Biografia: Por que amamos histórias reais de artistas e personalidades?
Seja nos cinemas ou nas páginas de livros, o interesse na vida de figuras mobiliza leitores e fãs. Conversamos com biógrafos, cineasta, crítico, livreira e psicanalista para entender o fenômeno
Dizem que não devemos conhecer nossos ídolos para não nos decepcionarmos ao perceber que eles também são humanos - que erram, sofrem, se arrependem, continuam errando. Mas a ver pelo número de biografias nas livrarias e a quantidade de cinebiografias nos cinemas, este não é um conselho que seguimos.
O que está por trás do boom das biografias?
Segundo o jornalista Elias Awad, autor de Oscar Schmidt: 14 Motivos Para Viver, Vencer e Ser Feliz (Novo Século), as pessoas leem biografias por "crescimento pessoal ou profissional" e o interesse nasce da curiosidade que aquela história pode despertar. Outro segredo do sucesso de um livro do gênero, segundo o autor, é a linguagem acessível. E, claro, ter algo que mexa com o leitor.
Já Julio Maria, jornalista especializado em música e autor de Elis Regina: Nada Será Como Antes, que acaba de ganhar uma nova edição pela Companhia das Letras, acredita que o interesse das pessoas pelas biografias pode ser explicado pelo fato da obra mostrar que os famosos também são pessoas normais, gerando uma identificação do leitor com o biografado.
"É inspirador porque as pessoas se veem na vida dos outros. Eu acho que saber das vitórias nem é tão inspirador, mas saber das derrotas e dos tombos pode ser mais inspirador do que saber que aquele mito é maravilhoso, inalcançável, inatingível."
Uma das livreiras mais conhecidas de São Paulo, Cida Saldanha, que trabalha na Livraria da Vila, já testemunhou os altos e baixos do gênero, mas garante: a biografia não sai de moda. Há ondas de interesse, dependendo do assunto em alta no momento ou do que está acontecendo no mundo, mas alguns títulos sempre serão procurados pelos clientes.
Um exemplo de biografia best-seller que ela dá é Em Busca de Mim, em que atriz Viola Davis conta sua história de superação. A obra é de 2022 e não é sucesso apenas na Vila. Nesta segunda, 19, quase três anos depois do lançamento, o livro é o quarto mais vendido na lista de Biografias e Casos Reais, da Amazon.
Cida dá um segundo exemplo, e explica que quando sai uma série ou um filme biográfico a venda dos livros em que foram baseados ou de outros títulos sobre a pessoa retratada aumenta muito. "Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, está em alta agora, embora seja um livro que tenha sido lançado em 2015?, comenta. E de novo: se você abrir o site da Amazon agora, o livro que deu origem ao filme que rendeu ao Brasil seu primeiro Oscar, é o terceiro na lista.
Mas não para por aí. A livreira disse que na esteira do filme e do livro sobre Eunice Paiva, outros títulos e biografias, especialmente envolvendo a ditadura militar no Brasil, também tiveram bons resultados de venda.
Cinebiografias nas salas de cinema e no streaming
As biografias também estão dominando as salas de cinema, com filmes que mais cedo ou mais tarde vão ser vistos e revistos em casa. Um desses exemplos é Maria Callas, filme com Angelina Jolie que retrata uma das maiores cantoras de ópera de todos os tempos, que concorreu aos principais prêmios da última temporada e acaba de estrear no Prime Video (veja aqui outras estreias).
Olhando para o cinema nacional, em 2023 os brasileiros foram levados aos cinemas para assistir a história de Gal Costa ser contada em Meu Nome é Gal. Com Sophie Charlotte dando vida à cantora.
A cinebiografia dirigida por Dandara Ferreira e Lô Politi começou a ser produzida antes de Gal Costa morrer, em 9 de novembro de 2022.
Dandara revelou que o maior desafio da produção foi conseguir transmitir os conflitos de Gal nas telas de cinema, já que as angústias da cantora eram internas. Ela também admitiu que algumas cenas foram modificadas para poderem retratar melhor alguns aspectos da vida da artista.
"Uma boa cinebiografia vai além da simples questão de narrar os eventos da vida de uma pessoa. Eu acho que ela precisa encontrar um ponto de vista, um recorte, destacar os conflitos internos e externos do personagem e criar uma jornada emocional envolvente", opinou.
A cineasta também afirmou que uma boa cinebiografia não se limita à linearidade dos fatos. "Ela precisa se preocupar em explorar a subjetividade, os dilemas e as contradições da figura retratada", diz. E precisa transformar um evento, que seria basicamente narrado em um livro, em dramaturgia por meio da linguagem visual para que o público seja atraído e se sinta conectado com a história que está sendo contada.
O que explica o sucesso das biografias?
Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema e colaborador do Estadão, acredita que o sucesso das cinebiografias é determinado pelo talento de quem escreve o roteiro e dirige o filme.
"Muitas vezes as biografias mitificam ou distorcem a imagem das pessoas abordadas. Mas as melhores são aquelas mais equilibradas, que não santificam o personagem e nem deixam que ele perca sua aura, pois em geral são pessoas que fizeram coisas extraordinárias ou tiveram papel importante em momentos históricos."
Para ele, o crescimento do interesse pelas biografias pode ser justificado pelas abordagens usadas para retratar os personagens de maneira mais complexas, sem santificá-los ou condená-los, de maneira com que o público consiga se identificar com o biografado.
Sérgio Telles, psicanalista e autor de obras como O Psicanalista Vai ao Cinema, explicou que o interesse e curiosidade na vida de outras pessoas é algo normal e que faz parte das relações afetivas que estabelecem o laço social.
"Numa comunidade, há uma permanente troca de informações, notícias, mexericos a respeito de seus participantes, o que tanto pode aproximá-los como amigos ou separá-los como inimigos. O interesse nas outras pessoas expressa o permanente jogo de projeção e identificação que sobre elas fazemos, algo próprio de nossas fantasias inconscientes. Essa característica fica mais evidente no que diz respeito às figuras públicas, alvo de idealizações e injúrias. Sob outra perspectiva, as outras pessoas são o grande Outro, cujo desejo procuramos decifrar e satisfazer, para que ele nos ame", ele explica.
Para ele, o fascínio vem justamente da identificação. "É tranquilizador pensar que o peso do passado, o tumulto do presente, o enigma do futuro, que tantas vezes nos deixam confusos e perdidos, podem ser domados e que outros já passaram pelos mesmos sofrimentos e conseguiram traçar seus destinos, encontrando um sentido para a vida, quando ela muitas vezes parece não ter nenhum", complementou.
Sem contar, ele finaliza, com o conforto que as biografias podem proporcionar aos leitores ao mostrar justamente a dimensão humana das personalidades retratadas. Por mais famosa que ela seja.
*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais