O pré-treino mais barato e natural que você pode ter
Este texto foi escrito por um colunista do TecMundo; saiba mais no final.
Para que possamos nos exercitar precisamos de contrações musculares, as quais são controladas por comandos centrais no cérebro que recrutam os neurônios motores. Com a região pré-frontal do cérebro se tornando mais ativa durante o exercício, é preciso suprimento de sangue para manter os níveis de oxigênio adequados no cérebro.
Mas algo pode distrair esse suprimento sanguíneo: a região entérica - que vai do trato gastrointestinal até o canal anal. Assim, faz sentido examinar se a defecação pode poupar sangue para o cérebro, para que ele se dedique a recrutar os músculos. Foi isso que um recente estudo verificou.
Entenda o estudo
O estudo testou se a defecação antes do exercício contribuiria para o desempenho de atletas, realizado por pesquisadores da Itália, Taiwan e China. Treze jovens triatletas de elite (7 homens e 6 mulheres) com cerca de 20 anos participaram voluntariamente do estudo, sendo testados fisicamente em 2 condições, com diferença de uma semana entre cada: 90 minutos depois de defecar e em outra situação sem defecar.
Os pesquisadores verificaram em tempo real a oxigenação dos tecidos e distribuição de sangue nas regiões cerebral e intestinal dos triatletas. Usaram uma técnica chamada NIRS - espectroscopia de infravermelho próximo, para detectar alterações nas concentrações de hemoglobina, tanto na região da testa (córtex pré-frontal) como abaixo do umbigo. Os atletas tinham que pedalar até a exaustão, dentro de um laboratório.
Quais os resultados obtidos
A defecação antes do exercício resultou em maior acúmulo de sangue na região pré-frontal do cérebro durante o exercício, comparado a condição sem defecação. Evacuar antes do exercício melhorou significativamente o desempenho de resistência de alta intensidade nos atletas testados. O tempo até a exaustão no teste foi de 1624 segundos para os que não fizeram evacuaram antes e de 1902 segundos para os que evacuaram, ou seja, foram mais resistentes.
Quem defeca antes do exercício teve melhor desempenho, pois foi mais longe no teste. Nove dos 13 participantes apresentaram melhorias (em 17%) após a defecação, dois apresentaram piora e outros dois não houve diferença. Houve duas desistências de atletas com dificuldade de evacuar as fezes antes dos testes de ciclismo.
A defecação diminuiu moderadamente a pressão arterial sistólica, sugerindo um alívio da atividade nervosa autônoma. Os resultados do estudo sugerem que o melhor desempenho de resistência de triatletas de elite após a defecação está associado ao efeito de economia de sangue para a região pré-frontal do cérebro. O cérebro recebe mais oxigênio e reduz a fadiga.
Praticar exercícios com armazenamento fecal no reto pode levar à competição por sangue entre o centro motor no sistema nervoso central e o sistema nervoso autônomo no cérebro.
A defecação melhorou a perfusão cerebral e retardou a fadiga em triatletas de elite. Alguns até questionam se era necessário um estudo para confirmar essa ideia, devido ao fato de ser comum entre as pessoas fazer isso e se sentir bem para exercícios. Nesse caso confirmamos o que dizia o escritor inglês Aldous Huxley, "a ciência não passa de bom senso exercitado e organizado".
Desconfortos gástricos e intestinais são comuns em modalidades de endurance como o triatlo, composto por natação, ciclismo e corrida. Para evitar problemas que quebrem o ritmo de treinou ou prova ou mesmo causem desconfortos, ir ao banheiro antes como prevenção pode ser coerente. Além disso, parece que pode até melhorar o desempenho. Um pré-treino barato e natural.
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Fábio Dominski é doutor em Ciências do Movimento Humano e graduado em Educação Física pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). É Professor universitário e pesquisador do Laboratório de Psicologia do Esporte e do Exercício (LAPE/CEFID/UDESC). É autor do livro Exercício Físico e Ciência - Fatos e Mitos, e apresenta o programa Exercício Físico e Ciência na rádio UDESC Joinville (91,9 FM); o programa também está disponível em podcast no Spotify.