"Achei difícil assisti-lo", diz Noomi Rapace sobre 'Prometheus'
Sucesso nas bilheterias de todo o mundo, o longa-metragem Prometheus, mais recente trabalho do cineasta Ridley Scott, chega às lojas nesta quarta-feira (17) em DVD, Blu-ray e Blu-ray 3D. Quando estava em exibição nos cinemas, o filme, apesar de contar com estrelas como Michael Fassbender e Charlize Theron no elenco, foi elogiado especialmente por sua protagonista, Elizabeth Shaw, interpretada pela sueca Noomi Rapace. Em entrevista divulgada pela distribuidora Fox Film, a atriz disse que mergulhou com todas suas forças na personagem, mas admitiu ter ficado apreensiva com o resultado final.
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"Achei bastante difícil assisti-lo. Quando estou trabalhando, sempre deixo de lado minha vaidade. Não quero fazer nada para parecer bem ou para ser admirada. Preciso afastar tudo isso, tentar encontrar uma verdade na personagem e fazer o que ela precisa fazer. Depois, quando assisto ao filme pronto, penso: 'olha, é assim que eu sou' e é um pouco decepcionante", afirmou Noomi.
Confira abaixo a entrevista na íntegra.
Você malhou muito para se preparar para esse filme?
Noomi - Malhei com um personal trainer praticamente todos os dias. Quando a vi pela primeira vez, disse: "quero me transformar em um gato. Quero mudar meu corpo para deixá-lo preparado para qualquer coisa". Gatos podem correr sempre que precisarem, podem pular sempre que precisarem. Eles caem e sempre estão novamente em pé. Queria ajustar meu corpo e ficar forte, afinal minha personagem, Elizabeth Shaw, estava se preparando para uma jornada. Foi aí que comecei a correr bastante. Quando estávamos filmando na Islândia, estávamos no meio do nada, não havia academia. Então eu saía bem cedo e começava a correr. Todos me viam correndo em círculos no hotel. E também teve aquela roupa de borracha que usei na segunda metade do filme. Aquilo era tão quente que eu não conseguia respirar, parecia que eu estava vestindo plástico. Às vezes ficava tão irritada que me recusava a usar protetores, como joelheiras e cotoveleiras. O coordenador me pedia para usar, já que eu fazia muitas cenas de quedas, mas eu pensava: "não consigo colocar nada embaixo dessa roupa". Só que isso não foi bom. Meus joelhos e cotovelos estavam completamente machucados no final das filmagens.
Quão profundo você mergulhou nesse papel?
Noomi - Para mim, não se trata de trabalho, o personagem se torna minha vida. E eu não sou boa em conciliar muitas coisas ao mesmo tempo. Fico focada apenas em uma pessoa por meses, às vezes até seis. É estranho porque, quando faço cenas que exigem muito fisicamente, não sinto dor. Ela só aparece quando chego em casa ou no hotel. Quando você está envolvido não sente nada, apenas continua fazendo. Lembro que, quando estava fazendo uma cena com um dos Engenheiros e ele estava sendo bastante duro comigo, Ridley Scott (o diretor) ficava perguntando se eu estava ferida e eu respondia que não. Sou boa em evitar a dor quando é necessário.
A cena do aborto é perturbadora...
Noomi - E foi provavelmente a mais difícil de fazer. Nós trabalhamos nela por uma semana inteira acho. Aquilo realmente tomou conta de mim. Eu tive inclusive alguns sonhos meio loucos. Sonhei um dia que eu acordava, tocava minha barriga e sentia alguma coisa se mexendo! Aí eu pensei: "meus Deus, isso está acontecendo de verdade, preciso avisar o Ridley". Sempre me envolvi assim, gosto dessa sensação. Quando decido entrar em um personagem, sei que tudo aquilo pelo que ela passará estará circulando em minhas veias, em meu corpo, não importa quão louco, perturbador ou extremo for. De um jeito estranho, eu estarei curtindo ao mesmo tempo. Essa sequência do aborto foi horrível e eu gritei por dias, semi-nua, com toda a equipe ao meu redor, mas sentia que Ridley estava lá comigo. Isso é uma coisa que amo nele. Parece que ele está respirando, pensando e vivendo o personagem comigo. Nem percebia que estava semi-nua. Sempre senti que estávamos dividindo alguma coisa. Nunca precisamos conversar tanto, nós concordávamos em silêncio.
Como você se sentiu quando viu o filme pronto?
Noomi - Achei bastante difícil assisti-lo. Quando estou trabalhando, sempre deixo de lado toda minha vaidade. Não quero fazer nada para parecer bem ou para ser admirada. Preciso afastar tudo isso, tentar encontrar uma verdade naquela personagem e fazer o que ela precisa fazer. Depois, quando assisto ao filme, penso: "olha, é assim que eu sou" e é um pouco decepcionante. Mas acho que Prometheus é um pouco alucinante. Fiquei impressionada, ele não se parece com nenhuma outra coisa. Ridley tem esse dom enorme de criar filmes gigantescos e ao mesmo tempo colocar vida real nele. Personagens reais com desejos, sonhos e esperanças reais. Foi como a primeira vez que assisti a Blade Runner. É um filme de ficção científica, mas você pode sentir o cheiro quando Harrison Ford está comendo aquela comida asiática. É um pouco pegajoso e é isso que Ridley queria - ele não queria que ficasse perfeito, mas que ficasse sujo e verdadeiro.
Você usou Signourey Weaver, do Alien, como referência?
Noomi - Assisti Alien mais uma vez antes de começar a filmar. Sempre me inspirei nela, acho que em praticamente tudo que já fiz. Ela é tão durona, legal e sexy, sem fazer pose. É uma mulher tentando sobreviver sem vaidade. Mas Ridley deixou claro: "você não é Signourey, nem sua mãe, nem ninguém. Prometheus é um filme original que vai se manter sozinho". Não falamos sobre isso, mas eu podia ver algumas semelhanças entre as duas sim.
Você teve que se esforçar muito nos diálogos?
Noomi - Três anos atrás, eu não falava inglês. Não era uma boa aluna e não fazia minha lição de casa, então, quando tive minha primeira coletiva de imprensa de The Girl With The Dragon Tattoo, entrei em pânico. Foi horrível. Não conseguia me expressar e decidi, naquele dia, que não queria viver daquele jeito. Eu precisava falar sobre meu trabalho. Para mim é tão pessoal e tão importante descrever o processo do personagem. Já é difícil fazer isso no seu próprio idioma, pois envolve intuição, emoção, estruturas psicológicas. É difícil colocar em palavras. Depois, comecei Sherlock Holmes e fiquei mais uma vez em pânico, já que era meu primeiro filme em inglês. Não sabia se eu conseguiria fazer, até porque Robert Downey Jr. gostava muito de improvisar. E ele é divertido, eu não queria chegar e dizer: "ei, isso não está no roteiro". Mas, estranhamente, depois de algumas semanas esqueci que aquela não era minha língua.
Como você está lidando com o sucesso?
Noomi - Acho que estou fazendo praticamente tudo o que sempre fiz. Sempre estou trabalhando e amo isso. Amo ser atriz. É um paraíso, liberdade total. Tudo é permitido e você pode ser qualquer coisa. De qualquer forma, não leio sobre mim mesma, não sei nada do que falam sobre mim. Minha vida mudou muito, me sinto abençoada e sortuda, tenho a oportunidade hoje de trabalhar com pessoas que admiro e respeito. É chocante quando percebo que estou atuando com pessoas tão incríveis, mas ao mesmo tempo tenho que ignorar isso, não dá para trabalhar desse jeito. Não posso ficar: "estou trabalhando com Ridley Scott, meu Deus, isso é tão demais, acho que vou morrer...". É preciso ter foco.
Onde você está morando?
Noomi - Sinto como se eu fosse uma cigana. Fico me mudando com minha mala toda hora, mas estou procurando uma casa em Londres.
Você disse que não era uma boa aluna. É porque você não gosta de limites e restrições?
Noomi - Sim, é isso mesmo. Sempre tive problemas com autoridades e com pessoas me dizendo o que fazer.
Então como você encara as orientações de um diretor?
Noomi - É mais como uma colaboração. Quando estou tentando dar vida a uma personagem, o diretor fica me guiando. Nunca trabalhei com nenhum que me disse: "você tem que fazer exatamente assim". Como Ridley me disse: "você não precisa provar nada, faça o que você sabe". Ele me deu muito espaço e liberdade para criar o papel. Às vezes eu tinha ideias realmente ruins, mas tudo bem. Tive muitas discussões com Guy Ritchie em Sherlock Holmes, por exemplo. Às vezes ele falava "Noomi, essa ideia é péssima", às vezes falava "essa é brilhante, vamos fazer". Em um processo criativo você tem que ser capaz de colocar tudo para fora. A pior ideia pode se tornar algo interessante. Não tenho medo de conflito.
Você fica confortável em fazer qualquer tipo de personagem?
Noomi - Gosto, na verdade, de pegar papeis com os quais não me sinto confortável. Gosto de fazer coisas que nunca fiz antes. Quando leio um roteiro e não tenho ideia de como fazer aquela personagem, aquilo se torna uma obsessão. Tento me desafiar sempre e nunca repetir nada.