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Médico americano fala sobre desafios da neurocirurgia

2 abr 2009 - 17h33
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Abigail Zuger*

Sempre há dois lados para cada história de doença - e muitos mais se você contar o paciente e o médico, os familiares do paciente e os familiares do médico, as enfermeiras, os terapeutas e a seguradora. Pena que só conseguimos ouvir todos eles no tribunal. De resto, tudo é principalmente um monólogo na literatura da saúde perdida e recuperada, com todos os problemas comuns de perspectiva e especialidade.

Algum dia, talvez, um volume escrito por múltiplos autores faça justiça ao elefante inteiro. Por enquanto, ficamos com combinações improvisadas, como o diálogo oferecido por dois novos livros, sobre os triunfos e fracassos da neurocirurgia.

É um reino de fortes dores de cabeça - dores que florescem com o ibuprofeno e só ficam piores, dores que podem acabar trazendo pacientes a médicos como Keith Black, com exames em mãos. Neurocirurgião do hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, Black está entre os poucos no país especializados em cirurgia de tumor cerebral (a maioria dos neurocirurgiões trabalha com os vasos sangüíneos do cérebro, ou na coluna vertebral).

Entre os pacientes dos quais se lembra em seu fascinante, e um pouco forçado, livro de memórias estão um artista de hip hop que tinha um tumor benigno destruindo sua audição e seu equilíbrio, um pastor da Califórnia com nódulos de melanoma no cérebro e um magnata de Hong Kong com um glioblastoma multiforme - o mais temido entre os tumores cerebrais - estendendo seus tentáculos pelo lóbulo temporal direito.

Não é permitido ouvir música na sala de cirurgia de Black. É preciso ter paciência e concentração sobre-humanas para olhar em um microscópio durante horas, retirando camadas transparentes de tecido para remover todos esses invasores. Ele compara o trabalho ao de um ladrão gatuno: seu objetivo é entrar e sair do cérebro sem deixar rastros. Qualquer movimento em falso e o paciente pode perder a visão, a audição, o olfato - ou nunca mais acordar.

Fora da sala de cirurgia, com concentração não menos intensa, Black faz diversas negociações mentais. Em troca das torturantes cirurgias - um homem sem sorte é essencialmente cortado ao meio para a remoção de um tumor - pacientes graves podem ter meses ou até anos de remissão, enquanto aqueles com tumores benignos podem ficar curados para sempre.

Mas em que grau uma recuperação terrível compensa certo grau de saúde subseqüente? Quando Black deveria recuar e deixar a natureza seguir seu curso? Apesar de todos os tons de cinza, ele tem que tomar uma decisão a cada instante, e por isso seu mundo é uma progressão ordenada de decisão, ação e resultado. E a pulsação constante das dores de cabeça dos outros é um refrão que ele já aprendeu a aceitar.

Para Lynne Greenberg, moradora do Brooklyn Heights, em Nova York, mãe de dois filhos e pesquisadora da literatura inglesa do século XVII, a dor de cabeça é a única coisa, de fato, é o metrônomo segundo o qual ela viveu os últimos três anos. Começou em 2006, quando ela estava sentada em uma biblioteca de Londres vasculhando uma pilha de documentos antigos: "Qualquer movimento ou atividade física enviava ondas de choque pelo centro do meu cérebro". Nunca foi embora.

Mais de duas décadas atrás, quando Greenberg tinha 19 anos, um acidente de carro a arremessou por cima de uma barragem, em uma queda de 9m. Ela quebrou o pescoço, mas miraculosamente escapou de qualquer lesão neurológica e, depois de alguns meses com o pescoço imobilizado, foi declarada curada.

Depois que a dor de cabeça apareceu, uma série de exames mostrou que a antiga fratura tinha quebrado outra vez - ou talvez nunca tivesse sarado. Seria essa a causa da dor de cabeça ou uma descoberta de coincidência? Ela precisaria de cirurgia de emergência para estabilizar a coluna? Ou será que ela era uma depressiva neurótica atrás de narcótico, procurando ganhar alguma coisa com sua suposta dor? Cada médico tinha uma opinião diferente, deixando-a cada vez mais desesperada, confusa, em um emaranhado de remédios e dor.

Greenberg tateia grandes partes do "elefante" médico em seu livro de leitura compulsiva: a procura por um médico, o sofrimento pós-operatório, os efeitos infelizes de doenças crônicas em casamentos e filhos pequenos, o mundo irreal da desintoxicação e reabilitação. O coro nesse livro - além dos diversos médicos, alguns ruins e outros bons - são os poetas entre os quais Greenberg vive, com destaque para o cego John Milton, cujo "Paraíso Perdido" descreve um queda cataclísmica similar.

Culto, carregado e perturbador, o livro de Greenberg não traz resolução - nenhum dos términos fáceis que Black nos oferece. Ele curou o artista de hip-hop e colocou o pastor em uma remissão milagrosa de longo prazo; o magnata de Hong Kong lutou bem, mas acabou sucumbindo. A própria história de Black também termina bem: uma criança afro-americana do Alabama segregado, ele era um prodígio da ciência que não teve seus horizontes limitados pelos pais, e foi longe.

Mas é a jornada épica de Greenberg por um cenário cinza de dor, com alguns pontos de descanso pelo caminho, mas nenhuma solução em vista, que forma a narrativa mais memorável.

The New York Times
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