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Ciência

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Fóssil de réptil encontrado no Brasil ajuda a entender a origem dos ancestrais de dinossauros e crocodilos

Animal de 240 milhões de anos ajuda a entender uma fase anterior à ascensão dos dinossauros e crocodilos, quando seus parentes próximos ainda estavam experimentando diferentes formas de corpo, postura e locomoção

8 jul 2026 - 09h29
(atualizado às 10h30)
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Muito antes dos dinossauros dominarem os continentes e de surgirem os crocodilos modernos, seus ancestrais já passavam por uma fase decisiva em sua trajetória evolutiva. Foi nesse mundo antigo, logo após a maior extinção em massa da história da Terra, que viveu uma nova espécie de réptil fóssil descoberta no interior do Rio Grande do Sul.

Batizada de Silescelida acristata, a espécie viveu há cerca de 240 milhões de anos, durante o Período Triássico Médio. O fóssil foi encontrado em Dona Francisca, na região central do Rio Grande do Sul, em rochas que fazem parte do Geoparque Quarta Colônia UNESCO.

A descoberta ajuda a preencher uma lacuna importante sobre a evolução dos arcossauriformes, grupo de répteis que deu origem aos arcossauros. Os arcossauros, por sua vez, são a linhagem que abrange dois dos grupos mais conhecidos de vertebrados terrestres: os crocodilos e os dinossauros, incluindo as aves.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria, o CAPPA/UFSM, em colaboração com pesquisadores da UFRGS e da PUCRS, e foi publicado na revista científica Scientific Reports.

Um animal pequeno em um mundo em reconstrução

Quando Silescelida acristata viveu, os ecossistemas terrestres ainda se recuperavam da extinção Permo-Triássica, ocorrida cerca de 252 milhões de anos atrás. Esse evento eliminou grande parte da vida no planeta e abriu espaço para a diversificação de novos grupos de animais.

Foi nesse cenário de recuperação ecológica que diferentes linhagens de répteis começaram a ocupar novos papéis nos ambientes terrestres. Entre elas estavam os arcossauriformes, que experimentaram uma grande diversificação durante o Triássico. Silescelida acristata era um animal relativamente pequeno, de corpo esguio e locomoção quadrúpede. Seu tamanho pode ser comparado ao de um pequeno jacaré.

Embora não fosse um dinossauro nem um crocodilo, ele pertencia a uma linhagem próxima das formas que antecederam a origem desses grupos. Sua dieta provavelmente incluía animais menores, o que sugere que ele ocupava o papel de pequeno predador nos ecossistemas triássicos do Sul do Brasil.

Por que esse fóssil é importante?

O fóssil preserva principalmente partes dos membros, e, à primeira vista, esse tipo de material pode parecer limitado, mas ele carrega informações importantes sobre a locomoção e o parentesco evolutivo do animal.

Uma das características mais relevantes de Silescelida acristata está em seu fêmur, osso da coxa. Assim como alguns de seus parentes próximos, ele possuía pernas em uma posição mais semi-ereta, projetadas mais abaixo do corpo do que lateralmente.

Essa alteração permitia uma locomoção mais eficiente, reduzindo o arrasto do corpo contra o solo. Em termos evolutivos, esse tipo de transformação está relacionado ao conjunto de mudanças anatômicas que, mais tarde, seria fundamental para o sucesso dos arcossauros.

Em outras palavras, o novo fóssil ajuda a entender uma fase anterior à ascensão dos dinossauros e crocodilos, quando seus parentes próximos ainda estavam experimentando diferentes formas de corpo, postura e locomoção.

Parentesco raro

As análises de parentesco indicam que Silescelida acristata pode estar relacionado aos Euparkeriidae, um grupo raro de arcossauriformes ainda pouco compreendido pela ciência.

Até então, fósseis associados a esse grupo eram conhecidos principalmente nos continentes da África, Ásia e Europa. A presença de uma forma relacionada aos Euparkeriidae na América do Sul amplia significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais.

Isso sugere que esses répteis estavam mais espalhados pelo mundo durante o Triássico do que o registro fóssil indicava. Também reforça a importância da América do Sul para o estudo da origem e diversificação dos grandes grupos de vertebrados terrestres.

A "redescoberta" de um fóssil esquecido

A descoberta de Silescelida acristata também tem uma história incomum. Parte do fóssil, justamente a porção que preservava informações essenciais sobre sua procedência, ficou acidentalmente perdida por mais de duas décadas.

Somente em 2022, durante uma visita técnica à coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a PUCRS, pesquisadores localizaram o fragmento desaparecido. Essa redescoberta permitiu confirmar a origem do espécime e realizar sua descrição formal como uma nova espécie.

O próprio nome do animal faz referência a essa história. Silescelida combina palavras associadas a "silêncio" e "perna". O "silêncio" remete ao longo período em que parte do fóssil permaneceu esquecida, enquanto "perna" se refere ao tipo de material preservado, composto principalmente por ossos dos membros.

Já o nome acristata significa "sem crista". Ele foi escolhido porque o fêmur desse animal não possui uma crista ou protuberância óssea elevada, conhecida como trocânter, onde se prenderia parte da musculatura da cauda. Essa ausência diferencia Silescelida acristata de quase todos os seus parentes próximos.

O que a descoberta muda?

A presença de Silescelida acristata no Triássico Médio do Brasil mostra que a história evolutiva dos arcossauriformes foi mais ampla e complexa do que se imaginava. O fóssil indica que linhagens próximas aos Euparkeriidae também estavam presentes na América do Sul, ampliando o papel do continente na diversificação inicial dos parentes dos dinossauros e crocodilos.

Além disso, a descoberta reforça o Rio Grande do Sul como uma das regiões mais importantes do mundo para o estudo da fauna triássica. As rochas da região preservam fósseis de diferentes momentos da evolução dos vertebrados terrestres, incluindo alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos e grandes predadores que viveram antes da Era dos Dinossauros.

Cada novo fóssil encontrado nesse contexto ajuda a reconstruir como os ecossistemas terrestres se reorganizaram após a extinção Permo-Triássica e como surgiram os grupos que mais tarde dominariam os continentes.

Pequenos ossos, grandes histórias

Fósseis incompletos muitas vezes são vistos como menos informativos do que esqueletos quase inteiros. No entanto, é importante lembrar que a grande maioria dos fósseis encontrados durante escavações são fragmentários. Descobertas como Silescelida acristata mostram que mesmo partes isoladas do esqueleto podem revelar informações fundamentais sobre a evolução.

Neste caso, ossos dos membros permitiram reconhecer uma nova espécie, inferir aspectos de sua locomoção, investigar suas relações de parentesco e ampliar a distribuição conhecida de um grupo raro de répteis triássicos.

Mais do que descrever um novo animal, o estudo mostra como a paleontologia brasileira continua contribuindo para entender capítulos centrais da história da vida na Terra. Em rochas do interior do Rio Grande do Sul, fósseis de 240 milhões de anos ainda guardam pistas sobre a origem dos grupos de animais que transformariam os ecossistemas terrestres para sempre.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Mauricio Garcia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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