De rosto novo, menina atacada por guaxinim volta à escola
Cirurgia plástica não é só pela beleza. Frequentemente, acidentes quase fatais deformam os envolvidos e os deixam desfigurados em um nível que ultrapassa qualquer preocupação estética - é a saúde que está em jogo. Hoje a ciência consegue produzir resultados formidáveis e devolver a vida a quem não a perdeu. Na reconstrução facial, a pele não é o entrave, mas o caminho.
O caso de Charlotte Ponce, uma menina de 10 anos, residente do Estado americano de Michigan, é bastante emblemático. Charlotte foi atacada por um guaxinim aos três meses de vida. O animal comeu parte de seu nariz, bochechas e lábio. De acordo com relatos da mãe adotiva, Sharon Ponce, 52 anos, a mamadeira, próxima à criança, pode ter atraído o ataque em busca do leite. Os pais da menina perderam a guarda dela após o ataque e parentes a adotaram. O guaxinim era tratado como um animal de estimação pelos pais biológicos e conseguiu sair de sua gaiola e subir no berço.
Em meados de 2012, a família decidiu recorrer a novas técnicas de cirurgia plástica para recuperar o nariz, o ouvido direito e parte do lábio superior de Charlotte. Para isso, foi criado um blog a fim de narrar a história da menina e angariar fundos para as operações. Em duas semanas, foram arrecadados mais de US$ 10 mil, oriundos de diversos Estados americanos. Além do valor angariado, a família contou com a ajuda financeira do hospital Beaumont, em Roak Ridge, o escolhido para os procedimentos.
No dia 15 de agosto, o cirurgião plástico e pediatra Kongkrit Chaiyasate se responsabilizou pela primeira cirurgia e, posteriormente, pelas demais. Assim, o passo inicial foi transferir os vasos sanguíneos e a pele do antebraço de Charlotte para seu rosto, criando um forro para o novo nariz, além de dar suprimento de sangue adequado.
Uma segunda intervenção aconteceu em menos de dois meses, no dia 4 de outubro. Nessa ocasião, Chaiyasate retirou parte da pele da testa de sua paciente para cobrir a estrutura do nariz com uma lipoaspiração. No procedimento, as costelas foram usadas para criar as novas narinas e os septos, que depois seriam divididos. Já no dia 2 de novembro, o cirurgião transferiu parte do lábio inferior para o lábio superior de Charlotte. Na ocasião, ele ainda reduziu o novo nariz da menina.
A última operação ocorreu no dia 30 de novembro e cerca de quatro horas, segundo o médico. No procedimento, Chaiyasate desconectou o retalho de pele que se estende da testa até o nariz, o que permitiu moldar e contornar o nariz de Charlotte.
O cirurgião explicou ao Terra que cada um dos procedimentos não duraram mais do que algumas horas. “Foi muito importante que ela foi forte. Agia como se não tivesse dor e ia diante. A maioria das crianças não age assim. O progresso foi espetacular, e ela está bem”, disse Chaiyasate.
À conclusão de intervenção de novembro, Charlotte afirmou ao jornal Chicago Tribune que gostaria de se tornar uma enfermeira. O cronograma prevê o início da reconstrução da orelha direita de Charlotte durante o verão americano, mas ainda não foram decididos quais procedimentos exatamente serão realizados. Segundo Chaiyasate, todas as cirurgias devem terminar até o final deste ano, se tudo correr bem. “Ela já deve estar hábil para viver o próximo capítulo de sua vida. Esse capítulo talvez envolva devolver todo o cuidado que ela tenha recebido”, afirmou o médico.
O doutor e pesquisador Garry Brody, da Universidade da Califórnia explica que, com o avanço das técnicas, as cirurgias plásticas por meio de lipoaspiração devem se tornar mais comuns, mais baratas e mais eficientes. Precisa-se, no entanto, tomar cuidado em relação aos riscos que esse tipo de intervenção oferece. “Essas cirurgias de reconstrução facial ainda são muito complicadas. Os pacientes precisam estar muito conscientes. Motivações inapropriadas, como estética, podem estragar uma operação dessas. Obviamente também é preciso encontrar um cirurgião de referência”, advertiu Brody em entrevista ao Terra, referindo-se a pacientes que querem parecer-se mais jovens.
O professor é o autor de um estudo sobre os riscos da reconstrução facial, de 2012. Ele acredita que a indústria cinematográfica acaba gerando expectativas exageradas. “O que eu não gosto é que Hollywood cria o mito de que você pode ficar tão linda quanto a Marilyn Monroe. Isso coloca vidas em risco”.
Charlotte talvez nem saiba quem é Marilyn Monroe. Ela está na quarta série do ensino fundamental de Edgewood, em Fruitport. Devido à necessidade de recuperação do nariz, será dispensada das aulas de Educação Física e terá que levar curativos. Mesmo assim, a garota só quer comemorar seu retorno à escola, agora com o rosto menos fragilizado e mais parecido com o de suas coleguinhas. "Nós estamos felizes com os resultados finais, e agora apenas esperamos as cicatrizes diminuírem onde a pelo foi retirada para finalizar o nariz", diz a mãe adotiva. Sharon diz ainda que a menina está "em perfeita saúde, ela é enérgica e já está de volta à escola. A efusão de amor e suporte ao redor do mundo realmente encorajou seu espírito e ajudou na recuperação."