver no evento? E aí a gente olha muito quais são as tendências, não só no Brasil, mas no mundo. Então, isso leva para a gente, traz alguns insights, por exemplo, de como é que a gente vai tratar a cenografia do evento”, afirma.
A pesquisa mais recente mostrou que o público do camarote, formado majoritariamente por turistas, queria se aproximar da cultura soteropolitana. Foi nessa linha que surgiu o anúncio de BaianaSystem na programação deste ano. O nome do grupo, conhecido por levantar bandeiras sociais, causou espanto aos fãs ao ser visto no lineup do camarote mais caro do carnaval de Salvador. Mas Luciana vê a repercussão como natural e longe de ser negativa.
“Toda vez que a gente dá um passo para inovar, a gente tem que estar pronto para, principalmente nos dias de hoje, para toda essa repercussão que pode acontecer. O BaianaSystem já rompeu a barreira da Bahia. Hoje é uma atração nacional, internacional, ganhou o Grammy. Acho que também existe esse desejo por parte da banda e por parte do público de conhecer mais de perto. Acho que as coisas precisam se comunicar, a rua com os espaços privados”, afirma.
A banda BaianaSystem vai se apresentar ao lado de Lazzo Matumbi, um dos expoentes do bloco afro Ilê Ayê. Também no mesmo dia, haverá uma apresentação do grupo Olodum no camarote. “É um movimento que a gente entende que seja de dar visibilidade mesmo para a nossa cultura”, considera Luciana.
Ano após ano, o camarote encontrou um jeito de se destacar nas notícias. Em 2015, uma parceria com a marca de camisinhas Durex deu o que falar: uma estrutura suspensa foi montada pela marca para que os frequentadores pudessem namorar por 15 minutos.
“O carnaval é difícil de explicar para os gringos”
Se por um lado quer reverenciar os artistas baianos, por outro, o Camarote Salvador também tem tradição de anunciar atrações internacionais que chamam a atenção dos turistas. Para este ano, o nome da vez é do norte-americano Ne-Yo.
Se tem uma coisa que o baiano sabe, é que o carnaval de Salvador não tem explicação. Imagine tentar descrever a magnitude desta festa única para artistas internacionais. Ta aí um dos maiores desafios vividos por Luciana no comando do Camarote Salvador nos últimos 12 anos.
“Tem uma coisa muito inusitada que é explicar para o artista internacional o porquê ele não pode chegar de carro dentro do camarote. Teve um artista especificamente, ele queria se hospedar no Hotel X, que é um hotel cinco estrelas, extremamente luxo. E nós falamos, esse hotel não dá, você não vai conseguir sair para chegar no Camarote Salvador, ele só queria este hotel”, relembra Luciana.
Com sufoco, o artista precisou de uma mega operação para conseguir chegar ao circuito depois da teimosia. A CEO também comenta sobre os DJs internacionais, que, por serem mais jovens, ela acredita, volta e meia ficam nervosos ao verem a multidão nas ruas da Barra-Ondina. “Teve um que na hora de sair do carro, ele não queria sair de jeito nenhum. Quando ele viu as pessoas na rua disse que não ia, que não queria sair, que não ia tocar”, conta.