O preço social e ambiental da exploração de petróleo na Venezuela
Governo Trump diz que aumento da exploração vai beneficiar venezuelanos, mas experiências em vários países mostram concentração de renda e danos sociais e ambientais.Cobiçadas pelos EUA, asreservas de petróleo conhecidas na Venezuela são as maiores do planeta. Ainda assim, a combinação de dívida pública elevada, infraestrutura deteriorada e sucessivos casos de corrupção levou ao forte enfraquecimento da indústria petrolífera do país durante o governo de Nicolás Maduro.
Agora, Washington promete revitalizar o setor energético venezuelano, instalando empresas estrangeiras econtrolando a distribuição de divisas. O governo do presidente Donald Trump alega que a nova realidade beneficiará os venezuelanos.
Investimentos robustos e um novo arcabouço legal são necessários para que os petrodólares voltem a jorrar na Venezuela, algo que pode levar anos. Além disso, a experiência de outros países que tentaram explorar com agilidade vastas reservas de petróleo revela que, ao contrário do que defende a Casa Branca, a corrida petrolífera nem sempre é sinônimo de prosperidade para a população local.
Em locais onde as regulamentações são fracas, a corrupção é alta, as leis não são cumpridas e o modelo econômico como um todo é instável, a poluição ambiental causada pela indústria é mais comum, mostram análises das universidades de Yale e Cambridge.
Os riscos já enfrentados pela Venezuela
A produção de petróleo já causa graves danos ao meio ambiente na Venezuela. Vazamentos em oleodutos, por exemplo, levaram à poluição do Lago Maracaibo, um dos maiores da América do Sul, cuja água agora tem uma cor marrom salobra em muitos pontos. A exploração na região do rio Orinoco, onde há 1,3 trilhão de barris de petróleo, também é vista como arriscada, pois pode contaminar uma das veias vitais do ecossistema venezuelano.
O delta do Orinoco é um dos sistemas de água doce mais ricos em biodiversidade do mundo e, em comparação com outras regiões ao redor da Amazônia, está relativamente intacto. Uma expansão da produção de petróleo significaria um amplo desmatamento e, segundo ambientalistas, uma catástrofe ambiental.
Além disso, o petróleo venezuelano é particularmente pesado e requer mais produtos químicos prejudiciais ao meio ambiente para seu processamento, além de causar muitas emissões prejudiciais ao clima.
Na prática, se a produção de petróleo no país com participação dos EUA aumentar sem preparação e endurecimento de regras, a Venezuela corre o risco de repetir desafios vividos por países como Moçambique, Equador, Nigéria e mesmo o Brasil, cuja expansão do setor energético concentrou recursos e gerou danos ao meio ambiente.
Moçambique: o outro lado da exploração de gás
No continente africano, Moçambique é um dos países que vive sob a promessa de ganhos bilionários com a exploração de gás natural. Apesar de ter enfrentado sucessivas catástrofes ambientais nos últimos anos, que devastaram regiões inteiras e desabrigaram 600 mil pessoas, o país segue com planos de acelerar sua indústria energética.
Em 2010 foram descobertos grandes campos de gás na costa do país. A empresa italiana Eni e a francesa Total Energies comprometeram-se a investir, em conjunto, mais de 27 bilhões de euros (R$ 169 bilhões) para a exploração. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que isso poderia gerar receitas de até 500 bilhões de dólares (R$ 2,6 trilhões).
Os números alimentam a esperança de dinheiro rápido, mas críticos defendem que receitas dessa magnitude são irrealistas e demoradas. Após a descoberta das reservas, foram necessários 12 anos para que a produção pudesse começar. Outros projetos de gás liquefeito só devem começar em 2028.
Também é questionável se e como a população local irá se beneficiar. Um relatório do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD) mostra as drásticas consequências ambientais da exploração de gás em Moçambique.
De acordo com o estudo, em torno da unidade de processamento de Afungi, no noroeste do país, foram destruídas grandes áreas de florestas, zonas úmidas e áreas costeiras - habitats cruciais para a biodiversidade e a proteção da costa.
Os ecossistemas marinhos também estão sendo afetados com perfurações, dragagens e poluição. A degradação dos habitats, a perda e a migração de espécies ainda afetam significativamente a pesca, o que ameaça as oportunidades de renda e os meios de subsistência da população local, alerta o IISD. De acordo com a organização de direitos humanos European Center for Constitutional and Human Rights, o desenvolvimento do projeto de gás também contribuiu para o deslocamento da população e um aumento da violência na região.
Equador: petróleo não trouxe prosperidade geral
Também no Equador, o boom do petróleo após a descoberta de jazidas na década de 1960 não trouxe prosperidade imediata.
Além da agricultura, o país passou a apostar no petróleo como produto de exportação. Mas com o início da exploração petrolífera, veio também a poluição ambiental nas regiões afetadas. Desde então, vazamentos em oleodutos, águas residuais contaminadas e inúmeros desastres petrolíferos poluem cursos d'água e solos, prejudicam a agricultura, a pecuária e os recursos pesqueiros - e afetam importantes fontes de renda da população local.
O mais recente desastre com petróleo ocorreu após a ruptura de um oleoduto costeiro em março de 2025 e afetou mais de 300 mil pessoas. Devido à poluição da água, os acidentes são associados a doenças infecciosas e crises de saúde prolongadas.
Com a aposta de que o boom do petróleo não arrefeceria, o Equador ampliou seus gastos públicos para instalar infraestrutura. Mas, com a crise do petróleo na década de 1980 e a consequente queda dos preços, a economia equatoriana entrou em colapso, criando uma dívida pública crescente que até hoje pressiona o país.
Nigéria: elevadas receitas, mas poucos se beneficiam
Na Nigéria, a exploração de petróleo e gás gerou enormes receitas de exportação durante décadas. No entanto, a maior parte da população continua sofrendo com a pobreza, e as atividades de extração no delta do rio Níger causaram enormes danos ambientais e conflitos sociais.
Águas ricas em peixes e áreas agrícolas foram contaminadas com milhares de toneladas de petróleo, com consequências diretas para a saúde e os meios de subsistência de mais de 30 milhões de pessoas na região. Ao contrário da promessa inicial, poucos novos empregos foram criados.
Apesar das receitas abundantes para as empresas e o Estado, as comunidades locais quase não se beneficiam. Indenizações cobradas na Justiça muitas vezes não se consolidam devido à fraca aplicação das regras.
Brasil entre o pré-sal e a Foz do Amazonas
No Brasil, a exploração do pré-sal se iniciou em 2010, quatro anos depois dos primeiros indicativos da existência de combustíveis fósseis na região do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A operação comercial fora anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um "passaporte para o futuro" e posicionou o Brasil como um dos maiores produtores de petróleo do mundo.
O Congresso Brasileiro estipulou normas rígidas para a destinação dos lucros do petróleo. Entre as principais iniciativas está a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB), para reverter a receita em projetos de interesse nacional. Mas a poupança foi posteriormente extinta pelo então presidente Michel Temer. Já o Fundo Social, também criado à época, foi ampliado para atender também projetos de habitação popular e enfrentamento de calamidades públicas.
Por outro lado, a distribuição dos recursos abriu uma batalha jurídica entre municípios que perdura até hoje e gerou forte dependência dos estados do dinheiro do petróleo. A visão de longo prazo foi substituída pela visão endereçada como um "tapa-buraco" fiscal. A situação do Rio de Janeiro ilustra esse quadro. Em 2020, o ex-governador Wilson Witzel tratou uma queda do preço internacional como uma "hecatombe" para a economia do estado.
Além disso, relatório da Fiocruz e do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) publicado no ano passado identificou 25 novos impactos do pré-sal, diferente dos já metrificados pelo Ibama, como físicos, bióticos e socioeconômicos. Entre eles estão pressões culturais, econômicas, institucionais, a qualidade do meio ambiente habitado e o bem-estar das pessoas afetadas pelo empreendimento.
Os impactos ambientais também estão no cerne da discussão sobre a exploração na Foz do Amazonas, cuja análise exploratória foi autorizada após anos de disputa. No início de janeiro, a Petrobras identificou um primeiro vazamento causado por sua atividade no local.
Impactos afetam população em todo o mundo
De acordo com estimativas de cientistas espanhóis, a exploração de petróleo afeta o meio ambiente e a saúde de cerca de 600 milhões de pessoas em todo o mundo.
E não é apenas nas regiões mais pobres e nos países emergentes que a exploração de combustíveis fósseis acarreta riscos para a natureza e os meios de subsistência da população local.
Um exemplo dramático é o desastre da Deepwater Horizon em 2010, quando mais de 700 mil toneladas de petróleo bruto vazaram no Golfo do México durante meses. Os danos causados às pessoas, aos ecossistemas costeiros e à economia local continuam até hoje e são estimados em mais de 60 bilhões de dólares (R$ 322 bilhões).