Baby Shark é usada como tortura; veja outras músicas que também foram
Morte de penitenciário que havia denunciado tortura com música "Baby Shark" faz relembrar casos semelhantes
Um detento de 48 anos que havia denunciado o estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, por ter torturado ele e seus colegas ao som da música infantil “Baby Shark”, foi encontrado morto. O fato, noticiado no domingo (11), alerta para a prática de tortura por meio da música, em penintenciárias e operações ao redor do mundo.
Segundo a "CBS", John Basco, o presidiário encontrado morto nesta semana, foi identificado por um policial que fazia a ronda no Centro de Detenção do estado. Ele e mais quatro colegas foram responsáveis por mover um processo denunciando torturas cometidas a ele e seus colegas no presídio, em novembro de 2021.
Na ocasião eles afirmaram que, mais de uma vez, foram retirados das celas em que viviam e foram levados para outro quarto, onde eram algemados e forçados a ouvir “Baby Shark” por um período de três a quatro horas sem pausas. O processo movido pelos detentos também relatava que o volume do som era alto o suficiente para ser ouvido dos corredores da penitenciária.
"Baby Shark", uma produção do canal infantil sul-coreano Pinkfong, se tornou o vídeo mais visto do YouTube em novembro de 2020. Também foi o primeiro a ultrapassar 10 bilhões de visalizações em janeiro deste ano.
Por que música alta vira tortura?
Em 2019, uma reportagem da "CNN" investigou os efeitos dos sons altos ou assustadores na mente humana.
Morag Josephine Grant, musicóloga da Reid School of Music da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, disse ao veículo que a música tem a capacidade de nos causar grande dor. Um dos motivos seriam suas funções emocionais e psicológicas, que afetam nossa identidade e emoções.
Na história, o método já foi bem usado. Um exemplo disso foram mulheres cantoras judias forçadas a tocar música clássica de Schubert e Bach no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Isso trouxe aos presos emoções como raiva, raiva e vergonha, explicou um estudo de Juliane Brauer, pesquisadora do Centro de História das Emoções do Instituto Max Planck de Desenvolvimento Humano.
Segundo Grant, nenhum tipo ou estrutura de música particular é mais eficaz para a tortura. "Tende a ser música que tem algum tipo de ressonância dentro da situação política e cultural particular", disse ela. "Os tipos de música que são usadas na tortura contêm um forte componente humilhante nas pessoas."
A música também pode fortalecer os efeitos de outros métodos de tortura, como a privação do sono. Ela seria capaz de abafar os pensamentos internos das vítimas, resultando em perda de orientação e até alucinações.
Tocar música muito alta por longos períodos de tempo causaria um tipo de "sobrecarga sensorial", segundo estudos. Pode ser uma maneira rápida de render um prisioneiro porque o barulho dificulta a distinção entre a realidade e quebra a resistência a perguntas dos captores.
Outros casos de música na tortura
Relatos da prisão de Guantánamo, uma das recordes em relatos do uso de músicas como tortura, dizem que a música “Killing in the Name”, da banda Rage Against the Machine, já foi usada como tortura e repetida por dias. Ao saber sobre o ocorrido, a banda não ficou nada satisfeita e se uniu ao movimento “Zero dB”, que lutava contra a tortura musical, em 2008.
Por outro lado, denúncias dessa mesma penitenciária mostram que a música "Bodies", do Drowning Pool, eram bastante usadas para isso, e o baixista, nesse caso, teria até autorizado o uso da canção para esse objetivo. Mohamedou Ould Slahi, um dos presos de Guantánamo, foi submetido durante 10 dias consecutivos a interrogatórios que davam play nela repetidamente.
A mesma prisão também conta com relatos de tortura com uma outra música infantil. “I Love You”, do desenho animado do dinossauro Barney, foi usada indeterminadas vezes para esse fim, segundo a "CNN". Ainda em Guantánamo, a faixa “Enter Sandman”, do Metallica, também foi trilha sonora desses métodos, segundo o jornal “The Guardian”.
Como se não fosse o suficiente, mais de 800 arquivos vazados pelo site "Wikileaks" em 2011 mostraram que a música “Born in the USA”, de Bruce Springsteen, era usada em volumes elevados como forma de tortura – também na prisão de Guantánamo. Os relatos são de Shaker Aemer, que passou quase 14 anos na prisão. Ao ser liberto, ele declarou: "Guantánamo é sobre como destruir um ser humano totalmente, como danificá-lo mentalmente, fisicamente, espiritualmente”.
A CIA (Agência Central de Inteligência) não ficou de fora das acusações: a companhia foi acusada pela emissora de TV Al Jazeera, em 2014, de algemar e prender suspeitos de terrorismo a caixas de som que reproduziam a música “Fire”, da banda Red Hot Chilli Peppers.
Um ex-detento chamado Binyam Mohamed, que ficou 18 meses como prisioneiro da CIA em Marrocos, contou em seu livro que também foi torturado diversas vezes entre 2002 e 2004, em uma prisão secreta no Afeganistão, ao som de “The Real Slim Shady”, do rapper Eminem. Ele também relatou que a música “All Eyez On Me”, do Tupac, era usada para o mesmo fim. As faixas eram colocadas durante o dia, a noite e até enquanto ele dormia. Além disso, práticas como mutilação com lâminas de barbear também eram realizadas.
Segundo o jornal “Telegraph”, a música “My Sweet Lord”, de George Harrison, também era utilizada como tortura e era tocada por dias, o que aconteceu inclusive com prisioneiros da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), no Chile.