A nova voz do hip-hop será uma das atrações do Lollapalooza
Nascida Jaylah Hickmon, em Tampa, na Flórida, Doechii se consolida como uma das figuras mais comentadas da nova geração do hip-hop norte-americano.
Nascida Jaylah Hickmon, em Tampa, na Flórida, Doechii se consolida como uma das figuras mais comentadas da nova geração do hip-hop norte-americano. Entre a infância em um ambiente religioso, a descoberta precoce da escrita e a chegada aos grandes palcos, a artista construiu um percurso marcado por experimentação estética, presença digital intensa e forte senso de identidade. Agora, sua presença no Lollapalooza em 2026 reforça ainda mais a projeção internacional de uma carreira que começou de forma independente e hoje ocupa espaços centrais na cultura pop, tanto em debates musicais quanto em discussões sobre representatividade.
Antes de surgirem os milhões de streams e as apresentações em grandes festivais, Doechii começou compondo e postando músicas em plataformas online. Naquele período inicial, ela misturava rap, R&B e elementos de performance teatral. Além disso, em entrevistas, a artista costuma destacar como a internet decidiu seu início de trajetória: "Eu usei a rede como vitrine, era o único lugar onde podia mostrar o que estava na minha cabeça sem pedir permissão", declarou em uma conversa com um canal norte-americano. Assim, essa combinação de autonomia criativa e domínio das mídias sociais se tornou uma das marcas de sua ascensão e, consequentemente, um modelo para outros artistas independentes.
Quem é Doechii e como sua história molda sua arte?
A biografia de Doechii atravessa referências religiosas, cultura sulista dos Estados Unidos e experiências ligadas à comunidade negra e LGBTQ. Criada em uma família cristã, ela teve contato com corais e apresentações em igreja. Dessa forma, essa vivência mais tarde influenciou seu interesse por harmonias vocais e performances coreografadas. Ainda adolescente, ela começou a consumir vídeos de rap e dança e, gradualmente, foi testando estéticas diferentes. Dessa forma, encontrou uma linguagem que dialogava com sua realidade e suas inquietações, mas também com um público global conectado às mesmas referências digitais.
A transição de Jaylah para Doechii também carregou peso simbólico. O nome artístico surgiu como forma de marcar uma nova fase, mais alinhada com a construção de um universo próprio. Nele, moda, visual, letras e coreografias funcionam como extensões de uma mesma narrativa. Em uma entrevista para uma revista especializada em hip-hop, a artista resumiu essa virada dizendo: "Doechii é o espaço onde posso ser várias coisas ao mesmo tempo. Não existe uma versão única de mim na música". Assim, essa ideia de multiplicidade se tornou fundamental para entender seu impacto cultural. Além disso, ela evidencia como a artista dialoga com tendências de futurismo negro, estética camp e referências de cultura de internet para ampliar ainda mais esse universo.
Ascensão nas redes sociais e consolidação no cenário do hip-hop
A palavra-chave na trajetória de Doechii é visibilidade, especialmente nas redes sociais. De fato, plataformas de vídeo curto desempenharam papel central na popularização de suas faixas. Elas impulsionaram desafios de dança, edições criativas e memes. Consequentemente, o alcance desses conteúdos decidiu o momento em que seu nome chegou a selos, produtores e artistas consolidados no hip-hop. Com o tempo, o fluxo constante de clipes e trechos de bastidores consolidou uma base de fãs fiel. Esse público se interessa não só pela música, mas também pelo processo criativo e pelo modo como ela compartilha vulnerabilidades e conquistas em tempo real.
O hit "Yucky Blucky Fruitcake" frequentemente marca um divisor de águas. A faixa ganhou força de forma orgânica e, posteriormente, se transformou em trilha de inúmeros vídeos virais. Em seguida, fãs compartilharam o som intensamente nas redes sociais e chamaram atenção de profissionais da indústria. Esse movimento abriu caminho para que a artista assinasse com a TDE (Top Dawg Entertainment), gravadora que lançou nomes como Kendrick Lamar e SZA. A partir daí, Doechii começou a figurar em playlists editoriais, apresentações em programas de TV e festivais internacionais. Inclusive, ela passou pela América do Sul, onde o Lollapalooza se tornou uma vitrine estratégica para seu trabalho. Além disso, essa circulação por diferentes países fortaleceu a percepção de que seu som dialoga com cenas locais de rap, funk e R&B, inclusive no Brasil.
Como é o estilo musical de Doechii e quais são seus principais hits?
O som de Doechii costuma se apresentar como uma mistura de hip-hop, R&B, pop alternativo e influências eletrônicas. Em vez de se prender a um único subgênero, ela transita entre flows agressivos, melodias cantadas e mudanças bruscas de andamento. Dessa forma, cria faixas que se aproximam mais de pequenos atos teatrais do que de canções lineares. Além disso, essa abordagem ajuda a explicar por que suas músicas se adaptam tão bem às redes de vídeo. Sempre existe um trecho, um verso ou uma quebra de ritmo que se destaca e funciona como gancho para edições, trends e coreografias.
Entre as faixas mais conhecidas aparecem "Persuasive", "Crazy" e "What It Is (Block Boy)", que ampliaram o alcance internacional da artista. "Persuasive" se destaca pela atmosfera mais etérea e dançante; por outro lado, "Crazy" apresenta uma energia mais densa e performática. Por sua vez, "What It Is (Block Boy)" dialoga fortemente com o público de rádio, sem perder a identidade da artista. Essas músicas, somadas a EPs e singles lançados desde 2020, posicionam Doechii como um dos nomes mais versáteis da cena. Além disso, faixas mais recentes exploram sonoridades club, elementos de jersey club e produções com influências do afrobeats, o que reforça sua vontade constante de experimentar. Paralelamente, críticas especializadas vêm destacando seu controle de voz ao vivo e sua habilidade de alternar entre rap rápido e canto melódico em uma mesma faixa, algo que tende a ganhar ainda mais destaque em grandes palcos como o do Lollapalooza.
Colaborações, prêmios e presença na indústria musical
As colaborações exercem papel estratégico na expansão da carreira de Doechii. Trabalhos ao lado de artistas como SZA e outros nomes do R&B contemporâneo inserem a rapper em circuitos mais amplos. Isso vale tanto para o mercado dos Estados Unidos quanto para cenas internacionais. Essas parcerias, por sua vez, costumam explorar contrastes de timbre e estilo. Assim, utilizam a versatilidade de Doechii para criar diálogos com diferentes públicos e formatos, que vão de remixes voltados para pistas de dança a versões acústicas focadas na voz.
Desde sua entrada na TDE, a artista acumula indicações e premiações em categorias como artista revelação, melhor performance de rap e destaque em vídeo musical. Paralelamente, premiações de veículos especializados em hip-hop e listas de "artistas para ficar de olho" reforçam sua posição como promessa em consolidação. Em declarações recentes, Doechii afirma que esse reconhecimento não se limita à validação pessoal. Para ela, cada conquista também abre portas para outras artistas. "Cada prêmio é uma chance de mostrar que meninas negras do sul dos Estados Unidos podem chegar a esses lugares", afirmou em uma entrevista de rádio. Além disso, a participação em campanhas de marcas de moda e beleza amplia sua influência para além da música, ajudando a redefinir padrões de estilo ligados ao hip-hop feminino contemporâneo.
Representatividade de mulheres negras e LGBTQ no hip-hop
A presença de Doechii no hip-hop contemporâneo carrega peso simbólico importante para a representatividade de mulheres negras e pessoas LGBTQ+ na música. Suas letras frequentemente abordam temas como identidade, autonomia sobre o próprio corpo, saúde mental e liberdade de expressão. No entanto, ela não se limita a narrativas de dor. Em vez disso, constrói personagens e situações em que a complexidade dessas vivências aparece de maneira multifacetada, alternando momentos de vulnerabilidade com afirmações de poder e humor.
Entre os elementos que reforçam esse papel de representatividade estão:
- Visual marcante, que foge de estereótipos e explora referências de moda alternativa e cultura pop; além disso, ela incorpora elementos de fantasia e performance em figurinos pensados para o palco e para os videoclipes;
- Letras que abordam relações, gênero e sexualidade de forma direta, sem esconder sua perspectiva; ao mesmo tempo, elas dialogam com discussões atuais sobre autoestima, empoderamento e afetos negros;
- Participação em campanhas e entrevistas sobre diversidade na indústria musical; frequentemente, essas aparições destacam a necessidade de mais mulheres negras em cargos criativos e executivos;
- Interação frequente com fãs LGBTQ+ em redes sociais, reconhecendo esse público como parte central de sua base.
Esse conjunto faz com que Doechii se torne um ponto de identificação para jovens que buscam referências fora dos modelos hegemônicos do hip-hop. Além disso, a artista discute temas como espiritualidade, prazer e autocuidado, o que cria camadas adicionais de leitura em sua obra. Sua performance no Lollapalooza tende a reforçar esse papel, ao colocar em um grande palco uma artista que articula, ao mesmo tempo, experimentação artística e afirmação de identidades que, por muito tempo, a indústria marginalizou no gênero. Consequentemente, sua presença contribui para ampliar o espectro de quem pode ser visto como protagonista em um festival desse porte.
O impacto cultural de Doechii e a expectativa para o Lollapalooza
À medida que suas músicas circulam em playlists globais e seus videoclipes acumulam visualizações, o impacto cultural de Doechii se intensifica em diferentes frentes. Dos vocabulários e estéticas de fãs nas redes ao interesse de marcas e veículos de comunicação, muitos atores buscam associar sua imagem a pautas de diversidade. Assim, a figura da artista sintetiza algumas das principais transformações do hip-hop nos últimos anos. Entre elas, ganham destaque a mistura de gêneros, o protagonismo feminino e a presença de artistas LGBTQ+ em espaços centrais. Paralelamente, o uso que ela faz das redes sociais como palco estendido de suas performances mostra como a fronteira entre música, moda e ativismo se torna cada vez mais fluida.
A participação no Lollapalooza 2026 insere Doechii em um circuito de festivais que costuma ampliar o alcance de artistas emergentes para além de seus países de origem. Para o público brasileiro, acostumado a acompanhar cenas de rap e R&B em constante diálogo com a cultura norte-americana, a apresentação oferece a chance de observar de perto essa nova geração de rapper e cantora. Nesse contexto, o show revela como artistas contemporâneos redefinem o que significa ocupar o centro do palco. Em meio a beats intensos, coreografias e narrativas sobre identidade, Doechii aparece como um dos nomes que ajudam a redesenhar o mapa contemporâneo do hip-hop. Além disso, sua passagem pelo festival pode estimular novas parcerias com artistas brasileiros e criar pontes criativas entre as duas cenas, fortalecendo, por exemplo, colaborações com produtoras e rappers locais e, consequentemente, ampliando ainda mais a troca cultural entre Brasil e Estados Unidos.