Clima instável faz cientistas mudarem forma de classificar o El Niño; entenda o que está por trás
Aumento rápido das temperaturas da Terra dificulta classificação de 'média normal'
A Agência de Atmosfera e Oceanos dos EUA, a NOAA, anunciou uma nova forma de determinar a ocorrência dos fenômenos El Niño e La Niña. A alteração foi necessária porque o aquecimento global tem provocado mudanças climáticas significativas e muito rápidas nos últimos anos, fazendo com que o método anterior deixasse de funcionar.
O El Niño é o fenômeno natural e cíclico de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera os padrões climáticos mundiais. No caso do La Niña, as águas são resfriadas, igualmente com impacto direto no clima mundial. Ambos os fenômenos alteram os padrões de temperatura e as chuvas, mas de formas diferentes. O El Niño tende a aumentar as temperaturas globais, enquanto o La Niña as reduz.
Durante 75 anos, meteorologistas determinavam a ocorrência dos fenômenos baseados na diferença das temperaturas aferidas em três regiões do Pacífico Tropical com a temperatura média considerada normal. No caso do El Niño, o fenômeno era caracterizado quando a temperatura registrada nesses três locais estava meio grau acima da média. No caso de La Niña, meio grau abaixo da média.
O problema é que, em um mundo em aquecimento, o que se considera "normal" está em constante mudança. A tendência de aquecimento da Terra a longo prazo pela ação do homem deu um salto significativo no começo de 2023. E a tendência continuou até o fim do ano passado. Cientistas têm algumas teorias sobre por que isso teria acontecido, mas ainda poucas certezas.
Entre as hipóteses levantadas estão a aceleração do aquecimento global, a redução de partículas de poluição por parte dos navios (que estaria bloqueando a entrada de calor), a erupção de um vulcão sob o oceano e um aumento da energia emanada pelo Sol.
A NOAA costumava usar a temperatura média dos 30 anos anteriores ao cálculo para estabelecer o "normal" e vinha atualizando essa média a cada década - a frequência padrão com que se atualiza a maioria dos índices climatológicos e meteorológicos.
Mas as temperaturas vêm aumentando tanto e tão rapidamente que a agência começou a atualizar o seu conceito de "normal" a cada cinco anos. Mesmo assim, não estava funcionando, segundo explicou o meteorologista Nat Johnson, do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA.
Por isso, a agência resolveu criar um novo índice El Niño/La Niña. Para o novo índice, a temperatura média é comparada à de todas as regiões tropicais do Pacífico, não mais a somente três. A diferença de medição verificada entre a aplicação da metodologia antiga e da nova chega a meio grau, o que é bastante significativo.
Isso acontece porque o que realmente importa no caso desses fenômenos climáticos é a forma como as águas do Pacífico interagem com a atmosfera. Nos eventos mais recentes, a metodologia antiga claramente não estava funcionando, segundo Johnson.
De acordo com as previsões da NOAA, um novo El Niño deve se formar em meados do ano, com impactos na elevação das temperaturas globais em 2027.
"Quando o El Niño chegar, provavelmente teremos novos recordes mundiais de temperatura", afirmou a pesquisadora Jennifer Francis, do Centro de Pesquisa Climática Woodwell, em entrevista à agência de notícias Associated Press (AP). "O 'normal' ficou para trás há décadas já. E com todo esse calor no sistema devemos estar preparados para eventos climáticos extremos."