Bíblias, ateísmo e livro raro do século 17: visitamos a biblioteca do arqueólogo Rodrigo Silva
'Minhas convicções são cristãs, mas também dialogo com outras correntes de fé e até de descrença', explica o pastor e teólogo, que mostrou sua coleção de livros ao 'Estadão'; veja vídeo
Escolha um idioma e é provável que o pastor Rodrigo Silva tenha uma Bíblia escrita nele. De português e inglês ao hebraico e grego. O teólogo e arqueólogo uniu a religião à ciência e se especializou no estudo do livro sagrado do Cristianismo.
"Apesar dos meus pais não terem o hábito da leitura, eu lembro de desde criança ter uma veia 'bibliófila'. Eu frequentava a Igreja Católica do meu bairro e ficava muito admirado com a estante de livros do pároco", recorda Silva. A biblioteca pessoal de Silva guarda até hoje exemplares herdados do padre Sebastião Roque, que foi bispo emérito de Belo Horizonte.
Educado no catolicismo, Silva hoje é pastor da Igreja Adventista de Sétimo Dia e professor universitário. Ele acumula mais de 3 milhões de seguidores no YouTube e no Instagram, onde se dedica a explicar a Bíblia de maneira científica e didática.
"A Bíblia tem uma tremenda vantagem em relação a outros clássicos antigos. Existem cerca de 5,8 mil cópias do Novo Testamento em diferentes partes do mundo. Todos datados dos séculos 2 a 10 da nossa era", explica o teólogo.
Mesmo 2025 anos após o nascimento de Cristo, a Bíblia segue relevante? Para Silva, a resposta é sim. "As pessoas estão querendo muito mais uma relação mística com o sagrado. Muito baseada no individualismo. Então dá-se realmente essa impressão que a Bíblia está ficando em desuso. Mas os números mostram o contrário. Ainda é o livro mais lido, vendido e publicado do mundo."
O estudo da Bíblia não exclui outras leituras da rotina do pastor. De seu acervo, ele destaca um exemplar de Confissões, de Santo Agostinho, que garimpou em um sebo nos anos 1980. "Por uma questão de espaço, eu doei muitos livros, em especial os clássicos, que hoje temos de fácil acesso na internet. Mas de alguns mais afetivos, como este, é difícil de desapegar."
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O acervo do pastor ainda guarda raridades como um Manual do Ano usado pela Igreja Católica datado de 1613. "Era um livro que orientava os ritos de missas", explica Silva ao manusear com cuidado o livro, que pesa facilmente mais de 1 kg. Ele mostra ainda outras obras antigas como um exemplar da História do Concílio de Trento, de 1704.
Ateísmo e outras religiões
"Embora eu tenha as minhas convicções cristãs muito bem estabelecidas, isso não significa que eu não dialogue com outros tipos de fé", ressalta Silva.
Há espaço na estante para uma seção exclusivamente dedicada ao judaísmo, incluindo a Torá e o Talmud. O Alcorão, do islamismo, também tem uma edição em português no acervo. "E eu também já li outras obras como o Bhagavad Gita e o Mahabharata, da tradição hindu, ou o Zendavesta, do zoroastrismo.
Ateus e agnósticos também fazem parte da coleção. Sapiens, do historiador Yuval Noah Harari, está ao lado de Deus, um Delírio, do biólogo Richard Dawkins, considerado um expoente da corrente 'neoateísta'.
Silva explica que até determinado momento na história, escritores ateus, como o caso de Nietzsche, não estavam preocupados em convencer o mundo de suas crenças ateias. "Só que isso mudou, e Dawkins é um dos principais nomes por acender publicamente o debate da inexistência de Deus", explica.
O pastor e teólogo, no entanto, pondera: "É muito curioso como Dawkins e eu, ambos baseados no método científico, fazemos as mesmas perguntas e, ao contrário dele, eu chego à conclusão de que é impossível que Deus não exista."