Script = https://s1.trrsf.com/update-1781903735/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Ciência

Publicidade

Sob Lula, Brasil vive política ambiental contraditória

6 jul 2026 - 17h15
Compartilhar
Exibir comentários

País reduziu desmatamento e voltou a receber apoio internacional para projetos na área climática e ambiental, mas segue apostando em modelo de desenvolvimento controverso.Quando assumiu o seu terceiro mandato como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva trazia consigo não apenas a missão de lidar com um país polarizado politicamente. Ambientalistas depositavam no atual governo a esperança de reconstruir a imagem internacional do Brasil na área climática e ambiental.

Sob a batuta do antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o Brasil havia deixado de ser retratado na imprensa mundo afora como destaque na busca por soluções para lidar com a crise climática, era cobrado por outras nações pelo desmatamento ilegal e havia perdido financiamento para investir na regeneração do meio ambiente.

Mais de três anos depois, o país recuperou um lugar de destaque diplomático na área ambiental, foi sede da última Conferência do Clima da ONU, a COP30, melhorou os índices de desmatamento e reavivou a confiança internacional em mecanismos como o Fundo Amazônia.

Mas também enfrenta um mundo cada vez mais tensionado geopoliticamente, no qual a emergência climática passou a mediar as relações comerciais, tecnológicas, de segurança e políticas. Isso tem colocado uma pressão sobre os recursos naturais do território brasileiro enquanto o país tenta se posicionar na corrida, por exemplo, pela exploração de minerais críticos e atração de data centers.

Especialistas entrevistados pela DW afirmam que o terceiro mandato de Lula deixa um saldo positivo na política climática externa, ajudando a apagar algumas marcas deixadas pelo antecessor, mas também expõe as contradições do modelo de desenvolvimento adotado no país, que segue apostando na exploração de combustíveis fósseis e mirando num discurso de superpotência que ameaça seus recursos naturais e suas comunidades tradicionais.

"O governo tem um saldo positivo. Mas isso não quer dizer que o que ele fez de negativo não vai ter impacto", analisa Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma rede de mais de 130 organizações da sociedade civil que atuam na agenda climática.

Combate ao desmatamento

Lula assumiu um Brasil que, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), vinha do maior aumento percentual no desmatamento da Amazônia visto em um único mandato presidencial desde 1990. A era Bolsonaro havia terminado com o aumento de 59,5% do desmatamento na Amazônia, com uma derrubada equivalente a toda a área do estado do Rio de Janeiro.

Diminuir o desmatamento era uma promessa de campanha. Atualmente, dados do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter) mostram que o desmatamento na Amazônia Legal teve redução de 61,4% em maio de 2026, em relação ao mesmo mês do ano anterior. Entre agosto de 2025 e maio de 2026, a queda no desmatamento na região foi de 37,5% em relação ao mesmo período entre 2024 e 2025. No Cerrado, também há tendência de queda no desmatamento.

Os altos índices de desmatamento eram justamente um dos pontos que abalaram a imagem internacional do Brasil. Em 2020, oito nações europeias chegaram a enviar uma carta aberta ao então vice-presidente, Hamilton Mourão, manifestando "extrema preocupação". Na época, países como Alemanha e Noruega congelaram os repasses ao Fundo Amazônia, mecanismo criado em 2008 para captar dinheiro para o combate, prevenção e regeneração do desmatamento.

Um balanço do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apresentado neste mês, mostra que, em contraste com o governo anterior, quando as doações paralisaram e nenhum projeto foi aprovado, desde 2023 o Brasil captou R$ 2,4 bilhões em novos acordos e anúncios, sendo R$ 2 bilhões já contratados pelo Fundo Amazônia.

"O Brasil diminuiu o desmatamento, isso importa muito internacionalmente. Voltou para a mesa de negociação, assumiu uma postura colaborativa, enquanto que no governo Bolsonaro você tinha uma postura negacionista tanto do clima quanto das negociações climáticas. Nesse sentido, foi uma mudança importantíssima", analisa Astrini.

Retomada do multilateralismo

Yamila Goldfarb, professora do programa de economia política mundial da Universidade Federal do ABC (UFABC) e presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), diz que o Brasil tem se esforçado para demonstrar que é capaz de liderar na governança global.

Goldfarb lembra que em 2018, logo após a eleição de Bolsonaro, o Brasil desistiu de sediar a COP25, passando a questionar o multilateralismo nos anos seguintes e a se alinhar ao discurso negacionista de lideranças como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Isso, diz a professora, ia contra um papel de articulação que o Brasil vinha ocupando historicamente pelo menos desde 1992, quando sediou a primeira conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92.

Nos últimos anos, o país voltou a sediar encontros estratégicos: além da COP30, houve a Cúpula da Amazônia, em 2023, a Cúpula do G20, em 2024, e a Cúpula do Brics, em 2025. "Com essa reorientação da política externa, o Brasil está buscando muito concretamente reconectar o país ao multilateralismo, se colocar como um ator que estimula a cooperação entre os países, principalmente do Sul [global], mas não só", acrescenta Goldfarb.

"Nesses eventos, o Brasil mostrou a capacidade de aglutinar, de articular, de tentar com uma diplomacia, com negociação, encontrar os denominadores comuns mais viáveis", diz Giorgio Romano Schutte, professor de Relações Internacionais e Economia da UFABC.

Também foi um avanço e será um legado, analisa Carlos Milani, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e diretor do Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas, o esforço brasileiro para liderar os debates sobre integridade da informação sobre a mudança do clima. "O Brasil foi um dos países que, desde o princípio, junto à ONU e à Unesco, apoiou essa agenda. E entendeu a relação entre a agenda democrática e a climática. De ter a sociedade civil dinâmica, ativa, tentando incidir nesse debate, de ter os conselhos funcionando melhor, os fóruns de participação mais abertos, mais plurais, mais críticos", elenca.

Reestruturação de órgãos ambientais

Foi parte importante da reconstrução da imagem brasileira no exterior, diz Astrini, a presença de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em contraposição a figuras antes no cargo, como o ex-ministro Ricardo Salles, que ficou conhecido por uma reunião ministerial na qual usou a expressão "passar a boiada" para defender o enfraquecimento de normas ambientais.

Também entram nessa conta a volta da demarcação de terras indígenas e unidades de conservação e a reestruturação de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a própria criação do Ministério dos Povos Indígenas.

Mas, ao mesmo tempo, essa reorganização também expôs as contradições do modelo de desenvolvimento que o Brasil segue perseguindo.

Especialistas ouvidos pela DW dizem que, enquanto tenta se posicionar como liderança da transição energética, o Brasil continua explorando o petróleo de forma intensiva, não consegue evitar os impactos socioambientais do desenvolvimento da energia limpa e ainda aposta em soluções propostas pelo agronegócio — um dos setores que mais emite gases do efeito estufa no país.

O país tem registrado recordes na produção de petróleo e gás, segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em março, foram produzidos 5,531 milhões de barris de óleo equivalente por dia.

Um exemplo dessas contradições é a liberação, pelo Ibama, da licença para que a Petrobras explorasse petróleo na Bacia da Foz do Amazonas a menos de um mês da realização da COP30 em Belém. "É um negócio inexplicável. É um erro duplo. Do nosso ponto de vista, não devia nem liberar a exploração de petróleo. E fazer isso na véspera da COP parece uma provocação", afirma Astrini.

Outro problema é a própria relação do governo com o Congresso Nacional, que vem impondo derrotas na área ambiental, como a derrubada de 52 dos 63 vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, e as mudanças no Código Florestal aprovadas pela Câmara dos Deputados. "O Congresso se encarrega, muitas vezes, de pegar esses números positivos que o Brasil produziu, o governo produziu, e tentar soterrar esses números, criando as agendas negativas", acrescenta Astrini.

Ele lembra que durante a votação da Lei do Marco Temporal no Congresso, após um veto de Lula, o próprio então ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, pediu licença do cargo para reassumir sua cadeira no Senado e votar a favor da derrubada do veto presidencial. Depois, ele voltou a ser ministro.

Um estudo divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Ministério do Planejamento, por exemplo, mostra que em 2023 73% do Orçamento Federal destinado à adaptação climática foi para a agropecuária, enquanto apenas 6% foi para a gestão de riscos e desastres.

Outro exemplo foi durante a COP28, em Dubai. Enquanto Lula fazia um discurso sobre liderar a transição energética, por exemplo, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmava que o país iria entrar no grupo ampliado da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+).

Mais um ponto de contradição do governo é o caso do asfaltamento da BR-319, uma rodovia que liga Manaus, no Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia. A obra, que chegou a ser contestada na Justiça, é defendida pelo presidente Lula. Há estudos mostrando que o asfaltamento pode contribuir para aumentar o desmatamento na região e até causar uma nova pandemia. "É um governo lotado de contradições. Demarcou muita terra indígena e agora está asfaltando, sem licenciamento, uma rodovia no meio da Amazônia, que é a BR-319, que vai causar um impacto gigantesco para os indígenas da região", afirma Astrini.

Entre desenvolver e proteger

"O governo Lula três veio com mais força e mais coerência nesse setor de clima e meio ambiente. O presidente sempre fala nesse tema nos seus discursos internacionais", analisa Carlos Milani. Essas falas, entretanto, muitas vezes apelam a um discurso que projeta o país como superpotência, como a recente visita de Lula à Alemanha na qual o presidente afirmou que o Brasil pode ser a "Arábia Saudita dos biocombustíveis".

Milani pondera que esse tipo de narrativa apela a uma lógica "desenvolvimentista", que demanda a intensa extração de recursos naturais. "Lula vem de uma geração que quer projetar o Brasil como potência. Mas por que tem que ser potência? A gente tem que se perguntar quais são os benefícios de uma projeção de um Brasil potência", diz.

Ele ressalta que a emergência climática está no centro das relações de poder no cenário nacional e internacional hoje. Um exemplo disso, trazido por Giorgio Schutte, são as terras raras. O Brasil tem a segunda maior reserva declarada de terras raras, o que atrai interesse de países da União Europeia e dos Estados Unidos, mas Schutte avalia que o país ainda não tem o mesmo poder sobre elas como tem a China em seu território.

"O Brasil ainda não tem capacidade de processamento. É um exemplo de uma arma que a China usou, mas o Brasil não tem [como usar]. O Brasil, para se aproveitar dessa riqueza, precisa criar competências internas, investir, construir um marco regulatório", diz Schutte.

É o que também defende Yamila Goldfarb. "Diante da transição energética, acaba se impondo na transição mundial uma demanda muito grande por matéria-prima. E a gente tem que tomar muito cuidado para não se estabelecer simplesmente como fornecedor dessa matéria-prima", analisa.

Segundo ela, o Brasil também precisa lidar de forma urgente com os impactos socioambientais causados em nome da transição e da inserção em novos mercados, como o de data centers, para geração de informação digital. "Isso impacta diretamente as nossas comunidades, os nossos territórios, porque esses recursos estão embaixo desses territórios, estão embaixo da floresta. As empresas vêem a crise climática como uma oportunidade", diz Goldfarb.

Uma análise do Observatório da Transição Energética, da Repórter Brasil, mostra que 44% das terras indígenas no país estão cercadas por requerimentos de exploração dos chamados minerais críticos. Já um relatório produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) afirma que o Brasil "está se reposicionando no cenário geopolítico da transição energética como fornecedor dos insumos para a descarbonização do Norte Global" e que "expandir a mineração em TIs com essa justificativa é uma contradição moral, política e social".

A mesma preocupação se aplica a outros projetos. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com a Universidade de São Paulo (USP) mostra que projetos de energia renovável já afetam um em cada três territórios protegidos no Brasil. "Faltam salvaguardas. A gente tem impacto social e impacto ambiental, inclusive da instalação de grandes parques eólicos, de infraestrutura para escoamento de minério, minério esse que supostamente está indo alimentar a transição energética. Como é que a gente pode ser liderança da transição energética mas ter parques eólicos impactando comunidades inteiras?", questiona Yamila Goldfarb.

O que diz o governo

Sobre a expansão da mineração no governo Lula, o Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que ela "está alinhada ao interesse público, à legalidade, à sustentabilidade, à proteção ambiental, à segurança jurídica e ao respeito aos direitos de comunidades e territórios". Já o MMA disse que o governo "adota medidas contínuas para prevenir e combater" a mineração ilegal, com atuação reforçada do Ibama e do ICMBio.

Em relação às terras raras, o MME afirmou que "busca transformar essa vantagem geológica em desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial", com um planejamento que vai além da ampliação da produção mineral e envolve avançar nas etapas de beneficiamento, separação, refino, transformação mineral e fabricação de produtos de maior valor agregado.

Sobre os projetos de energia renovável, o MME afirma que tem buscado qualificar os critérios técnicos para avaliação de impactos ambientais e sociais, além de fortalecer e aperfeiçoar o licenciamento prévio. Já o MMA diz que esses empreendimentos dependem do "devido processo de licenciamento ambiental, conduzido no âmbito federal ou estadual, conforme a competência legal".

A pasta defendeu ainda "a exploração e a produção responsável de petróleo e gás natural" como fonte estratégica de recursos para financiar políticas públicas e viabilizar os investimentos na transição energética.

"A defesa do Brasil é por uma transição energética justa, segura, inclusiva e compatível com as necessidades de desenvolvimento nacional e regional, baseada na ampliação das fontes renováveis e na redução das emissões, sem abrir mão da segurança energética, do combate à pobreza energética e da soberania nacional", afirmou o MME.

Argumento semelhante foi apresentado pelo MMA, que disse que "a exploração de recursos fósseis no presente é compreendida dentro de um contexto de transição gradual, que pode contribuir para o financiamento de investimentos necessários à ampliação de tecnologias limpas e ao fortalecimento de uma economia de baixo carbono".

Sobre a pavimentação da BR-319, o MMA destacou que o processo segue "uma proposta ampliada de governança ambiental e territorial", com o cumprimento de exigências previstas no licenciamento ambiental. Cita ainda um conjunto de "medidas especiais" para "fortalecer a governança territorial e reduzir riscos socioambientais associados", como a "criação de novas áreas protegidas, reconhecimento de Terras Indígenas e ações de ordenamento fundiário; além da proposição de um modelo de parceria para operação rodoviária, monitoramento ambiental e reforço da capacidade de atuação do Estado na região".

Sobre o fato de a agropecuária ter ficado com a maior parte dos recursos do Orçamento Federal destinados à adaptação climática, o MMA destacou que a verba contempla projetos que visam reduzir as emissões do setor e torná-lo mais sustentável.

Além de MME e MMA, a DW procurou ainda o Itamaraty, o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério dos Transportes, Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), além do próprio Planalto, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra