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Tabloide sensacionalista é indicado ao prêmio Pulitzer

9 mar 2010 - 18h39
(atualizado às 18h41)
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Stephanie Clifford
Direto do Rio

O telefonema chegou no final de setembro de 2007 -para o número de denúncias do National Enquirer em Los Angeles, divulgado em anúncios no jornal sensacionalista e acompanhado pela promessa de que "pagamos bem por suas fofocas sobre celebridades". A mensagem informava que uma mulher chamada Rielle Hunter estava tendo um caso com John Edwards, então pré-candidato à presidência dos Estados Unidos.

Menos de uma hora mais tarde, a denúncia já havia chegado à mesa de Barry Levine, o editor executivo do National Enquirer em Nova York. Os leitores do jornal não ligavam muito para a política em si, pelo menos enquanto houvesse casamentos problemáticos a cobrir em Hollywood, ou fotos de celebridades exibindo celulite. Mas Levine ficou intrigado ao pesquisar sobre Edwards no Google e descobrir que o candidato e sua mulher, Elizabeth, tinham um dos mais admirados casamentos, entre todos os então pré-candidatos à presidência.

Isso significava que Edwards estava sobre um pedestal, e a missão do National Enquirer sempre foi derrubar qualquer pessoa encontrada nessa situação. "Isso mostra aos leitores que as pessoas prósperas, as pessoas ricas, a quem eles talvez admirem, se excetuarmos o dinheiro têm exatamente os mesmos problemas que as pessoas comuns", disse o editor.

Designando repórteres para estudar o rumor, Levine deu início a um processo que no passado pareceria impensável: não só derrubar um pré-candidato à presidência cuja imagem até aquele momento parecia impecável como obter algo pelo menos semelhante à respeitabilidade jornalística, para um tabloide sensacionalista.

Por ser a primeira e, em larga medida, a única publicação a manter viva a história sobre Edwards, apesar de ele ter negado o caso e as alegações de que havia tido um filho fora do casamento, o National Enquirer foi indicado para um prêmio Pulitzer, e conta com forte apoio de outros jornalistas para recebê-lo. O sucesso levou Levine a considerar a possibilidade de abrir uma sucursal em Washington, a fim de procurar mais sujeiras dos políticos.

É um momento curioso para que o National Enquirer esteja em alta. A empresa que o controla, American Media, quase quebrou no ano passado.

Um antigo editor alega que a companhia pressionou Tiger Woods a aparecer em matéria de capa da revista Men's Fitness, outra das publicações do grupo, em troca do cancelamento de um artigo do National Enquirer que denunciaria suas infidelidades já em 2007. (David Pecker, o presidente da American Media, se recusou a comentar sobre o assunto, mas diz não trocar favores por cobertura positiva.)

No mercado específico do National Enquirer, a concorrência nunca foi mais intensa, com organizações como a TMZ e jornais tradicionais que antigamente não cobriam muito esses assuntos dedicando cada vez mais espaço à vida pessoal das celebridades.

Mas o National Enquirer se mantém à frente ao fazer o que outros jornais não fazem. No caso de Edwards, a publicação empregou grande número de repórteres, cobriu centenas de milhares de dólares em despesas, organizou campanas, pagou informantes e publicou artigos baseados integralmente em fontes anônimas.

Essas táticas geraram um debate quanto à elegibilidade do National Enquirer para o Pulitzer, o mais prestigioso dos prêmios norte-americanos de jornalismo. "Quando você paga as pessoas por informações, as informações mesmas se distorcem", disse Kelly McBride, diretora do grupo de ética do Instituto Poynter, embora ela tenha alegado que apoia a indicação do tabloide ao Pulitzer.

Leonard Downie Jr., antigo editor executivo do jornal Washington Post, disse que considera esses métodos aceitáveis desde que o National Enquirer não tenha usado fontes pagas para os artigos especificamente candidatos ao prêmio. Levine diz que seu jornal não paga as fontes de seus artigos, mas não se arrepende de ter usado métodos como esse nas reportagens iniciais sobre Edwards.

"Creio que nós sejamos os bárbaros à porta", disse Levine, comparando seu jornal às grandes publicações. "Representamos muito do que eles desdenham, mas ao mesmo tempo os superamos em seu próprio jogo".

Ainda assim, esse jogo tem regras rígidas. Sig Gissler, administrador do Prêmio Pulitzer, disse em mensagem de e-mail que, embora o comitê de premiação não discuta inscritos ou especule sobre resultados, qualquer jornal sediado nos Estados Unidos e que publique notícias ao menos uma vez por semana pode participar da disputa.

"Cabe ao júri e ao conselho da organização Pulitzer determinar os méritos", disse Gissler. E ele acrescentou que o prêmio se refere exclusivamente a trabalhos jornalísticos realizados e publicados em 2009. Boa parte dos furos sobre Edwards foram dados antes disso.

Depois da primeira denúncia, em 24 de setembro de 2007, o National Enquirer começou a deslindar a história. Em sua edição de 22 de outubro daquele ano, o jornal já havia obtido fontes suficientes junto a Hunter e na campanha de Edwards para confirmar que existiam ao menos rumores sobre um caso extraconjugal. O então editor, David Perel, publicou um artigo sobre a infidelidade de Edwards, mas não mencionou o nome da mulher envolvida.

O tabloide estava jogando ping-pong jornalístico, sacando para o lado adversário da mesa e esperando para ver a devolução recebida. Não demorou para que blogs identificassem Hunter como a amante de Edwards, com base na descrição dela que o artigo oferecia ¿ela havia sido operadora de câmera na organização de campanha do pré-candidato.

Isso levou a novas denúncias de que ela estaria grávida e que havia se mudado para um condomínio fechado na Carolina do Norte, perto de Andrew Young, um assessor de Edwards que recentemente publicou The Politician, livro no qual revela todos os detalhes do caso. O jornal não demorou a alugar uma casa no condomínio, para permitir que seus repórteres passassem pela cerca e portões fechados de entrada.

Quando não conseguiram conversar com Hunter no condomínio, os repórteres prepararam uma lista de obstetras locais. Porque os jornalistas do National Enquirer não têm autorização para pagar profissionais médicos ¿isso poderia violar as leis de privacidade de informações médicas-, pediram aos seus contatos informações sobre quem poderia ser o médico de Hunter, e reduziram suas opções a dois ou três consultórios, diante dos quais se postaram de vigia por mais de duas semanas.

A quarta-feira, 12 de dezembro, foi um dia de calor apesar do inverno na região de Cary, Carolina do Norte, com previsão de até 23 graus de temperatura. E foi aquele o dia em que Hunter, usando jeans e um suéter leve ¿e evidentemente grávida- foi ao consultório de um dos obstetras. "Se ela estivesse de casaco, não teríamos conseguido a foto", disse Levine.

Um fotógrafo fez uma série de fotos quando ela passou por ele.Depois que o jornal contactou a organização de campanha de Edwards em busca de comentários, recebeu telefonemas dos advogados de Young e de Hunter, insistindo em que Young era o pai da criança. Mas a equipe do National Enquirer não acreditou.

"Não conheço muitos homens que tenham a coragem de levar para a casa em que moram com a esposa uma amante grávida", disse Perel. Na edição de 31 de dezembro do jornal, o furo sobre Edwards ocupava três páginas: "O Escândalo do Filho Ilegítimo de John Edwards"; os artigos eram assinados por sete repórteres da publicação.

A repercussão? Nenhuma. Os grandes veículos de mídia optaram por não acompanhar a história. Hoje, algumas organizações noticiosas alegam que não foram capazes de corroborar as alegações e outras que as reportagens pareciam indignas de confiança, vindas de um tabloide. O segundo motivo era político: pelo final de janeiro de 2008, Edwards havia abandonado sua campanha pela indicação presidencial.

"Quando a história passou em branco, depois de todo aquele trabalho, passamos dois dias inconformados e tentando pressionar nossos contatos em outros veículos de mídia ¿'cacem essa história; ela existe'", disse Perel. "Quando se tornou claro que Edwards pretendia simplesmente desconsiderar as alegações, usando subterfúgios e afirmando que não rebateria ao 'lixo dos tabloides', nós reconsideramos a questão e decidimos que a história ainda não tinha acabado".

Por volta da metade de 2008, o National Enquirer recebeu uma denúncia de que Edwards ia se encontrar com Hunter e o bebê no Beverly Hilton. Alguns repórteres do jornal se registraram no hotel e descobriram os quartos reservados para Hunter. (Os repórteres do jornal muitas vezes pagam recepcionistas por essas informações, mas nesse caso tinham instruções de não abordar os funcionários do hotel, que protege muito as celebridades que costuma hospedar, porque o pessoal contactado poderia alertar Edwards.)

Os repórteres do National Enquirer viram Edwards chegar ao hotel por uma porta lateral; horas depois, quando ele estava saindo de um elevador, o abordaram, e o político se escondeu em um banheiro masculino.

Em 22 de julho, o National Enquirer publicou um artigo afirmando que Edwards havia sido "apanhado em flagrante visitando a amante e o filho ilegítimo", e em sua edição de 18 de agosto publicou fotos que, segundo a publicação, o mostravam brincando com o bebê no hotel.

A história por fim conquistou a atenção da grande mídia. Em 8 de agosto, quando as primeiras cópias da edição do National Enquirer que continha as fotos chegaram às bancas, Edwards foi ao programa Nightline e reconheceu o caso e o episódio no hotel. Ele divulgou um comunicado para confirmar a informação naquele dia, mas só reconheceria a paternidade da criança meses depois.

Apesar de a parte mais lúbrica do assunto estar encerrada, o National Enquirer continuou acompanhando a história. Os artigos pelos quais se candidatou ao Pulitzer de 2009 incluem notícias sobre a investigação de um júri de instrução quanto ao possível abuso de verbas de campanha por Edwards para pagar Hunter, e sobre o teste de ADN de Edwards para confirmação de paternidade.

Gissler disse que o comitê do Pulitzer havia questionado a elegibilidade do National Enquirer apenas porque a publicação às vezes se define como revista e não jornal, e não porque ocasionalmente ela faz pagamentos às suas fontes. O National Enquirer provou que é um jornal, e os artigos inscritos foram aceitos, disse Gissler, que se recusou a comentar sobre as chances de vitória do tabloide ou discutir se o uso de fontes pagar influenciaria a decisão.

"Jornalismo de alta qualidade sempre foi a marca do Prêmio Pulitzer, e deixamos ao júri determinar as três peças mais distintas em cada categoria", disse. Mesmo que nenhum de seus artigos chegue à lista final, o National Enquirer ainda assim está recebendo uma espécie de acolhida fraternal, ainda que meio desenxabida, da parte do jornalismo convencional. Mas, para Levine, isso não é uma grande notícia. "Da próxima vez", disse, "a mídia convencional não vai esperar tanto para nos seguir quanto nesse caso. As reportagens deles serão mais agressivas, e não creio que voltemos a ter a oportunidade de cobrir um assunto como esse sozinhos".

Foto: Reprodução
The New York Times
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