As vendas de testosterona no Brasil saltaram 670% entre 2018 e 2023, impulsionadas pela busca por estética e desempenho. Especialistas alertam contra o uso indiscriminado e sem indicação clínica comprovada, prática que traz sérios riscos à saúde, como infertilidade, problemas cardiovasculares, danos hepáticos e alterações de humor. A reposição hormonal exige diagnóstico médico rigoroso, pois sintomas de baixa hormonal podem ser reflexo de hábitos como sono inadequado e obesidade.
A testosterona ganhou espaço nas academias e nas redes sociais como promessa de mais músculos, disposição e desempenho sexual. No Brasil, as vendas de esteroides à base do hormônio cresceram 670% em cinco anos, segundo levantamento do Valor com dados da Anvisa.
O número passou de 1.096.850 unidades comercializadas em 2018 para 7.355.726 em 2023. O aumento preocupa porque parte desse consumo ocorre sem diagnóstico, prescrição ou acompanhamento médico.
"Observamos um movimento grande nesse sentido, sobretudo quando o assunto é performance, seja para musculação, seja para melhoria da atividade sexual", afirma Ruimário Coelho, urologista.
A reposição hormonal, porém, não deve ser confundida com o uso estético ou esportivo. Ela pode ser indicada em casos específicos de deficiência hormonal confirmada, mas não funciona como um suplemento para elevar a testosterona acima do necessário.
Quando a reposição é indicada?
A testosterona pode diminuir gradualmente com o envelhecimento. Isso não significa, no entanto, que todo homem mais velho precise fazer reposição hormonal.
O diagnóstico depende da combinação entre sintomas compatíveis e alterações confirmadas em exames. Diretrizes da Endocrine Society recomendam investigação clínica e laboratorial antes do tratamento, além de acompanhamento para avaliar benefícios e possíveis efeitos adversos.
"Não existe um nível adequado de testosterona que, sozinho, determine a necessidade de tratamento. A idade por si só também não define a necessidade de reposição", explica Ruimário.
Cansaço, redução da libido, alterações de humor e dificuldade de ereção podem ter várias causas. Sono ruim, obesidade, estresse, alguns medicamentos e doenças crônicas também podem influenciar esses sintomas.
Por isso, um resultado isolado não deve determinar o início do tratamento. O médico precisa analisar o histórico de saúde, repetir exames quando necessário e investigar fatores associados.
Sono, peso e exercício fazem diferença?
Sono de qualidade, atividade física e controle do peso podem contribuir para a saúde hormonal. Esses cuidados não substituem o tratamento quando existe deficiência diagnosticada, mas ajudam a identificar e corrigir fatores modificáveis.
"A gente produz testosterona durante uma fase específica do sono. Quem dorme mal provavelmente terá uma queda na produção desse hormônio", afirma o urologista.
A musculação e outros exercícios também favorecem a saúde metabólica e o ganho de massa muscular. Já a obesidade pode estar associada a níveis mais baixos do hormônio.
A orientação não deve ser simplesmente "aumentar a testosterona". O mais importante é entender por que os níveis estão baixos e quais hábitos ou condições podem estar interferindo.
O hormônio pode afetar a fertilidade?
Sim. A testosterona aplicada ou ingerida de forma externa pode reduzir a produção natural do hormônio e diminuir a fabricação de espermatozoides.
Isso acontece porque o organismo interpreta a presença elevada de testosterona como um sinal para reduzir os estímulos hormonais que ativam os testículos. A consequência pode ser queda importante na contagem de espermatozoides e, em alguns casos, ausência deles no sêmen.
"O uso indiscriminado da testosterona é um dos fatores de diminuição da fertilidade. Pessoas que querem ter filhos também precisam tomar cuidado com a reposição", alerta Ruimário.
A Endocrine Society recomenda não iniciar terapia com testosterona em homens que planejam ter filhos em breve. Quem deseja preservar a fertilidade deve conversar com o médico antes de qualquer tratamento, mesmo que tenha sintomas ou exames alterados.
A recuperação da produção de espermatozoides pode ocorrer após a interrupção, mas o tempo varia e nem sempre é imediato. Por isso, homens que pretendem ter filhos devem informar esse plano durante a consulta.
Quais são os riscos do uso abusivo?
O uso sem indicação pode provocar efeitos em diferentes partes do organismo. Entre os riscos descritos por especialistas e órgãos de saúde estão:
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Redução da produção de espermatozoides e infertilidade.
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Aumento da pressão arterial e alterações no colesterol.
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Maior risco de problemas cardiovasculares em determinados contextos.
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Acne, retenção de líquido e queda de cabelo.
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Redução do volume dos testículos e disfunção sexual.
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Alterações de humor, irritabilidade e dependência psicológica.
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Sobrecarga ou lesões no fígado, especialmente com combinações de substâncias.
A Anvisa também alerta que implantes hormonais manipulados para fins estéticos ou de desempenho não têm segurança e eficácia comprovadas para essas finalidades. Entre as complicações relatadas estão hipertensão, alterações de colesterol, arritmia, acidente vascular cerebral, acne e alopecia.
O risco não depende apenas do tipo de produto. Doses elevadas, combinações e "ciclos" divulgados na internet tornam o uso ainda mais imprevisível.
Como agir com segurança?
Quem apresenta sintomas de possível deficiência hormonal deve procurar um endocrinologista ou urologista. O profissional poderá avaliar sintomas, exames, histórico familiar, medicamentos em uso, sono, peso e desejo de ter filhos.
Pessoas que já usam testosterona por conta própria também devem buscar atendimento. A interrupção ou redução precisa ser discutida individualmente, sem seguir protocolos encontrados nas redes sociais.
Não é recomendado iniciar, ajustar ou interromper hormônios sem orientação. A reposição pode beneficiar pacientes com deficiência confirmada, mas o uso para fins estéticos ou de performance transforma um tratamento específico em uma exposição desnecessária a riscos.
Como resume Ruimário Coelho: "A diferença do remédio para o veneno é a dose".