Cantora franco‑brasileira Gildaa lança primeiro disco guiado pela força da linhagem feminina
A cantora franco‑brasileira Gildaa lançou neste mês de março, na França, o seu primeiro disco, um álbum que nasce diretamente do espetáculo híbrido que a revelou no Centro Cultural 104, em Paris, e que desde então vem lotando salas e se expandindo para além do palco. O trabalho reúne 12 faixas em português e francês, mantendo intacta a dramaturgia que ela vem construindo desde os tempos de estudante de arte dramática no Conservatório Nacional.
Musicalmente, o disco reúne samba, canção francesa, jazz latino, soul, R&B e ritmos afro‑brasileiros, e já vem sendo apresentado como "álbum do mês" nas lojas da Fnac.
Segundo a artista, o repertório é o mesmo que foi apresentado no palco. "A ordem das músicas chegou sozinha, é essa e não vou mudar", conta. A abertura do álbum, "Mainha", funciona como um verdadeiro rito de passagem: uma alma que pede licença para reentrar no mundo, afirmando que já esteve aqui, mas "sem se lembrar da regra do jogo".
A ancestralidade brasileira é um dos pilares mais fortes do álbum. Em "Vela Velha", dedicada à bisavó materna Teresa, Gildaa compõe num registro emocional imediato: "Eu estava sozinha em casa, uma vela começou a dançar e Teresa apareceu no meu pensamento. A música veio inteira". Teresa, que ela nunca conheceu, aparece como guia invisível: "Acho que ela abriu um caminho para a gente e nos protege." Questões espirituais atravessam o disco. Mas sobre sua relação pessoal com o candomblé, ela prefere preservar o silêncio: "É uma coisa minha, que eu não vou falar agora, não".
A família de músicos, especialmente a irmã Yndi, tem papel central na construção do álbum. "Ela realmente dirigiu o disco. A gente cresceu numa festa constante, no samba, na canja. A música sempre esteve ali", diz.
'Uma entidade'
Gildaa relembra seu percurso múltiplo: violino na infância, teatro na adolescência, dança, circo, composição e percussão. É nesse momento que deixa escapar sua identidade civil: "Meu nome é Camille, Camille Constantin da Silva. Mas Gildaa é essa entidade [um alter ego], essa personalidade que carrega nossa linhagem inteira".
Encruzilhadas e ciclos de renascimento também estão presentes na faixa inspirada em Perséfone, deusa da primavera e rainha do mundo dos mortos na mitologia grega, que Gildaa relaciona a Oiá, orixá do vento, das transformações e do movimento entre mundos. "Perséfone ajuda a entender esse momento entre a sombra e a luz, esse equilíbrio que tantas mulheres estão buscando hoje."
Dualidade cultural
A recepção do público francês tem sido intensa e curiosa. Uma jornalista chegou a chamá‑la de "OVNI", termo que também ouviu em sua primeira apresentação no Brasil, no ano passado. Ela não se incomoda. "Adorei. Significa só que a energia é diferente - e não é só a minha". A dualidade cultural, diz, é sua força: "A Gildaa provoca uma queda de circuito. Obriga o público a parar e estar ali, naquele instante".
Em turnê pela França, com datas também na Bélgica e na Suíça, Gildaa se prepara para um dos shows mais importantes deste ciclo, na sala de espetáculos parisiense La Cigale, em 28 de maio. O retorno ao Brasil está nos planos. "Quero muito voltar. Só falta encontrar a melhor maneira de reunir o público", afirma. Entre o espetáculo e o disco, ela já imagina o futuro: "Esse é só o primeiro de sete álbuns. Não sei se vou conseguir chegar lá, mas o gol é esse".