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EUA: exposição de US$ 20,5 mi explica evolução dos hominídeos

23 mar 2010 - 12h28
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Edward Rothstein
De Washington

Nossa espécie passou por significativas mudanças evolutivas nos últimos 150 anos. O período é quase insignificante em termos da duração da evolução dos hominídeos, um processo de quase seis milhões de anos de transformação que serve como principal tema para o David H. Koch Hall of Human Origins, uma ala inaugurada esta semana no Museu Nacional Smithsonian de História Natural, em Washington. Mas sem essas mudanças recentes, rápidas e sutis, a nova galeria, construída ao custo de US$ 20,5 milhões, não teria sido possível.

Exposição do Museu Nacional Smithsonian de História Natural mostra a história dos ancestrais do homem
Exposição do Museu Nacional Smithsonian de História Natural mostra a história dos ancestrais do homem
Foto: The New York Times

Observe, por exemplo, a seção "conheça seus ancestrais". Nela é possível contemplar fragmentos fossilizados de um esqueleto neandertal localizado durante a escavação de uma caverna iraquiana em 1958. Ou os dois crânios espantosamente bem preservados que o Musée de l'Homme de Paris emprestou para a exposição por alguns meses - um deles de um neandertal, datado de 50 mil a 70 mil anos atrás, e o outro de um cro-magnon com cerca de 30 mil anos de idade que já pertence à nossa própria espécie (Homo sapiens).

Mas esses espécimes talvez ainda possam se provar abstratos demais para transmitir a mensagem da museu, mesmo com a cuidadosa preparação que foi conduzida para estabelecer a galeria de 1,4 mil m². O visitante pode preferir contemplar a muralha formada por 76 crânios humanos de eras históricas diferentes, e avaliar o trabalho do artista plástico John Gurche, que revestiu de pele e cabelos os contornos fossilizados e lisos dos ossos. Nessa seção, expostas em gabinetes de vidro, vemos as cabeças de oito seres que podemos reconhecer como parentes distantes, com expressões ainda simiescas mas já atenuadas por expressões que refletem graus variados de vida interior.

Cada um deles representa uma espécie distinta, e cada uma dessas espécies, informa a instituição, é humana. Temos o Homo heidelbergensis, que viveu entre 700 mil e 200 mil anos atrás e pode ter sido o ancestral do neandertal nas latitudes frias da Europa; o indivíduo exposto tem uma pesada crista óssea por sobre os olhos, e parece alerta, interessado e consciente. Ao lado temos um exemplar menos bruto mas ainda assim feroz, um Homo erectus, espécie que existiu no planeta por 1,8 milhão de anos, muito mais tempo do que podemos nos vangloriar de nossa presença na Terra.

E o exemplar mais interessante talvez seja uma fêmea de Homo floresiensis, espécie descoberta na ilha de Flores, Indonésia, só em 2003, e que aparentemente se extinguiu apenas 17 mil anos atrás. No entanto, há dúvidas quanto à sua classificação como espécie. Há referências casuais ao espécime como "hobbit" (como acontece no texto do Smithsonian), porque sua altura era inferior a um metro. Mas fica evidente que seu cérebro era bem menor que o de Frodo e Bilbo.

Reflita, porém, sobre o que aconteceu para nos permitir nem que seja reconhecer as personificações desses parentes próximos. Pouco mais de 150 anos atrás, Charles Darwin chegou a sentir enjoos ao contemplar o trauma religioso e cultural que sua teoria da evolução inspiraria. Ele estava depondo uma ordem divina de categorias imutáveis e também dissolvendo a fronteira sagrada entre animal e humano.

Ao longo dos 100 anos seguintes, os museus de história natural tiveram de se recriar. No passado, ofereciam amostras claramente hierarquizadas. Mas essa abordagem foi transformada em uma narrativa de transformações e demonstrações de uma natureza "rubra nas presas e garras", como definiu o poeta Tennyson; a sobrevivência representa a força da criação. O diorama clássico dos museus mostra habitats, os teatros de ação da natureza, e as forças que os definem e deram forma à vida animal. Por fim o Homo sapiens surgiu para caminhar ereto sobre os passados campos de batalha.

Mas agora, sob a orientação de Richard Potts, diretor do Programa de Origens Humanas do Smithsonian, alguma coisa voltou a mudar. Como a galeria demonstra, dispomos hoje de muito mais informação do que Darwin. Foram localizados fósseis de milhares humanos, em uma cronologia que abarca milhões de anos; sabemos agora como o ADN funciona e somos capazes de identificar as encruzilhadas genéticas da Histórica; os avanços na análise microscópica permitiram até que identifiquemos partículas de pólen fossilizado. Esses desdobramentos permitem uma compreensão mais clara de uma ideia que sempre esteve entre as mais difíceis: a evolução do ser humano.

O tema da galeria é "o que significa ser humano" e a nova imagem da humanidade que ela cria difere da que existia um século atrás. Não que a natureza se tenha subitamente tornado um paraíso pastoral. Alguns dos objetos mais incomuns da exposição são ossos humanos que portam cicatrizes de ataques animais: um crânio de uma criança de três anos portando marcas de garras de águia nas cavidades oculares; um pé de um ancestral do homem mostrando marcas de mordida de um crocodilo.

Em uma das estações de vídeo interativas da galeria, na qual o visitante pode ver uma explicação inteligente de como os restos escavados são interpretados, descobrimos que o dente da mandíbula inferior de um leopardo encontrada em uma caverna no sítio arqueológico de Swartkrans, na África do Sul se encaixa perfeitamente nas marcas identificadas em um crânio humano encontrado por perto - prova da causa de uma morte acontecida 1,8 milhão de anos atrás.

No entanto, a ênfase da galeria não está na batalha pela sobrevivência, mas na longa trilha de registros deixados pelos seres humanos em seu avanço. Ao contrário de Darwin, a galeria aponta, sabemos que havia múltiplas espécies humanas, entre as quais Homo floresiensis, Homo neanderthalensis, Homo heidelbergensis, Homo erectus, Paranthropus boisei, Paranthropus robustus, Australopithecus afarensis e Sahelanthropus tchadensis.

Nos breve 200 mil anos de existência do Homo sapiens no planeta, ao menos três outras espécies humanas também existiam. E embora isso possa pareça reduzir quaisquer traços de orgulho restantes no animal humano, depois da teoria de Darwin, o efeito da galeria é o oposto: ela dá posição central ao ser humano, rastreando de que forma características comuns se desenvolveram nessas variadas espécies e por que nos tornamos os únicos sobreviventes. A mostra humaniza a evolução. Representa, ao menos em parte, uma história do triunfo do homem.

Assim, ao longo de uma das paredes do espaço de exibição podemos ver diversos paineis e displays que acompanham o desenvolvimento de características. Vemos as vantagens e desvantagens propiciadas por caminhar ereto (traço surgido seis milhões de anos atrás). Depois surgiu a produção de ferramentas (2,6 milhões de anos atrás), mudanças de forma de corpo, rápidos aumentos no tamanho do cérebro (500 mil anos atrás), o instinto de interação social e o desenvolvimento de linguagem simbólica e arte (250 mil anos atrás).

Vemos ornamentos neandertal feitos de ossos de animais e a reprodução de uma flauta feita com o marfim de um mamífero cerca de 35 mil anos atrás e encontrada em uma caverna na Alemanha. Também se pode aprender como a interpretação de restos fossilizados é conduzida por paleoantropólogos como Potts. Uma mandíbula na qual faltam alguns dentes parece pertencer a um neandertal envelhecido, parte de um esqueleto quase completo encontrado em um poço na caverna de Shanidar, Iraque. Análises de solo identificaram restos de madeira e de pólen no local, o que sugere que 65 mil anos atrás uma comunidade humana já conduzia cerimônias para sepultar seus mortos.

E em recentes escavações em Majuangou, China, ferramentas de pedra foram localizadas em quatro camadas de rochas datadas de entre 1,32 milhão e 1,65 milhão de anos no passado; o pólen fossilizado provou que cada um desses quatro períodos de tempo estava associado a um diferente habitat. "O fabricante das ferramentas, Homo erectus", lemos, "era capaz de sobreviver em todos esses habitats".

Essa capacidade tem importância crucial. A galeria enfatiza as imensas mudanças no clima do planeta que acompanharam o desenvolvimento dos hominídeos, sugerindo que a capacidade de adaptação a circunstâncias tão diferentes é o ponto forte dos hominídeos. A mudança do clima foi uma das forças que levaram ao triunfo do Homo sapiens. A parte final da galeria, com paineis sobre crescimento populacional e as mudanças atuais no clima, sugerem que a capacidade do homo sapiens está sendo desafiada uma vez mais.

A galeria merece repetidas e atentas visitas, ainda que as crianças possam encontrar diversão, entre as quais modelos em bronze dos nossos ancestrais exibidos no pavimento térreo. Mas as duas simulações computadorizadas na porção final da galeria - uma delas um jogo de escolhas culturais e ambientais em modo Sims, bem simplificado, e o outro uma visão caricatural de possíveis mudanças evolutivas futuras- deveriam ser muito mais sutis. Mais textos que resumam os temas também poderiam ajudar: porções demasiadas dos textos explicativos requerem o uso de telas de toque, e estão ocultas em listas de menu com inúmeras escolhas.

Há momentos, igualmente, em que o Smithsonian parece ter exagerado em sua humanização da evolução, como se estivesse rebatendo àqueles que, por motivos religiosos, objetam a uma visão evolutiva do universo e à sua brutalidade inerente. Uma das telas de toque sugere apenas que esses visitantes usem a galeria "a fim de explorar novas descobertas científicas e descubram como elas complementam suas ideias sobre o mundo natural".

De qualquer forma, o foco da exposição não desperta a sensação associada à ousadia da visão evolutiva - uma história não de progresso mas de acasos, assustadora enquanto ocorre e afortunada apenas em retrospecto. Mas as vistas retrospectivas aqui oferecidas são ainda assim esclarecedoras e convincentes. A galeria foi concebida na forma de uma exposição permanente, destinada a servir uma geração de visitantes, mas também para ser facilmente adaptável a pressões, tanto de parte da evolução científica quanto por conta do gosto dos visitantes. A evolução continua.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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