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Catar usa ousada estratégia para se reinventar em meio ao deserto

Rio+20: a ousada estratégia para se reinventar em meio ao deserto árabe

13 jun 2012 - 11h49
(atualizado às 12h38)
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André Naddeo
Direto de Doha (Catar)*

Em 2008, a crise financeira internacional balançou as bolsas ao redor do mundo, quebrou bancos, levou a maior potência mundial ao colapso, da mesma forma que bem longe dos holofotes da mídia, numa península cercada pelo Golfo Pérsico, vizinha ao Bahrein pelo mar, e por terra com a Arábia Saudita, a luz amarela se acendeu diante de uma preocupação específica: até quando seremos dependentes do exterior para o nosso próprio consumo?

A crise causou escassez de alimento no mundo e uma enorme inflação no pequeno país mulçumano do Oriente Médio, cuja área total é de 11.437 km2 (metade do menor estado brasileiro, o Sergipe), que você cruza de norte a sul em 180 km, e de leste a oeste em 85 km. Era preciso um plano para reverter a dependência externa de comida: o Catar importa 90% do que consome, com produção própria de apenas 10% (basicamente vegetais, leite e derivados).

Como dinheiro não falta desde que o país deixou de lado a pesca e a extração de pérolas e, livre do domínio britânico, viu, a partir de 1971, os petrodólares jorrarem por seu terreno desértico, até 2014, o Programa Nacional de Segurança Alimentar do Catar (Qatar National Food Security Programme, QNFSP) vai investir R$ 600 milhões em cerca de 600 projetos de sustentabilidade em busca da autossuficiência. "Este é o curto prazo. Até 2022, no ano em que vamos receber a Copa do Mundo da Fifa, a ideia é ter colocado boa parte deste plano em prática", explica o chairman da QHFSP, Fahad Bin Mohammed Al-Attiya.

O pensamento básico é reverter uma balança extremamente desfavorável: enquanto tem em suas reservas de gás e petróleo, as duas entre as maiores do mundo e abastecedoras do mercado interno dos EUA, Japão e Inglaterra, responsáveis por 79% da economia local, a agricultura corresponde, por sua vez, com ínfimos 0,2 da conta total. Existe ainda o temor de que se a fonte secar, em décadas, o Catar caminharia, lentamente, de volta à pobreza.

Por isso, mais que existam cartazes nos supermercados indicando os alimentos made in Qatar para incentivar a população para a compra, o governo monárquico, sob a chefia, desde 1995, do emir Hamad Bin Khalifa Al Thani, tem um objetivo ousado: transformar mais da metade do seu território em área de plantio. Significa multiplicar por mais de 10 vezes o número de fazendas hoje existentes no país, algo em torno de 1.400 nos dias atuais, sendo que apenas cerca de 350 têm capacidade de produção o ano todo.

"Acreditamos que poderemos ser um hub de alimentos no Golfo Pérsico. Pensando que construiremos à frente um novo porto, seremos capazes de fazer essa distribuição", completa o chairman Al-Attiya, que desembarca nesta semana no Rio de Janeiro, para a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável com todo o seu projeto esmiuçado e amparado por um staff de cerca de 100 profissionais que vão trabalhar no estande do país, no Parque dos Atletas, em frente ao Riocentro, onde as principais discussões da convenção ocorrerão.

A pergunta que fica da confiança catarense: mas como fazer tudo isso se desde a crise o número de green houses diminuiu 30%, se o país aproveita apenas 1% de seu território para a agricultura atualmente, se a reserva de água potável do país, cujos únicos dois poços artesianos de abastecimento estão desgastados, tem vida útil de apenas dois dias, e se uma simples garrafa de água mineral, de 250 ml, chega a custar até R$ 10?

A resposta vem do mar, e de novas técnicas de plantio. Cercado pelo mar do golfo, a dessalinização é literalmente a salvação da lavoura. O processo industrial de evaporação da água que depara o sal não é o suficiente ainda para matar a sede, mas é uma saída natural para abastecer a agricultura, que por sua vez se reinventa. Se no mundo todo as pessoas extraem a água do fundo do chão, no Catar o caminho é o inverso: os poços artesianos são capitalizados e aliviam a extrema aridez do solo. E técnicas como a hidroponia (veja no vídeo), o cultivo de alimentos sem solo, tornam-se um dos pilares deste salto alimentar desejado.

"Eu acredito que o cultivo hidropônico pode ser, sim, uma boa solução para o problema da agricultura do Catar, porque neste processo, com novas técnicas de resfriamento das estufas, você é capaz de economizar de 40% a 60% da água utilizada para crescer as plantas", observa o gerente do setor agrícola de uma fazenda em Umm Sal Al, visitada pela reportagem do Terra, e que produz, sobretudo, vegetais e flores.

"Sabemos que os 90% de diferença da comida própria não será possível atingir, mas queremos equilibrar melhor essa balança. Sem dúvida, penso que este seja o caminho a ser seguido por nosso vizinhos, como o Bahrein, o Kwait, a Arábia Saudita, e os Emirados Árabe", atesta Tahira Newaz, engenheira de água e energia da QHFSP.

Tendo em vista que as duas grandes reservas de água do Catar se encontram, cada uma, justamente nas partes norte e sul, o abastecimento da região leste, área principal onde se concentrariam as green houses (veja o mapa na galeria de imagens no topo) ocorreria através de uma espécie de aqueduto que varreria o país pelo centro.

Os desafios da sustentabilidade

Se o processo de dessalinização é a salvação da lavoura, com técnicas avançadas de plantio, ainda assim, o órgão catarense terá pela frente ainda três grandes enigmas a serem decifrados em sua gestão sustentável: evitar que a população catarense chegue a índices alarmantes de obesidade, refletir sobre o uso da agricultura para o crescimento de flores para paisagismo e estudar os impactos que a retirada maciça de água do mar pode vir a causar.

O objetivo do país árido é atingir a meta de 3 milhões de metros cúbicos de água por dia, via dessalinização, aumentando a reserva do país, até 2022, para 90 dias de autossuficiência. Atualmente, para cada metro cúbico de água com sal deparado, se gasta R$ 3. Mas existiram consequências para o ecossistema local com o mar sendo o bebedouro das terras catarenses? "Vamos estudar ao longo desse processo todos os impactos, mantendo sempre o nosso objetivo", argumenta o chairman.

Outro dilema instigante encontra paralelo com o crescimento do país (18,7% em 2011). Com o avanço dos arranha-céus, o paisagismo vai na contramão dos ideais sustentáveis. Não é raro ver modernos chafarizes, como oásis, em meio a calorenta capital Doha, principalmente nos vários hotéis de luxo. Além disso, as flores, como orquídeas, são de produção obrigatória dentro das fazendas atuais.

A unidade visitada pelo Terra, por exemplo, divide metade de sua produção entre vegetais e a floricultura. Como se não bastasse, existe, por fim, uma outra ironia no meio do caminho: comida saudável é artigo de luxo, portanto, é caro. O fast food invadiu o bolso popular e o resultado é que 69% dos homens, e 78% das mulheres estão acima do peso ou obesos no país.

"O preço da comida verde e saudável os obrigam a comer mal, então esse não deixa de ser um grande desafio. Pensamos este processo como um problema de saúde pública, e vamos tratar dessa forma, também com reeducação alimentar", explica a nutricionista chefe do QHFSP, Darine Marakat.

O repórter André Naddeo viajou a convite da Qatar National Food Security Programme

Fonte: Terra
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