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Prêmio da Bienal para Lina Bo Bardi é 'reparação', diz autor de biografia

Arquiteta ítalo-brasileira é a estrela mais importante do evento

21 mai 2021 - 14h41
(atualizado às 14h50)
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A 17ª edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, que será aberta ao público neste sábado (22), tem como sua principal homenageada a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), que receberá o Leão de Ouro póstumo pela sua intensa carreira.

Lina Bo Bardi receberá Leão de Ouro da Bienal de Veneza
Lina Bo Bardi receberá Leão de Ouro da Bienal de Veneza
Foto: Agência Estado / Ansa - Brasil

O curador do evento italiano, o mais importante do mundo, Hashim Sarkis, afirmou que não há nenhum arquiteto que possa representar melhor o tema da Bienal de 2021 - Como Viveremos Juntos? - do que Lina. "A sua carreira de projetista, editora, curadora e ativista nos lembra do papel do arquiteto como coordenador bem como um criador de visões coletivas", pontuou Sarkis.

Mas, o que significa a premiação para a arquiteta, nascida Achillina Bo, que escolheu o Brasil como seu país de moradia? Para o crítico e ensaísta Francesco Perrotta-Bosch, que publicou o livro "Lina: uma biografia" neste mês, o reconhecimento trata-se de uma "reparação histórica".

"Acho que é um ato de reparação histórica muito grande que pode ser visto em duas medidas: uma é um grande reconhecimento para uma arquiteta mulher do século 20, e todos nós sabemos como a humanidade num sentido amplo age sobre a paridade de gênero; e o outro é uma reparação da própria obra dela, que é uma obra fascinante e que muitas vezes exacerbou a própria arquitetura. O prêmio, então, vem ratificar a obra de Lina Bo Bardi", disse Perrotta-Bosch em entrevista à ANSA.

Em sua detalhada pesquisa, o autor mostra uma profissional extremamente envolvida com o mundo e que acreditava em seus ideais tanto para suas obras como para a vida em sociedade.

Para Perrotta-Bosch, uma "das grandes virtudes" era que suas crenças passavam dos discursos e "quando a gente olha com cuidado o Sesc Pompeia e o Masp, por exemplo, a gente começa a encontrar uma certa coerência nas ideias dela e o que ela realizou". Sobre duas das mais famosas obras da arquiteta, o crítico traz uma reflexão sobre as ideias de Lina.

"Todas as pessoas que já puderam passar uma tarde de sábado ou almoçar no Sesc Pompeia, sem a pandemia, claro, veem as características do uso daquele lugar, de como as pessoas se apropriam daquele lugar de maneira generosa. Ali você pode descansar, o ócio, o descanso, o lazer são permitidos, você pode comer por um preço justo. Então, ali tem um senso comunitário que é muito impressionante e que demonstra muito das próprias características da Lina, que vão além do projeto e da forma, com um projeto de instituição, um projeto de sociedade", ressalta.

Já no Museu de Arte de São Paulo (Masp), localizado na Avenida Paulista, "o mais esclarecedor não é dentro do museu em si, mas o vão do Masp". "Um espaço onde, de certa maneira, é aberto e um pouco contrário ao 'não pode'. Não à toa, o vão livre do Masp virou uma espécie de marca, um ponto de referência para protestos porque ali é um espaço não controlado, um espaço aberto ao outro", destaca à ANSA.

Sobre a paixão pelo Brasil, Perrotta-Bosch ressalta o que Lina via de maravilhoso no país na década de 1940, logo após deixar uma Itália dilacerada por conta dos ataques e combates da Segunda Guerra Mundial. Em determinado trecho da obra, o autor destaca que ela nunca pensou em voltar ao país-natal, ao contrário do marido, Pietro Maria Bardi, que tinha um desejo de voltar ao território italiano.

"Eu diria que a experiência da guerra dela, dos bombardeios em Milão, [...] ela ali teve uma experiência da tragédia, do desastre humano, da barbárie. Teve que viver, obrigatoriamente, a vivência italiana da guerra e da barbárie, quando isso chega na porta de casa e, de certa maneira, a própria vida é colocada em risco", ressalta.

Citando, especialmente, a viagem para o sertão da Bahia, a primeira que fez em território nacional, o autor pontua que ver os sertanejos fazendo objetos para uso diário de coisas que já tinham sido utilizadas, a aproxima dos brasileiros.

"Ela viu aqueles objetos como ponto de partida de um novo país e estabelece um valor afetivo com aquelas pessoas, com os sertanejos. Ela já teve em uma situação que era essa, de sobrevivência, de pensar que tudo que é o nosso objetivo para o amanhã é 'que eu esteja vivo'", acrescenta.

Por esse motivo, a obra aproxima "Milão e Bahia" de maneira proposital. "Aqui tem algo que Milão não tinha, que ela vê no Brasil como um ponto de reinício, um ponto de algo novo para a humanidade. Isso é muito valioso, ela almeja um projeto de país, mais do que um projeto arquitetônico, do que o Brasil pode ser", diz ainda.

A obra "Lina: uma biografia" já está à venda tanto na versão impressa (R$ 89,90) como por e-book (R$ 34,90).

Bienal de Veneza

A 17ª edição da Bienal de Arquitetura de Veneza começa no dia 22 de maio e segue até o dia 21 de novembro e contará com a presença de 63 países. O evento deveria ter sido realizado em 2020, mas foi adiado em um ano por conta da pandemia de Covid-19.

O Brasil, além de ter a principal estrela como destaque, tem seu Pavilhão com curadoria do estúdio colaborativo Arquitetos Associados. O local vai promover debates sobre as utopias e os edifícios do modernismo - que impactaram Lina em sua chegada ao país no Rio de Janeiro -, além de discussões sobre urbanismo no país.

O ministro dos Bens Culturais da Itália, Dario Franceschini, participou da inauguração do Pavilhão do país-sede nesta sexta-feira (21) e garantiu que as condições de segurança e os protocolos sanitários serão respeitados durante o evento.

"Essa é a demonstração à Itália e ao mundo de que a cultura pode ser retomada, naturalmente, com medidas indispensáveis: máscaras, distanciamento, contingenciamento e reservas. Também com essas limitações será possível ir adiante com uma grande temporada de retomadas: voltaram os cinemas, os teatros, os museus, as mostras, e a Bienal é um sinal que sim, que se pode fazer isso em segurança", afirmou aos jornalistas. .

Ansa - Brasil
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