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O homem por trás do quebra-cabeça que só 1% das pessoas consegue resolver

A história por trás de uma ferramenta de ensino engenhosa que se tornou um fenômeno global.

11 fev 2024 - 18h50
(atualizado em 2/3/2024 às 11h02)
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Em 1975, o acadêmico húngaro Ernő Rubik depositou a patente da sua invenção que se tornaria um fenômeno mundial.
Em 1975, o acadêmico húngaro Ernő Rubik depositou a patente da sua invenção que se tornaria um fenômeno mundial.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Design clássico e brilhante que transcende idiomas, idades e níveis educacionais. Não precisa nem mesmo de instruções. E ainda é portátil e pode ser resolvido de inúmeras formas.

Por tudo isso, não surpreende que o cubo mágico, ou cubo de Rubik, tenha se tornado um fenômeno de vendas em todo o mundo.

Mas seu criador, o acadêmico húngaro Ernő Rubik, não percebeu inicialmente o que ele tinha nas mãos quando inventou seu genial quebra-cabeça confuso e colorido.

Ele nem mesmo imaginava se o cubo que imortalizaria o seu nome teria sucesso, segundo declarou em 1986 ao apresentador de TV Terry Wogan (1938-2016), da BBC.

"Eu não me preocupei porque nunca decidi fazer aquilo, não era nada que eu estivesse buscando", contou ele.

Originalmente, ele não idealizou o cubo como um brinquedo, mas como uma ferramenta de ensino para os seus alunos.

Em 1974, Rubik trabalhava como professor de arquitetura no Colégio de Artes Aplicadas de Budapeste, na Hungria.

Ele acreditava que a melhor forma de ensinar algo para os seus alunos era mostrar para eles. E quis criar algo com que eles pudessem brincar para pensar de forma criativa em formas geométricas e relações espaciais.

Rubik criou o cubo para estimular seus alunos a pensar de forma criativa
Rubik criou o cubo para estimular seus alunos a pensar de forma criativa
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

As restrições de fabricação impostas na Hungria da era comunista fizeram com que a invenção de Ernő Rubik só fosse produzida em massa no início dos anos 1980.

Seu objetivo era fazer algo tátil e móvel, que fosse suficientemente simples para que seus alunos entendessem, mas contivesse algum tipo de problema para ser solucionado. E, o mais importante, que os desafiasse a perseverar quando encontrassem um quebra-cabeça complexo e frustrante.

"Em primeiro lugar, você precisa ser paciente, é muito útil para resolver um problema", afirmou Rubik à BBC. "Depois, você precisa de alguma memória espacial, memória tridimensional."

"Para memorizar qual formação você tem, onde estão as peças e assim por diante... Se fecharmos nossos olhos, nós sabemos, lembramos, não apenas uma imagem, mas o significado da imagem."

O protótipo de Rubik era um cubo de madeira com seis lados compostos de cubos menores.

Inicialmente, ele tentou perfurar os cubos para conectá-los com faixas de borracha, mas eles não paravam de se soltar.

Por isso, ele projetou um mecanismo oculto que mantivesse o cubo no lugar, permitindo que os cubos individuais menores girassem. E acrescentou uma cor sólida a cada lado do cubo, para tornar o movimento visível.

Ele então girava, misturando as cores, e tentava restaurar o cubo para o seu estado original, com cada face mostrando uma única cor.

Na primeira vez, ele levou quase um mês para conseguir - e se tornou a primeira pessoa a resolver o cubo mágico. Estima-se que apenas 1% das pessoas consiga resolver o quebra-cabeça sem ajuda.

Ernő Rubik criou a mania do cubo mágico, que dominou os anos 1980
Ernő Rubik criou a mania do cubo mágico, que dominou os anos 1980
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Rubik confessou à BBC em 1986 que já não era tão rápido quanto antigamente.

"Não sou muito rápido", declarou ele. "Quando estou com prática, consigo fazer em cerca de um minuto, mas não estou praticando agora. Há alguns anos, eu era muito mais rápido. Não estou em boas condições."

É aqui que o cubo mágico atrai as pessoas. Ele é de uma simplicidade ilusória, incrivelmente viciante e enlouquecedoramente frustrante.

Rubik experimentou o protótipo com seus alunos, deixando que eles desenvolvessem suas próprias soluções. Eles adoraram.

E, seguindo sua popularidade entre os alunos, Rubik decidiu depositar na Hungria um pedido de patente do seu "Cubo Mágico", em janeiro de 1975.

Em 1975, Rubik decidiu solicitar a patente de seu "Cubo Mágico"
Em 1975, Rubik decidiu solicitar a patente de seu "Cubo Mágico"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Por restrições de fabricação na economia planejada da Hungria na era comunista, os principais entusiastas do quebra-cabeça nos seus primeiros anos eram os designers, arquitetos e matemáticos do país.

Isso durou até 1979, quando o cubo mágico foi apresentado na Feira de Brinquedos de Nuremberg, na Alemanha. O fabricante americano Ideal Toy Corporation adotou o brinquedo e ele finalmente decolou.

Em 1980, o cubo mágico começou a ser vendido internacionalmente com o nome de "Cubo de Rubik", pegando o mercado de surpresa e cativando pessoas de todas as idades.

Desafio global

A notícia do novo brinquedo se espalhou rapidamente. Milhões de pessoas em todo o mundo aceitaram o desafio, que logo gerou uma imensidade de livros contando às pessoas como resolver o quebra-cabeça.

O cubo mágico começou a aparecer em todos os lugares. Surgiram competições internacionais, que trouxeram a mania de tentar resolver o brinquedo com cada vez mais rapidez. O encanto se mantém até hoje.

Estima-se que, somente até 1982, já tivessem sido vendidos mais de 100 milhões de cubos mágicos, sem contar as versões não oficiais que inundaram o mercado para atender à demanda do público pelo brinquedo.

No auge da popularidade, no início dos anos 1980, ninguém parecia estar livre da mania dos cubos mágicos. Eles adornavam camisetas e pôsteres e eram mencionados em músicas. O cubo chegou a ter seu próprio desenho animado na TV americana - Rubik, the Amazing Cube ("Rubik, o cubo incrível", em tradução livre) - estrelado por uma versão do brinquedo que falava e voava.

Em 1983, "Rubik's Cube" entrou no Dicionário Oxford da Língua Inglesa e o cubo ganhou um local de exibição permanente no Museu de Arte Moderna de Nova York, nos Estados Unidos.

Atualmente, o famoso quebra-cabeça não é mais a mania global de décadas atrás. Mas seu sólido apelo e seu impacto sobre a cultura popular permanecem.

O cubo mágico continua a ser objeto de arte e esculturas. Ele pode ser visto em filmes e animações, como Quero Ser John Malkovich (1999), WALL-E (2008) e Homem-Aranha no Aranhaverso (2018).

O brinquedo também já foi Doodle do buscador Google e apareceu no vídeo da música Viva Forever, das Spice Girls.

O cubo é mencionado em séries de TV que variam de Uma Família da Pesada até Law and Order e The Big Bang Theory. E existe até um documentário na Netflix, Magos do Cubo (2020), sobre a amizade entre dois astros do mundo das competições de cubos mágicos.

Cálculos estimam um total de 400 milhões de cubos vendidos no mundo
Cálculos estimam um total de 400 milhões de cubos vendidos no mundo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O cubo mágico é vendido até hoje. Ele mantém fãs dedicados que estabelecem novos recordes a todo tempo, resolvendo o quebra-cabeça de olhos vendados, embaixo d'água, pulando de paraquedas e até fazendo malabarismo.

Devido à quantidade de versões extraoficiais lançadas ao longo dos anos, fica difícil saber os números exatos de cubos mágicos vendidos em todo o mundo até hoje. Há estimativas de mais de 400 milhões de unidades.

Ernő Rubik criou uma fundação de apoio a jovens promissores no campo das invenções na Hungria. E formou seu próprio estúdio de design de móveis e jogos, como a Cobra de Rubik. Mas nada que ele tenha criado se tornou um fenômeno parecido com o cubo.

Mas este não era o seu objetivo. Ele disse à BBC que ainda era conduzido pelo mesmo impulso que o fez criar seu grande sucesso de vendas.

"Gosto de fazer sempre o melhor como designer e resolver problemas de design é o melhor que faço. Por isso, não depende do tamanho do sucesso."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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