Guilherme Fiuza é o autor de Meu Nome não é Johnny, livro que narra a história de João Guilherme Estrella, um jovem de classe média alta do Rio de Janeiro que se envolve com o tráfico de drogas nos anos 90, e que acabou se tornandon um grande sucesso no cinema. É também o autor da biografia de Bussunda, Bussunda - A Vida do Casseta. Escreveu ainda dois outros livros - 3000 dias no Bunker e Amazônia, 20º Andar: De Ipanema para o topo do mundo, uma jornada na trilha de Chico Mendes. Mas ele garante que seu melhor personagem é outro: chama-se Reynaldo Gianecchini. Isso mesmo, o ator. Fiuza está lançando Giane - Vida, Arte e Luta, livro que conta a história do ator alçado ao ao estrelato de uma hora para outra na novela Laços de Família, em 2000.
Biografado e biógrafo posam juntos para divulgar 'Giane'
“Os primeiros 40 anos de vida do Gianecchini dariam um livro mesmo sem a luta contra o câncer, porque a vida dele é algo absolutamente mágico”, disse Fiuza em entrevista por telefone ao Terra. "É o meu personagem mais forte. Porque o João Estrella (de Meu Nome não é Johnny) é um personagem interessantíssimo, mas muito pelas circunstâncias, porque ele é um cara de classe média que vira um grande traficante. O Bussunda é um cara super original, mas no caso dele, o humor também protagoniza muito o livro. E o Gianecchini não, o Gianecchini é ele e a vida dele. Puros”, completou.
Fiuza admitiu que nunca tinha prestado muita atenção à carreira de Giane, como ficou conhecido o ator, que nunca havia pensando nele como um “biografável”, mas que acabou sendo “convencido” a escrever o livro após uma conversa com seu editor e outra com o próprio ator. “É inacreditável as aventuras, a situação em que ele se mete, a sorte, as coincidências... É uma coisa de novela mesmo”, garantiu. Ele cita como exemplo o trabalho que transformou Gianecchini em um modelo conhecido. Era uma campanha publicitária que teria Carlos Casagrande como estrela. “Na hora das fotos, as roupas ficaram apertadas no Casagrande e o diretor teve de apelar para o modelo secundário, que era o Giane”, contou.
Narrado de forma não-linear, o livro começa contando o episódio em que Gianecchini descobre a doença, mas volta no tempo para contar da infância em Birigui, no interior de São Paulo, da experiência como modelo no exterior, de como conheceu Marília Gabriela e como foi viver uma história de amor com uma mulher mais velha - e lidar com a curiosidade da imprensa em torno do romance. Aborda, também, questões delicadas, como os boatos de que seria homossexual e por que eles surgiram - ele estava se relacionando com uma mulher casada que, diante da fúria do marido, alegou que Giane era gay - e, claro, sobre o câncer que pôs em risco a vida de um dos maiores galãs da televisão brasileira aos 38 anos. Para contar essa história, além de longas horas de conversa com o biografado - uma das sessões chegou a sete horas -, Fiuza conversou também como amigos de Giane, como Mariana Ximenes, a empresária Marcia Marbá e Claudia Raia. De acordo com ele, o ator leu a biografia, mas não pediu nenhuma alteração antes da publicação. “Eu falei para ele desde início: ‘não vou abrir mão de mostrar quem você é’”, garantiu.
Leia a seguir a entrevista com Guilherme Fiuza
Terra - Como surgiu a ideia de fazer esse livro?
Guilherme Fiuza - Os meus quatro livros foram sempre iniciativas minhas. A biografia do Gianecchini é a primeira sugestão que eu recebi de fora e aceitei. Primeiro porque o meu editor, uma pessoa que eu conheço e que eu ouço muito, fez praticamente um apelo no início: “olha, presta atenção que essa é uma grande história”. Eu falei pra ele “olha, não combina muito, porque eu não tô tão interessado na vida do Gienacchini e tal”. Aí ele disse “pô, dá uma pesquisada, dá uma olhada e tal, porque é um cara muito interessante”. E. na verdade, o Helio tinha quase essa intuição, porque ele não sabia muito mais do que eu sabia. Eu sabia o que todo mundo sabe, que é um cara muito bonito, que é um cara do bem, inteligente, modesto, um exemplo de superação. O que não é pouco, ele é um exemplo, um ídolo e tal. Mas, para escrever um livro, não basta isso. Estou te dando essa explicação porque algumas pessoas têm me perguntado: “mas por que uma biografia do Gianecchini, um cara de 40 anos? Por que esteve doente e tal?”. E a minha resposta é: não é por isso. Posso até ir além. Os primeiros 40 anos de vida do Gianecchini dariam um livro mesmo sem a luta contra o câncer, porque a vida dele é algo absolutamente mágico.
Terra - Como você descobriu isso?
Guilherme Fiuza - A primeira coisa que eu imaginei é que um cara que vê a cara da morte rende pelo menos um thriller psicológico, porque evidentemente é um momento que você se volta para você, que você vai repensar a sua vida inteira, enfim, isso te sacode e te vira de cabeça para baixo. Então eu sabia que teria isso. Só que ele, desde garoto, é um cara altamente reflexivo e até visionário. E eu posso falar isso numa boa porque a primeira coisa que eu disse para ele, para a empresária dele foi a seguinte: eu não quero contar a história de um exemplo. Isso não me serve como história. Eu quero contar uma história humana, com todas as dimensões, os conflitos, os momentos feios e etc. E eu fui apurando a história e entendendo que se tratava de uma pessoa iluminada, um cara que contraria totalmente o seu meio. Com menos de dez anos de idade, ele dizia para os pais que ele sairia de Birigui e rodaria o mundo. E os pais achavam aquilo meio curioso, enraçado. Só que ele foi repetindo, martelando. E, quando ele era adolescente, os pais já sabiam que aquilo era um projeto mesmo. Então era um cara muito original. E a vida foi muito original com ele. Até na doença. Ele teve um câncer raro, o tipo mais raro desse câncer raro, ele teve um acidente muito raro na colocação de um catéter, depois ele teve uma infecção pulmonar muito grave também, que é transmitida por morcegos e que ele possivelmente contraiu na infância na fazenda da avó. Mas a vida dele também tem muita sorte. Em vários momentos as coisas acontecem na hora certa e tal. Então a vida dele é muito assim, quase um folhetim.
Terra - Daria uma novela?
Guilherme Fiuza - Em vários momentos, eu falo “não, isso não é possível, o roteirista exagerou”. No primeiro trabalho dele como modelo de publicidade, ele já estava há um tempo fazendo testes e tal, mas não conseguia trabalho. Até que ele conseguiu um trabalho de um encarte das lojas Mappin que sairia no Estadão, mas era uma pontinha, porque o modelo principal era o Carlos Casagrande. Mas aí, na hora H, aconteceu uma dessas coisas inacreditáveis que acontecem com ele. A roupa principal não coube no Carlos Casagrande. Ele estava muito forte, muito musculoso e a roupa ficou justa. E o diretor falou “não tá legal, não dá pra fotografar assim, me traz outra”. Mas não tinha outra. Aí o diretor olhou para o lado, olhou para o Gianecchini e disse “experimenta naquele ali então”. Ele experimentou e virou a estrela desse anúncio.
Terra - Em que momento você chegou à conclusão de que era realmente uma história interessante e decidiu escrever o livro?
Guilherme Fiuza - Na verdade, eu decidi escrever antes de saber o quanto a história era interessante. Qando eu estive pessoalmente com ele, eu fiquei interessado, eu saquei a pessoa, já tive uma pista ali de como o cara era interessante. Falamos um pouquinho, algumas coisas da vida dele, eu já vi que tinha muita história e ali eu resolvi fazer, mas só depois eu descobri que era uma história incrível... Eu garanto pra você que o melhor de todos os personagens do Gianecchini é ele mesmo. As aventuras, as situações em que ele se mete, a sorte, as coincidências, é tudo inacreditável... É uma coisa de novela mesmo. E isso eu só fui saber na medida em que eu fui apurando histórias, fui conversando com as pessoas que conviviam com ele, a Claudia Raia, a Mariana Ximenes, a Célia Fortes, produtora de teatro em São Paulo, a Marcia Marbá, irmã da Angélica que é empresária dele, o Silvio de Abreu... Essa turma foi me dando umas histórias incríveis e a melhor fonte de todas foi ele mesmo, porque, além de ele ser um personagem interessante,ele é muito inteligente, muito mais do que o público possa supor, porque as entrevistas são sempre um pouco superficiais. Foi ótimo, porque eu já tinha decidido fazer o livro. E aí eu fui descobrindo que aquilo que eu queria estava lá e muito mais. Foi uma boa supresa.
Terra - E como foram as conversas com ele, os encontros?
Guilherme Fiuza - Não sei te dizer quantos encontros eu tive com ele, mas foram encontros longos, porque não tínhamos muito tempo. Confesso que eu apurei em um mês e meio e escrevi em dois meses e meio. A gente conseguiu fazer umas sete sessões. Ele tinha um dia de folga e a gente conversava longamente, E aí tem que tirar o chapéu pra ele, porque a resistência dele foi inigualável. Nunca vi. Fiz cinco livros já, entrevistei gente de todo tipo, intelectuais e pessoas mais acostumadas à questão da palavra... E ele segurava umas ondas. A gente teve uma sessão que durou sete horas, uma de seis horas, umas duas sessões que duraram cinco horas e meia. E isso é muito raro, porque, mesmo que você se disponha, chega uma hora em que a cabeça não aguenta, que você está saturado psicologicamente, fora o fato da emoção, porque o cara está falando de coisas muito emocionantes, partes difíceis e tal. Então ele mostrou uma bravura incrível nessa etapa. E só por isso que foi possível. Porque, se não fossem essas sessões maratona, não daria. Quer dizer, eu faria o livro de qualquer maneira, mas em vez de ser um livro de 300 páginas, ia ser um livro de menos de 200 e mais superficial. E eu acabei conseguindo fazer uma biografia da qual eu tenho o maior orgulho, apresento tranquilamente como uma biografia.
Terra - Por que você teve de escrever tão rápido? Foi uma exigência da editora?
Guilherme Fiuza - Não foi nenhuma exigência. O projeto foi muito de parceria, então resolvemos tudo juntos. E a editora achava que esse era o ano dele, porque foi o ano em que ele se curou, que estava voltando para a TV... Era o momento de falar disso. Nós até cogitamos fechar o livro só no ano que vem, mas aí achamos o seguinte: no ano que vem, depois dessa novela agora (Guerra dos Sexos), depois desse momento, que é o momento do retorno dele, começa uma outra história. Eu acho que a vida continua, felizmente, e se inicia um outro ciclo. Então eu achava que, pra você fazer a biografia precoce de uma pessoa, aos 40 anos, era importante contar essa história que, de certa forma, terminou com o câncer e a cura. Por conta dessas questões, chegamos à conclusão de que tinha que sair esse ano e, para sair esse ano, tinha que ser corrido desse jeito.
Terra - Teve algum assunto difícil de ser abordado?
Guilherme Fiuza - Não, nenhum assunto foi difícil de abordar, porque no início da conversa eu já falei que eu achava que só valia fazer do jeito que eu faço, que não é um livro encomendado. Mostrar esse ser humano completo, com os voos e os tombos, as glórias e os vexames. A iniciação sexual dele é muito engraçada. Eu fui puxando essas coisas, o lado bem prosaico, bem comum das pessoas. Então, na primeira vez que ele transa, ele transa com uma mulher linda, mais velha do que ele. Ele já estava tava fissuradíssimo, mas vivia no interior, onde as pessoas são mais conservadoras, então os atos da vida adulta vêm um pouco mais tarde e tal. Quando ele tinha uns 15, 16, começou a namorar uma garota linda, a mais bonita da escola, mais velha que ele ele um pouquinho, um ano. Só que era uma menina muito religiosa, filha de militares, então muito conservadora. As questões do amor com ela também seriam mais tardias. E aí, quando ele sacou que estava perto de ele sair de Birigui, porque o vestibular era o passaporte para isso, ele terminou essa relação. E aí ele estava solto nessa época e essa mulher mais velha meio que escolheu ele assim, na rua, na noite de Birigui e eles transaram de cara. Era uma mulher de 21 anos e uma mulher liberada pros padrões de Birigui E aí foi uma apoteose, porque o cara estava louco pra transar. E aí eu fui explorando muito, como foi, onde foi, e ele foi contando. É tudo meio engraçado, meio cômico, com alguns anti-clímax. O maior anti-clímax de todos é que ele, depois de transar, acha que é melhor o sexo sozinho. Eu fui puxando, mas ele também teve a abertura, a coragem de ir falando. Porque ele é uma pessoa púbblica, um ídolo e tal, poderia muito bem não querer expor essas coisas meio ridículas do crescimento. Mas foi muito bacana, deu para falar de tudo o que eu queria.
Terra - Algum assunto foi proibido?
Guilherme Fiuza - Não. A questão da Marília Gabriela, que foi um grande amor, mas ao mesmo tempo cercado de muito tumulto, muito falatório, a gente falou disso também numa boa. Até porque foi uma história linda dele com a Gabi. O início foi lindo, de conto de fadas, quando eles se encontram, se apaixonam. E foi esse encontro que fez com que ele voltasse ao Brasil, porque ele estava na carreira internacional, que era tudo o que ele queria. Ele esava vivendo em Paris e trabalhando em Milão, Munique, Nova York, Los Angeles... E ele voltou ao Brasil por causa dela basicamente. Na verdade, ela sacou nele também o artista, que ele era mais do que aquilo que ele estava fazendo, modelo e tal. Então falamos legal disso tudo. Também sobre a morte do pai dele, a doença, que foi super sofrida pra ele... Eu fui puxando, tinha que falar. O livro mostra desde que o pai dele ficou doente, depois ele ficou doente também, aquela coisa de novela mesmo. A vida dele é toda assim. Mas falamos de tudo, do transplante dele, que ele sofreu demais... Ele não queria muito falar disso, porque achava que podia desencorajar as pessoas, foi um negócio medieval mesmo, desumano. Mas eu falei “olha, a gente tá fazendo uma história real, volto a dizer: não é uma mensagem que está sendo passada, um exemplo e tal, então vamos falar disso, você está sendo cincero e eu estou sendo honesto com o leitor”.
Terra - Vocês falaram também sobre os boatos de homossexualidade?
Guilherme Fiuza - Falamos. E foi tranquilo porque, se você conhece o Gianecchini pessoalmente, se ele fosse um cara travadão, meio enrustido, escondido, mas ele é um cara corajosíssimo em termos afetivos, ele é o antirreprimido, ele curtiu tudo o que ele quis curtir. É claro que ele fala um pouco dos boatos também. Pra você ter uma ideia, quando eu comecei a fazer o livro, veio uma pessoa aqui do Rio de Janeiro muito bem relacionada, muito bem informada, me dizendo “olha, já que você tá fazendo a história do Gianecchini, eu queria que você soubesse que ele tem aids”. Eu perguntei “é mesmo? Tem certeza?”. E a pessoa falou “tenho, tenho fontes seguras e tal. Ele realmente tem aids, só para você saber”. Aí eu entrei no trabalho com isso, pensando “vou checar isso”, mas ele não tem aids. Eu não perguntei isso pra ele de cara, mas fui vendo, conversei com o médico dele, vi os exames negativos e tal. Mas ele nunca quis falar, convocar uma coletiva pra mostrar ali o laudo negativo. Então tinha muito boato e eu não podia ignorar esses boatos. O boato de ser gay também. Teve a história de uma mulher que estava transando com ele, depois do casamento dele com a Gabi, quando ele foii viver a juventude tardiamente, vai curtir todas e tal. Começou num Carnaval da Bahia, em que ele se deslumbrou com aquela coisa liberada dos baianos. E aí ele estava saindo com uma mulher que não falou que era casada. A mulher, para se defender do marido, que descobriu tudo, disse “não, meu bem, não se preocupa não, porque o Gianecchini é gay. Eu vou lá porque é divertido, ele com os namorados dele”. Então ficou esse boato de que o cara é gay e não sei mais o quê. Mas ele curtiu várias coisas, várias experiências, várias aventuras. Acho que é um cara que sabe amar, um cara que não se reprime, e a gente falou disso de um jeito muito aberto, muito saudável.
Terra - Você já disse que o Gianecchini é o personagem mais forte sobre o qual você escreveu. É mais forte até do que o João Estrella?
Guilherme Fiuza - É, é mais forte pelo seguinte: porque o João Estrella é um personagem interessantíssimo, mas ele é muito interessante também pelas circunstâncias, porque ele é um cara de classe média que vira um grande traficante. O Bussunda, por exemplo, é um cara interessantíssimo também, super original como é o Gianecchini, mas, no caso dele, o humor também protagoniza muito o livro. E o Gianecchini não, o Gianecchini é ele e a vida dele. Puros. É evidente que tem as novelas, mas você quando ler vai ver que as novelas não protagonizam. Apesar de ter feito um monte de novela, o que segura a história dele é ele mesmo, é essa pessoa muito original que ele é e a vida dele folhetinesca, em que as coisas acontecem de um jeito incrível. Então o personagem puro - ele e a vida dele - é o mais interessante.
Terra - Ele leu o livro antes da publicação?
Guilherme Fiuza - Leu.
Terra - Pediu alguma alteração?
Guilherme Fiuza - Não, não pediu nenhuma. Naquela conversa inicial que eu mencionei, eu tinha falado pra ele “olha, acho que dá pra fazer se vocês estiver muito aberto”. Ele conhecia meus livros anteriores, pelo menos dois, eu acho. Então ele sabia meu jeito de contar, isso já ajudava. Eu falei pra ele “você sabe meu jeito de contar e eu vou querer mostrar quem você é. Não vou abrir mão desse objetivo, quero mostrar quem você é”. E tudo bem, a forma como eu vou mostrar é um problema meu. Por exemplo, a Angélica, vúva do Bussunda, tinha algumas coisas na história, algumas informações que eu mencionei, que não eram confortáveis pra ela, até pelo Bussunda já ter morrido. Eu fiz um acordo e ela leu também antes da publicação, anotou os pontos de que ela não gostava, porque eram informações que ela não queria ver publicadas, me entregou e falou “mas você não precisa fazer nada com isso, você pode publicar do jeito que você escreveu, só quero que você saiba os pontos que me incomodaram”. Então foi um gesto lindo, de grandeza e tal. E com o Gianecchini foi a mesma coisa.