O antes e depois do prato de um vegano periférico

Passamos mais de 20 anos acreditando que a única forma de se alimentar era com carne, leite, ovos e derivados

9 jun 2022 - 05h00
Atual prato de um vegano da quebrada à esquerda e, à direita, o antigo
Atual prato de um vegano da quebrada à esquerda e, à direita, o antigo
Foto: Vegano Periférico

Em uma sociedade que exalta o consumo de produtos químicos, embutidos e ultraprocessados, existe uma dificuldade imensa em se alimentar de forma variada, com frutas, legumes e verduras. Na periferia e entre as classes mais pobres, essa realidade é ainda pior.

Além disso, num cenário onde mais de 120 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar, isso se torna ainda mais severo. Milhões de pessoas estão sem ter o que comer e sem conseguir acessar alimentos básicos para sua sobrevivência.

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A realidade é que o povo ou passa fome por conta de um sistema desigual, perverso e excludente ou se alimenta extremamente mal quando consegue comer, por pura desinformação e estímulo publicitário. Isso diz muito sobre a nossa economia, sobre a drástica desigualdade e, sobretudo, a gestão do atual Governo.

Não é uma atitude responsável falar de mudanças alimentares de forma meramente individualista, sem compreender a realidade do país. Escrevendo essa matéria, saiu o último Inquérito da fome no Brasil, são mais de 33 milhões de brasileiros e brasileiras em situação de fome, além de 60% da população em situação de insegurança alimentar. (Rede PENSSAN, 2022)

O relatório aponta que esse quadro não é uma realidade desde a década de 90, tal cenário é um retrocesso inaceitável e revoltante.

Para que uma pessoa possa refletir sobre o que ela consome ou como se alimenta, envolve uma série de fatores, que na esmagadora maioria das vezes não depende exclusivamente da vontade dela. O fato é que, se a pessoa não tem poder de compra, não tem como escolher, logo não tem como mudar.

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Ter acesso a alimentos de qualidade, preços acessíveis e poder de compra está fora do controle individual, é uma questão política, econômica e completamente estrutural. Haja vista esse contexto, decisões políticas e políticas públicas são fundamentais.

Embora a gente tenha mudado completamente a nossa alimentação vivendo em periferia, morando de favor, com diversas dificuldades financeiras, mãe desempregada e trabalhando sem registro com salário baixo, seria irresponsável da nossa parte utilizar esse argumento e generalizar sem considerar as diversas realidades e a atual situação do país.

Quando fizemos a nossa mudança, éramos garçom em um bar, e tínhamos muitos gastos, mas não estávamos sem acesso a alimentos básicos, a gente conseguia comprar legumes, vegetais, frutas, arroz e feijão. Sem contar que o salário valia muito mais, e a inflação não estava tão exorbitante.

E ter mudado a nossa forma de se alimentar, nossa forma de consumir e as nossas preocupações em relação aos animais, meio ambiente e com a questão da saúde que atravessa o nosso povo, foi extremamente significativo.

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Antes do veganismo, o nosso prato era basicamente composto por arroz, feijão e alguma ‘’mistura’’, como salsicha, ovo, frango, calabresa e batata. E nem pensávamos sobre o que estávamos comendo e com o que estávamos contribuindo (impactos da alimentação). Fomos ensinados a se alimentar dessa forma e, simplesmente, comíamos sem questionar.

Sem contar que o nosso paladar era viciado em coisas gordurosas, açucaradas e salgadas. Além disso, adorávamos a gordura da carne, e passamos mais de 20 anos com esse consumo, rejeitando todos os vegetais. Na real, tínhamos repulsa de alimentos saudáveis.

O que fez a gente olhar para o nosso prato e buscar mudanças, foi a consciência acerca do impacto que a alimentação, sobretudo de origem animal e ultraprocessada, tem não só na nossa saúde, como no meio ambiente e na vida de bilhões de animais.

A principal mudança que fizemos foi tirar tudo de origem animal, cortar os embutidos e ultraprocessados, e aumentar significativamente o consumo de legumes, frutas, verduras, grãos e cereais. Atitude que mudou completamente a forma que enxergamos a alimentação.

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Ainda hoje consumimos frituras e produtos industrializados. Existem muitos preparos incríveis, mas definitivamente não é a base da nossa alimentação, é totalmente a exceção. Em relação aos produtos de origem animal, nós não consumimos há mais de 6 anos.

Isso só foi possível depois de muita informação e após tomar consciência do quão prejudicial é a forma como nos alimentamos.

Com a sobrevivência minimamente garantida, poder de compra, acesso a alimentos básicos e de qualidade, contato com boas informações, consciência e preocupação em se posicionar de forma ética, diversas possibilidades se tornam reais. 

A elite e os governantes querem ver o povo desinformado, comendo mal e impotente. Por isso, a nossa luta sempre será pela nossa autonomia.

Mas para além de termos informações sobre mudanças de hábitos, sobre a importância de repensarmos o nosso consumo, é necessário enxergar que uma população faminta, sem ter um arroz para colocar no prato, não tem a possibilidade de fazer mudança alguma. Posto isto, é necessário compreendermos essa questão de forma sistêmica, estrutural e jamais negligenciar a realidade.

Pega a visão

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Se sabemos o que estamos consumindo, e temos plena consciência das consequências, é um direito nosso consumir qualquer coisa, mesmo que seja nocivo ao nosso organismo. Contudo, a questão vai muito além disso, na grande maioria das vezes não fazemos a mínima ideia do que estamos comprando e consumindo. Apenas reproduzimos um comportamento condicionado. Isso quando conseguimos comer, algo que está sendo cada dia mais difícil para o povo brasileiro.

Leonardo e Eduardo dos Santos são irmãos gêmeos, nascidos e criados na periferia de Campinas, interior de São Paulo. São midiativistas da Vegano Periférico, um movimento e coletivo que começou como uma conta do Instagram em outubro de 2017. Atuam pelos direitos humanos e direitos animais por meio da luta inclusiva e acessível, e nos seus canais de comunicação abordam temas como autonomia alimentar, reforma agrária, justiça social e meio ambiente.
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