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O legado desconhecido de Niemeyer na Argélia em fotos: 'Como encontrar uma cidade maia perdida, só que modernista'

Em texto e fotografias, fotógrafo explora período argelino na carreira do arquiteto e inclui desenhos inéditos e plantas com anotações dele

2 nov 2019
21h44
atualizado em 11/11/2019 às 12h50
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"Quando vi os prédios pela primeira vez, fiquei estupefato. Como se eu tivesse me deparado com uma cidade maia perdida, só que feita de prédios modernistas, deslumbrantes."

Auditório na forma de um livro aberto na Universidade de Mentouri, na Argélia, com projeto de Niemeyer em um momento em que país tentava se reconstruir
Auditório na forma de um livro aberto na Universidade de Mentouri, na Argélia, com projeto de Niemeyer em um momento em que país tentava se reconstruir
Foto: JASON ODDY / BBC News Brasil

É assim que o fotógrafo e escritor britânico Jason Oddy descreve o que sentiu ao se deparar com prédios projetados pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer na Argélia.

Oddy é o autor de um livro que se propõe a ser "o mais abrangente" já publicado sobre o legado do carioca no país norte-africano.

The Revolution Will Be Stopped Halfway: Oscar Niemeyer in Algeria (em tradução livre, "A Revolução Será Interrompida: Oscar Niemeyer na Argélia") foi lançado no final de outubro nos Estados Unidos e está à venda na loja Amazon brasileira. A editora é a Columbia Books on Architecture and the City.

Ao registrar a importante obra deixada por Niemeyer na Argélia, o livro também captura o que foi, para o escritor, um episódio único na história do século 20: o momento em que, livre do jugo de um colonizador brutal, uma nação africana emerge das cinzas da guerra e convida um arquiteto visionário para participar da construção de um novo país. A Argélia do futuro, radical, moderna e confiante.

A revolução será interrompida, diz o título do livro. Mas o legado de Niemeyer permanece. Qual seria o seu papel na Argélia hoje? — indaga o autor.

As reflexões de Jason Oddy vêm acompanhadas de um ensaio fotográfico de sua autoria e também de plantas, desenhos inéditos e anotações feitos por Niemeyer.

Do Brasil para o mundo

Um dos mais importantes representantes da arquitetura moderna no mundo, Oscar Niemeyer nasceu em 1907 e morreu em 2012 — com quase 105 anos. Famoso internacionalmente como o homem que projetou Brasília, ele assina centenas de obras distribuídas por vários países. Entre elas, o prédio da ONU, em Nova York (que ele projetou em parceria com o suíço Le Corbusier) e o prédio do Partido Comunista Francês, em Paris.

Seu estilo inconfundível se caracteriza pelo uso de muito concreto, vidro, curvas e vãos livres. Liberdade, surpresa, fantasia e originalidade eram os valores que orientavam o trabalho do arquiteto. Oscar Niemeyer costumava dizer que sua arquitetura tinha nenhuma finalidade senão a beleza.

La Coupole (A Cúpula), Parque Olímpico, Algiers. Construída para sediar os Jogos do Mediterrâneo, em 1975: 'para Niemeyer, a grande arquitetura tinha de ter surpresa. E essa obra não se parecia com nada do que existia na Argélia pós-colonial'
La Coupole (A Cúpula), Parque Olímpico, Algiers. Construída para sediar os Jogos do Mediterrâneo, em 1975: 'para Niemeyer, a grande arquitetura tinha de ter surpresa. E essa obra não se parecia com nada do que existia na Argélia pós-colonial'
Foto: JASON ODDY / BBC News Brasil

Membro do Partido Comunista Brasileiro, o arquiteto se exilou na França após o golpe militar de 1964. "Tive dificuldades para trabalhar. Quiseram me calar", ele declarou no documentário A Vida é um Sopro, do diretor Fabiano Maciel. Iniciou-se, então, uma fase mais internacional na carreira do arquiteto, que passou a receber convites de diversos países, inclusive a Argélia.

O legado argelino: tesouro esquecido

Durante uma década trabalhando para o então presidente argelino Houari Boumediènne — entre 1968 e 1978 —, Niemeyer projetou duas universidades e um centro de esportes.

"Eram como esculturas que pareciam levar o concreto até seus limites físicos e poéticos", diz Oddy.

Ele se refere aqui aos prédios do campus da Universidade Constantine, hoje Mentouri. Ele fica nos arredores da cidade de Constantine, 650 km ao leste da capital, Argel. Esta foi a primeira das obras argelinas de Niemeyer que o fotógrafo visitou, por acaso, durante uma viagem à Argélia, em 2010.

"Me pareceram tão idealistas. Eram espaços não hierárquicos, criados para dar poder aos estudantes."

"(Arquitetura como essa) era algo tão improvável em um país tão novo e relativamente pobre", comenta.

"Fiquei surpreso em saber que projetos tão importantes haviam desaparecido da história da arquitetura e da história do próprio Niemeyer", diz.

"Ele construiu 600 prédios, continua construindo, postumamente. Mas ao contrário do que ocorreu com suas obras brasileiras, ou com o prédio do Partido Comunista em Paris, por exemplo, ningém escreveu sobre os prédios argelinos. Caíram no esquecimento."

Corridor (Corredor), subsolo da biblioteca da Universidade de Mentouri, Constantine: 'Corredores são espaços neutros, que servem para levar a algum lugar. Com suas curvas sinuosas, marca registrada do estilo de Niemeyer, esse corredor revela o espírito do prédio'
Corridor (Corredor), subsolo da biblioteca da Universidade de Mentouri, Constantine: 'Corredores são espaços neutros, que servem para levar a algum lugar. Com suas curvas sinuosas, marca registrada do estilo de Niemeyer, esse corredor revela o espírito do prédio'
Foto: JASON ODDY / BBC News Brasil

Os poucos livros sobre o tema, publicações brasileiras ou estrangeiras, têm foco restrito, detalhando apenas parte do legado do arquiteto no país norte-africano.

Um fator que talvez contribua para isso, ele pondera, é a situação política no país. "A Argélia hoje é um país fechado, o turismo não é encorajado e jornalistas não são vistos com bons olhos."

Mas, na década de 1970, houve um período de relativa abertura.

Otimismo revolucionário

Líder rebelde durante uma sangrenta guerra de independência contra a França, o oficial do Exército argelino Houari Boumediènne subiu ao poder por meio de um golpe de Estado em 1965, três anos após a vitória dos revolucionários.

Mais de um século de colonização francesa (1830-1962) havia deixado a Argélia praticamente analfabeta.

"Em 1832 (quando se iniciava o domínio francês), 95% da população da Argélia sabia ler e escrever", conta Oddy. "Em 1962, quando os colonizadores foram embora, 90% não sabiam ler."

Por isso, a primeira obra que o presidente da Argélia independente encomendou ao brasileiro foi uma universidade, diz à BBC News Brasil o engenheiro carioca Bruno Contarini, de 81 anos, que trabalhou com Niemeyer durante mais de meio século (hoje envolvido na construção da Nova Catedral de Niterói, desenhada por Niemeyer).

Contarini: 'Era um artista'

"O Boumedienne saiu pelo lado da educação do povo. Em um ano, entregamos a universidade (de Constantine) já funcionando, com alunos. Quatro ou cinco anos depois, já tinha gente formada na universidade."

"Depois, o Niemeyer fez a Universidade de Argel e fez também o Centro Olímpico."

Contarini diz que Niemeyer ficou satisfeito com as obras.

"Ficou feliz. O que ele pedia a gente fazia. Em Constantine, o vão é de 50 metros, fica bonito. Niemeyer gostava de espaços grandes."

"Ficava apaixonado pelas obras. Era um artista. Botava a mão e fazia as coisas bonitas."

Swoop (Mergulho), Universidade de Mentouri, Constantine; 'Essa foi a primeira obra de Niemeyer que vi na Argélia. Fiquei estupefato. Eram tantas formas esculturais, aquilo parecia mais um parque de esculturas do que um campus universitário'
Swoop (Mergulho), Universidade de Mentouri, Constantine; 'Essa foi a primeira obra de Niemeyer que vi na Argélia. Fiquei estupefato. Eram tantas formas esculturais, aquilo parecia mais um parque de esculturas do que um campus universitário'
Foto: JASON ODDY / BBC News Brasil

O engenheiro explica que — crucialmente, para o arquiteto — o "cliente" deixava a equipe brasileira muito à vontade.

"Niemeyer ficava livre para criar, o pessoal aceitava o que ele pedia."

Entre as obras argelinas, a favorita de Contarini é o ginásio de esportes.

"Estruturalmente e em beleza, a sala de esportes (é a minha favorita). Uma estrutura de cem metros de vão com espessura de 20 cm e sem apoio nenhum", comenta o engenheiro.

"(Niemeyer) pensava, dava um traço, resolvia. Tinha a estrutura no sangue. Todas as obras dele são fáceis. Tudo tem uma lógica, ele não forçava, nunca me pediu coisa impossível. Eu falo que é difícil só pra fazer média."

Para o fotógrafo Jason Oddy, o ginásio de esportes ilustra a visão de Niemeyer para a Argélia:

"Essa forma futurística, como um disco voador, encapsula o projeto de Niemeyer para a Argélia. Trazer a Argélia para o futuro, para a era espacial. Para Niemeyer, a grande arquitetura tinha de ter surpresa. E essa obra não se parecia com nada do que existia na Argélia pós-colonial."

Em seu livro, Jason Oddy descreve a combinação de fervor revolucionário pós-colonial, arquitetura moderna e a construção de um Estado como algo singular.

"Niemeyer deve ter sentido o otimismo e a euforia que existiam na Argélia naquele período. Sabia que não era um país democrático, mas talvez tenha sentido que havia idealismo no trabalho que estava fazendo."

Mas havia limites para o papel do arquiteto. A mesquita projetada por Niemeyer e nunca construída serve como um símbolo desses limites — além de ser a origem do título do livro.

'Revolução Interrompida'

"Um dos projetos, não sei se foi encomendado ou se foi iniciativa do próprio Niemeyer, era de uma mesquita. O desenho lembra vagamente a Catedral de Brasília", diz Oddy.

Quando Niemeyer mostrou a maquete a Boumediènne, conta Jason, o presidente teria comentado: "É bonita, mas bastante revolucionária."

"Sim, senhor presidente. Mas a revolução não pode ser interrompida no meio do caminho", Niemeyer teria respondido.

Nesse ponto da entrevista, o tom de Jason Oddy revela uma certa melancolia.

"Encomendaram a ele um novo centro cívico para o governo, um novo palácio presidencial, ministérios, uma praça central. Um monumento para a revolução, uma nova área residencial... nada disso foi construído."

"Niemeyer ia construir uma Brasília na Argélia, uma nova cidade, muito diferente da forma como as potências coloniais haviam construído o país. Mas seu plano revolucionário pós-independência nunca se tornou realidade. A Argélia não é um país livre."

Argélia, 40 anos depois

Boumediènne morreu em 1978. O espírito revolucionário e otimista do período pós-independência na Argélia deu lugar, na década de 1990, a uma guerra civil entre grupos islâmicos e forças do governo.

Em 1999, um líder com pulso firme, Abdelaziz Bouteflika, assumiu o controle e permaneceu no poder até abril deste ano, quando foi forçado a renunciar por uma combinação de protestos da população e pressão dos militares. Um presidente interino, Abdel Kader Ben Salah, governa atualmente com respaldo das Forças Armadas.

Até fevereiro deste ano, protestos eram raros e pouco tolerados, mas desde então, argelinos têm ido às ruas regularmente para reivindicar eleições e a volta de um regime democrático no país.

Para analistas, no entanto, as chances de que isso aconteça são pequenas — especialmente agora, com os militares de volta à cena.

O Legado de Niemeyer

No documentário de Fabiano Maciel A Vida é um Sopro, filmado quando Niemeyer tinha 97 anos, o arquiteto lamanta o fato de que, "por enquanto, só quem usa a arquitetura é quem tem dinheiro".

Mas não foi assim com as obras argelinas, comenta Jason Oddy.

Como raramente se vê na história da humanidade, na Argélia de Niemeyer a arquitetura ousada e visionária foi colocada a serviço não das elites políticas ou religiosas, mas dos estudantes.

"Niemeyer estava projetando as universidades que educariam o povo que construiria aquele país."

Testemunho de um jovem jornalista

Um daqueles estudantes, hoje com 50 anos de idade, é o jornalista Kamel Souiad, do BBC Arabic, serviço árabe da BBC.

Souiad estudou letras na Universidade de Constantine no ínício da década de 1980. Ele lembra com nostalgia daquele tempo e descreve o impacto que sentiu ao chegar do interior, com 18 anos de idade, para estudar no campus projetado por Oscar Niemeyer:

"Nunca tínhamos visto algo parecido", conta. "Os prédios não eram amontoados uns sobre os outros, então você tinha uma sensação de liberdade, sentia o espaço à sua volta. Era um lugar mágico, carcado por árvores e plantas."

Hoje, os prédios e os lindos jardins já não estão em muito bom estado. Mas não é assim que Souiad, em sua memória, os vê.

"O prédio que mais nos impressionava era um auditório imenso, com forma de um livro aberto. Ao lado, havia uma coluna que parecia uma caneta, e duas depressões no solo, que pareciam dois potes de nanquim."

"Não é só um prédio", reflete. "O livro aberto é cheio de simbolismo."

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