Prêmio da Bienal para Lina Bo Bardi é 'reparação', diz autor de biografia
Arquiteta ítalo-brasileira é a estrela mais importante do evento
A 17ª edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, que será aberta ao público neste sábado (22), tem como sua principal homenageada a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), que receberá o Leão de Ouro póstumo pela sua intensa carreira.
O curador do evento italiano, o mais importante do mundo, Hashim Sarkis, afirmou que não há nenhum arquiteto que possa representar melhor o tema da Bienal de 2021 - Como Viveremos Juntos? - do que Lina. "A sua carreira de projetista, editora, curadora e ativista nos lembra do papel do arquiteto como coordenador bem como um criador de visões coletivas", pontuou Sarkis.
Mas, o que significa a premiação para a arquiteta, nascida Achillina Bo, que escolheu o Brasil como seu país de moradia? Para o crítico e ensaísta Francesco Perrotta-Bosch, que publicou o livro "Lina: uma biografia" neste mês, o reconhecimento trata-se de uma "reparação histórica".
"Acho que é um ato de reparação histórica muito grande que pode ser visto em duas medidas: uma é um grande reconhecimento para uma arquiteta mulher do século 20, e todos nós sabemos como a humanidade num sentido amplo age sobre a paridade de gênero; e o outro é uma reparação da própria obra dela, que é uma obra fascinante e que muitas vezes exacerbou a própria arquitetura. O prêmio, então, vem ratificar a obra de Lina Bo Bardi", disse Perrotta-Bosch em entrevista à ANSA.
Em sua detalhada pesquisa, o autor mostra uma profissional extremamente envolvida com o mundo e que acreditava em seus ideais tanto para suas obras como para a vida em sociedade.
Para Perrotta-Bosch, uma "das grandes virtudes" era que suas crenças passavam dos discursos e "quando a gente olha com cuidado o Sesc Pompeia e o Masp, por exemplo, a gente começa a encontrar uma certa coerência nas ideias dela e o que ela realizou". Sobre duas das mais famosas obras da arquiteta, o crítico traz uma reflexão sobre as ideias de Lina.
"Todas as pessoas que já puderam passar uma tarde de sábado ou almoçar no Sesc Pompeia, sem a pandemia, claro, veem as características do uso daquele lugar, de como as pessoas se apropriam daquele lugar de maneira generosa. Ali você pode descansar, o ócio, o descanso, o lazer são permitidos, você pode comer por um preço justo. Então, ali tem um senso comunitário que é muito impressionante e que demonstra muito das próprias características da Lina, que vão além do projeto e da forma, com um projeto de instituição, um projeto de sociedade", ressalta.
Já no Museu de Arte de São Paulo (Masp), localizado na Avenida Paulista, "o mais esclarecedor não é dentro do museu em si, mas o vão do Masp". "Um espaço onde, de certa maneira, é aberto e um pouco contrário ao 'não pode'. Não à toa, o vão livre do Masp virou uma espécie de marca, um ponto de referência para protestos porque ali é um espaço não controlado, um espaço aberto ao outro", destaca à ANSA.
Sobre a paixão pelo Brasil, Perrotta-Bosch ressalta o que Lina via de maravilhoso no país na década de 1940, logo após deixar uma Itália dilacerada por conta dos ataques e combates da Segunda Guerra Mundial. Em determinado trecho da obra, o autor destaca que ela nunca pensou em voltar ao país-natal, ao contrário do marido, Pietro Maria Bardi, que tinha um desejo de voltar ao território italiano.
"Eu diria que a experiência da guerra dela, dos bombardeios em Milão, [...] ela ali teve uma experiência da tragédia, do desastre humano, da barbárie. Teve que viver, obrigatoriamente, a vivência italiana da guerra e da barbárie, quando isso chega na porta de casa e, de certa maneira, a própria vida é colocada em risco", ressalta.
Citando, especialmente, a viagem para o sertão da Bahia, a primeira que fez em território nacional, o autor pontua que ver os sertanejos fazendo objetos para uso diário de coisas que já tinham sido utilizadas, a aproxima dos brasileiros.
"Ela viu aqueles objetos como ponto de partida de um novo país e estabelece um valor afetivo com aquelas pessoas, com os sertanejos. Ela já teve em uma situação que era essa, de sobrevivência, de pensar que tudo que é o nosso objetivo para o amanhã é 'que eu esteja vivo'", acrescenta.
Por esse motivo, a obra aproxima "Milão e Bahia" de maneira proposital. "Aqui tem algo que Milão não tinha, que ela vê no Brasil como um ponto de reinício, um ponto de algo novo para a humanidade. Isso é muito valioso, ela almeja um projeto de país, mais do que um projeto arquitetônico, do que o Brasil pode ser", diz ainda.
A obra "Lina: uma biografia" já está à venda tanto na versão impressa (R$ 89,90) como por e-book (R$ 34,90).
Bienal de Veneza
A 17ª edição da Bienal de Arquitetura de Veneza começa no dia 22 de maio e segue até o dia 21 de novembro e contará com a presença de 63 países. O evento deveria ter sido realizado em 2020, mas foi adiado em um ano por conta da pandemia de Covid-19.
O Brasil, além de ter a principal estrela como destaque, tem seu Pavilhão com curadoria do estúdio colaborativo Arquitetos Associados. O local vai promover debates sobre as utopias e os edifícios do modernismo - que impactaram Lina em sua chegada ao país no Rio de Janeiro -, além de discussões sobre urbanismo no país.
O ministro dos Bens Culturais da Itália, Dario Franceschini, participou da inauguração do Pavilhão do país-sede nesta sexta-feira (21) e garantiu que as condições de segurança e os protocolos sanitários serão respeitados durante o evento.
"Essa é a demonstração à Itália e ao mundo de que a cultura pode ser retomada, naturalmente, com medidas indispensáveis: máscaras, distanciamento, contingenciamento e reservas. Também com essas limitações será possível ir adiante com uma grande temporada de retomadas: voltaram os cinemas, os teatros, os museus, as mostras, e a Bienal é um sinal que sim, que se pode fazer isso em segurança", afirmou aos jornalistas. .