O Snapchat quer o Brasil
Perto da holding que controla Facebook, Instagram e WhatsApp todos -- inclusive a Snap -- são nanicos
O Snapchat quer voltar a crescer. No mundo e no Brasil. Mas, por aqui, tem alguns obstáculos. É, junto do Twitter, uma rede social de grande porte que não está ligada ao Facebook. Por ter capital aberto na Bolsa, a vida de seu alto comando é um pesadelo. São grandes, são relevantes, mas perante o mastodonte do setor - a holding que controla Facebook, Instagram e WhatsApp - todo mundo é nanico. A pressão por resultados é constante. E desenhar uma estratégia de crescimento não é trivial.
No Brasil, começa por um problema central: Android. Esta é uma questão típica de mercados grandes em desenvolvimento - na Índia é igual. E, para a turma do Snapchat, fica mais agudo. Seu público cativo são jovens entre finais da adolescência e antes dos 30. Ou seja: típico do consumidor brasileiro, tem o Android instalado em celulares baratos. Portanto, lentos.
Ontem mesmo, a equipe do Google fez seu grande evento anual para tratar do mercado brasileiro. E boa parte do tempo foi dedicado aos avanços de Android Go, uma versão enxutíssima do sistema, com o mecanismo de busca facilitado, que usa pouca memória e armazena ainda menos.
Com o Snapchat a coisa complica. Seu app, assim eles dizem, é um app de câmera antes de ser social. Suas lentes - o equivalente aos filtros do Instagram - são divertidíssimas. Dá para fazer um tiranossauro passear pela Paulista ou Ipanema, há jogos vários de interação, além das muitas imagens localizadas. Bairros de algumas cidades do País têm suas próprias marcas fincadas sobre as fotografias tiradas. Rico assim em recursos, desenhado com olho nos mercados americano e europeu, tem uma excelente versão para iPhones, funciona bastante bem nos Androids topo de linha, mas é lento num aparelho de valor mediano. Ou seja: o app não funciona bem no smartphone de seu público-alvo, no Brasil.
Para isso há solução: assim como o Google montou um leque de apps enxutos para os aparelhos mais simples, a turma da Snap o fará. Mas é coisa para o segundo semestre. Crescimento: só a partir daí. Antes é irrealista cogitar.
O primeiro público a conquistar já conhece o aplicativo, suas lentes e, bem, é seu usuário. De certa forma. O problema é que se trata duma turma que encontrou refúgio no Instagram. Há analistas que defendem a tese de que os reguladores americanos e europeus comeram uma mosca feia ao permitir a compra do Insta pelo Facebook. Ao deixar acontecer, permitiu-se a imensa concentração de poder horizontal no segmento nas mãos de uma só companhia.
E, hoje, o recurso mais popular do Instagram, aquele mais buscado, são as Stories. E as Stories foram inventadas pelo Snapchat e simplesmente copiadas na plataforma de Mark Zuckerberg. É o lugar onde todo mundo gosta de brincar com os vários filtros - as caras de cachorro, os óculos engraçados, as setas de coração. Para ter um jeitão diferente, o que muitos fazem é simples: produzem suas imagens com as lentes do Snapchat, exportam, trazem para o Stories do Instagram.
Fazem isso porque gostam do clima de lá, mas seus amigos estão cá na outra rede.
Com um app rodando bonito, o segundo passo é conseguir segurar no seu próprio ambiente social que já o usa para produzir imagens. E o principal chamariz será continuar inventando filtros novos, customizados, dedicados, mais interessantes do que os da concorrência.
A missão não tem nada de simples. E o Brasil é um microcosmo do que ocorre no mundo. De simples, a missão não tem nada em nível mundial, pois. É difícil ser uma rede que não é do Facebook. Mas o plano tático está desenhado.