Frevo e Maracatu, Pernambuco dá espaço aos dois ritmos
Alexandra Torres
Direto de Recife
Frevo ou Maracatu? No Carnaval Multicultural de Pernambuco há espaço para os dois ritmos. A chamada Terra do Frevo tem, nos últimos anos, possibilitado ao folião que vai ao Estado conhecer o Carnaval as diversas manifestações culturais que dão o colorido à festa. Um deles é o maracatu que pode ser de baque virado (nação) ou de baque solto (rural), além das agremiações que desfilam ao ritmo do frevo.
Foi em Pernambuco no início do século 19 que o ritmo atualmente conhecido como frevo originou-se como uma derivação das marchas tocadas pelas bandas marciais do Recife, tendo os metais como o maior peso de sua harmonia.
Por ter um ritmo frenético e que levantava a multidão nas ruas ganhou denominações como, "efervencente e fervura". Em 9 de fevereiro de 1907, no jornal Pequeno o ritmo passa ser chamado oficialmente de frevo, toma os salões de bailes ao ganhar letras e começar a ser cantado. A partir daí, definiu-se o frevo em três estilos: frevo de rua, canção e de bloco.
O frevo de rua é o que se chama de "frevo rasgado". Ele é executado por uma orquestra onde os metais dominam e não possui letra. O frevo canção possui uma orquestração semelhante ao de rua, só que acompanhado de letra.
Já o frevo de bloco ou lírico tem sua cadência compassada e lenta, executado por uma orquestra de pau e corda. É cantado, exclusivamente, por um coral de vozes femininas. As agremiações que desfilam ao som do ritmo podem ser encontradas em qualquer rua do Recife.
O maestro Clóvis Pereira, um dos grandes nomes do Carnaval de Pernambuco, apaixonou-se pelo frevo logo cedo, quando ainda era estudante de música no município de Caruaru, no agreste do Estado. Segundo ele, frevo e orquestra são coisas inseparáveis e que não sobrevivem um sem o outro.
O compositor de frevo de bloco Getúlio Cavalcanti é outro apaixonado pelo ritmo. Suas composições trazem histórias dos carnavais de Olinda e Recife e, de personalidades do Carnaval. Para ele, o frevo é a maneira de se imortalizar o próprio festejo do Estado.
O maracatu também se divide em dois estilos, nação e rural. O maracatu rural nasceu das senzalas, dos escravos negros que vieram para o Brasil e tem uma forte tradição religiosa. Segundo os historiadores, o maracatu nação ou de baque virado teve sua origem nas instituições dos reis negros ou reis do Congo, já existentes na França e na Espanha desde o século XV e, em Portugal a partir do séc. XVI.
Aqui no Brasil, o maracatu nação tem forte ligação com os cultos afro-brasileiros, principalmente, o candomblé e a jurema. Seu desfile se caracteriza pela reconstituição de uma corte com rei e rainha, damas, escravos, embaixador. E ainda, pela presença de bonecas ou calungas que representam os orixás.
Já o maracatu de baque solto ou rural, como é mais conhecido, surgiu ao final do século 19 com a reorganização da comunidade logo após o final da escravidão. A partir de 1914, os primeiros grupos se organizaram. Sua presença é mais marcante na Zona da Mata, norte de Pernambuco, em cidades como Aliança, Nazaré da Mara e Tracunhaém.
A figura mais marcante desse estilo de maracatu é o Caboclo de Lança, considerado o grande guerreiro ou guardião do cortejo. Com uma peruca de fitas coloridas, um manto todo bordado de lantejoulas, carregando um conjunto de chocalhos nas costas e uma lança colorida nas mãos, os caboclos de lança encantam pelo visual e pela coreografia que é de grande reverência.
Segundo o professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, Biu Vicente, em Recife os caboclos surgiram nos engenhos e nos terreiros e, não eram bem recebidos pela população por andarem armados com lanças. Para poderem desfilar na capital, tiveram que adequar o seu cortejo assemelhando-o ao do maracatu nação, ou seja, incluindo elementos como a corte e as baianas (damas da corte).
O percussionista Naná Vasconcelos participa da abertura do Carnaval do Recife comandando um grupo de 100 batuqueiros de maracatu de baque virado. Segundo ele, esse é um momento mágico do Carnaval. "O maracatu representa a alma do povo negro, é o culto aos antepassados", afirmou.