Testosterona: uso sem indicação pode afetar o coração, diz estudo

Estudo aponta aumento de 51% no risco de eventos cardiovasculares graves entre homens sem deficiência hormonal

17 set 2026 - 10h40
Resumo
Um estudo da eBioMedicine revelou que o uso de testosterona sem indicação clínica eleva em 51% o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC. O abuso para fins estéticos ou de rendimento causa infertilidade, alterações metabólicas e danos estruturais no coração. O impacto atinge o ápice no esporte de alto rendimento: levantamento no European Heart Journal apontou a morte súbita cardíaca como a maior causa de óbito entre fisiculturistas, sendo cinco vezes mais frequente na elite.

Especialistas detalham os danos causados por doses suprafisiológicas, que vão de alterações hormonais severas ao colapso cardíaco

O uso de testosterona sem indicação médica, muitas vezes associado à busca por aumento de massa muscular, melhora do desempenho físico ou mudanças estéticas, volta a chamar atenção da comunidade científica diante de novos dados sobre seus possíveis impactos à saúde cardiovascular. 

Foto: Revista Malu

Publicado em 2026 na revista científica eBioMedicine, do grupo The Lancet, um estudo identificou um risco significativamente maior de eventos cardiovasculares graves entre homens que iniciaram terapia com testosterona sem evidências de deficiência hormonal. A pesquisa revelou que a administração do hormônio sem necessidade clínica aumenta em 51% o risco de eventos cardiovasculares graves, incluindo infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca, insuficiência cardíaca e morte, quando comparada à rotina de pacientes que fazem a reposição por indicação médica devidamente diagnosticada.

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Os riscos do uso da testosterona sem indicação médica

A médica endocrinologista e professora da Afya Ipatinga, Mariana de Souza Furtado, explica que o uso de testosterona em doses suprafisiológicas ou sem indicação médica pode trazer sérios riscos à saúde e desregular o funcionamento natural do sistema endócrino. 

Uma das consequências é a alteração da produção hormonal do próprio organismo. Ao receber testosterona externa, o cérebro identifica a presença elevada do hormônio e reduz os estímulos responsáveis por sua produção natural. Nos homens, esse processo pode levar à atrofia testicular, redução da produção de espermatozoides e infertilidade. Nas mulheres, o excesso pode provocar sinais de virilização, como aumento de pelos, engrossamento da voz, queda de cabelo e hipertrofia do clitóris.

Os impactos também podem atingir o sistema cardiovascular e o metabolismo. O uso inadequado está associado ao aumento do risco de hipertensão, hipertrofia ventricular esquerda, insuficiência cardíaca e infarto. Além de alterações no perfil de colesterol, com redução do HDL e aumento do LDL.

Outro efeito possível é a eritrocitose, caracterizada pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos no sangue. A condição pode elevar a viscosidade sanguínea e, consequentemente, favorecer eventos tromboembólicos. Também estão entre os possíveis efeitos adversos a toxicidade hepática, a hiperplasia prostática benigna e a hiperuricemia.

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Tudo pela estética

Como as autoridades vedam o uso para fins estéticos e de performance, pesquisadores ainda não realizam ensaios clínicos controlados de longo prazo. O uso de diferentes formulações, doses suprafisiológicas e associações torna os riscos ainda mais imprevisíveis.

Outro estudo publicado neste ano na revista científica Clinics, apontou que a prevalência do uso de esteroides anabolizantes entre praticantes brasileiros de atividade física recreativa varia entre 2,1% e 31,6%, dependendo do perfil populacional e da região analisada.

"No caso dos homens, a reposição é indicada no hipogonadismo confirmado, com sintomas como redução da libido e disfunção erétil, associados ou não a queixas como fadiga e alteração de humor. O diagnóstico exige pelo menos duas dosagens matinais de testosterona total alteradas e investigação da causa, que pode ser hipofisária, testicular ou funcional, como nos casos de obesidade e síndrome metabólica. Entre as mulheres, a indicação respaldada por diretrizes é para mulheres na pós-menopausa com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) que permanecem sintomáticas mesmo com terapia hormonal estrogênica adequada. Nesses casos, são utilizadas doses estritamente fisiológicas femininas", complementa a especialista.

Riscos dentro do esporte  

Essa perigosa relação entre o abuso hormonal e o colapso cardíaco atinge proporções ainda mais alarmantes no ambiente do alto rendimento esportivo. Um levantamento publicado em 2025 no European Heart Journal, revelou que a morte súbita cardíaca é a principal causa de morte entre fisiculturistas. 

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Ao monitorar 20.286 atletas da Federação Internacional de Fitness e Fisiculturismo (IFBB) entre 2005 e 2020, os cientistas registraram 121 mortes. Das quais 46 (38% do total) foram provocadas por paradas cardíacas repentinas. A cardiologista e professora de Medicina do Esporte da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Déborah Prado, faz um alerta durante treinos de alta intensidade. Palpitações, dor no peito, cansaço, falta de ar, dor no estômago, pressão alta, tontura ou batimentos muito acelerados exigem atenção.

A conexão da testosterona com o fisiculturismo

"No caso do fisiculturismo, o risco de desenvolver essas complicações pode ser muito maior em pessoas que utilizam hormônios de forma indiscriminada e sem indicação médica precisa. Pode ocorrer um aumento desproporcional do músculo cardíaco, levando a alterações em sua estrutura e ao enrijecimento das paredes. Há também enrijecimento arterial, que pode favorecer o aumento da pressão arterial e de outras doenças secundárias. Além de alterações relacionadas ao envelhecimento de algumas estruturas e à perda de colágeno".

O levantamento concluiu que os fisiculturistas profissionais apresentam um risco de morte cardíaca súbita cinco vezes maior do que praticantes amadores. O que consolida um cenário em que a busca pelo limite corporal ultrapassa os limites da segurança biológica. Isso deixa claro a importância de uma conscientização urgente da sociedade e dos órgãos de saúde pública. 

Revista Malu
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