Práticas comuns de higiene doméstica podem aumentar o risco de infecções em vez de proteger. A infectologista Paula Pinhão alerta que lavar frango espalha bactérias e que a "regra dos cinco segundos" não evita contaminação. Além disso, o excesso ou mistura de produtos químicos gera intoxicações, e álcool em feridas atrasa a cicatrização. A prevenção eficaz foca em reduzir riscos com base científica, priorizando água, sabão, cozimento correto e higiene adequada das mãos e esponjas.
Lavar o frango antes de preparar o almoço, acreditar que um alimento que caiu no chão continua seguro se for recolhido rapidamente ou usar produtos de limpeza em excesso na tentativa de eliminar todos os microrganismos.
Em muitas casas, essas práticas são tratadas como regras de higiene e transmitidas de geração em geração. Mas será que todas elas realmente ajudam a proteger a saúde?
A resposta passa por uma diferença importante: ter a sensação de estar limpando ou desinfetando não significa, necessariamente, estar reduzindo os riscos de infecção.
Alguns hábitos são ineficazes, outros podem favorecer a disseminação de microrganismos e há situações em que o excesso de zelo cria riscos adicionais.
"Quando falamos em prevenção de infecções, é importante entender que não se trata de tentar eliminar todos os microrganismos do ambiente. O objetivo é reduzir os riscos de exposição aos agentes que podem causar doenças, adotando medidas que realmente funcionam", explica a infectologistaPaula Pinhão, diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV).
1. Lavar o frango antes de cozinhar aumenta o risco de contaminação
Um dos exemplos mais conhecidos está na cozinha. Lavar a carne crua, especialmente o frango, antes de levá-la ao fogo parece uma maneira intuitiva de deixá-la mais limpa. Na prática, porém, a água pode espalhar bactérias presentes na superfície da carne para a pia, a bancada, os utensílios e outros alimentos.
"A segurança depende do cozimento adequado, e não da lavagem prévia. A mesma lógica de prevenção exige atenção à separação entre alimentos crus e aqueles que serão consumidos sem cozimento, além da higienização das mãos e das superfícies utilizadas no preparo", explica a médica.
Por isso, não lave o frango cru. Prepare-o diretamente para o cozimento e mantenha os alimentos crus separados daqueles que já estão prontos para o consumo.
2. A regra dos cinco segundos não garante que o alimento esteja seguro
Outro hábito bastante difundido é acreditar que qualquer alimento recolhido rapidamente depois de cair no chão pode ser consumido sem preocupação. A chamada "regra dos cinco segundos" não tem fundamento como garantia de segurança.
"A transferência de microrganismos pode ocorrer no contato com a superfície, sem que seja necessário esperar determinado intervalo. O risco varia conforme o alimento e as condições do ambiente, mas o tempo de exposição, isoladamente, não torna a comida segura", alerta a infectologista.
A contaminação pode acontecer logo no contato com o chão. Por isso, recolher o alimento rapidamente não elimina o risco de exposição a microrganismos.
3. Usar mais produtos de limpeza não significa proteger melhor a casa
Na limpeza doméstica, o equívoco pode aparecer na direção oposta: a ideia de que quanto mais produtos desinfetantes forem utilizados, maior será a proteção.
Em situações rotineiras, água e sabão ou detergente são suficientes para remover grande parte da sujeira e dos microrganismos presentes em muitas superfícies.
"A desinfecção pode ser indicada em situações específicas, como quando há uma pessoa doente em casa, mas deve ser feita de acordo com as orientações do fabricante. Misturar produtos de limpeza ou utilizá-los de maneira inadequada pode provocar acidentes e exposição a substâncias tóxicas", diz Paula.
O ideal é escolher o produto adequado para cada superfície, respeitar as instruções do rótulo e nunca misturar substâncias por conta própria. Combinações improvisadas podem liberar gases tóxicos e causar intoxicações.
4. Álcool e água oxigenada nem sempre são indicados para machucados
A atenção também deve estar nos pequenos acidentes do dia a dia. Ao tentar limpar um machucado, muitas pessoas recorrem a substâncias como álcool e água oxigenada, acreditando que a sensação de ardência é sinal de que estão eliminando os agentes causadores de infecção.
No entanto, esses produtos podem irritar os tecidos e prejudicar a cicatrização quando aplicados diretamente em determinadas feridas.
"Para lesões superficiais, a limpeza com água corrente e os cuidados adequados costumam ser mais apropriados", a médica diz.
Em feridas profundas, extensas ou com sinais de infecção, é importante procurar avaliação profissional para receber a orientação adequada.
5. Esponjas de cozinha podem acumular microrganismos
A esponja usada para lavar louças também merece atenção. A combinação de umidade e resíduos de alimentos favorece a presença e a multiplicação de microrganismos, que podem se espalhar durante a limpeza de utensílios.
Por isso, é importante manter a esponja em boas condições, higienizá-la por um método apropriado e substituí-la regularmente. Também vale evitar deixá-la constantemente encharcada ou com restos de comida.
A limpeza dos utensílios e a secagem adequada ajudam a reduzir os riscos de contaminação na cozinha.
6. Nem todas as superfícies precisam ser desinfetadas diariamente
Desinfetar todos os cômodos e objetos da casa todos os dias não é uma exigência para manter um ambiente saudável. Na rotina habitual, a limpeza com água e detergente ou sabão costuma ser suficiente para muitas superfícies.
A desinfecção pode ser necessária em situações específicas, como quando alguém está doente ou quando há contaminação por determinados agentes. Nesses casos, é importante seguir as orientações de saúde e as instruções do fabricante.
O objetivo não é eliminar todos os microrganismos do ambiente, mas reduzir a exposição aos agentes que podem causar doenças.
Como prevenir infecções dentro de casa?
Para Paula, o principal cuidado é substituir hábitos automáticos por atitudes orientadas por evidências.
"Muitas dessas práticas vêm de uma intenção legítima de proteger a família. O problema é quando repetimos um comportamento apenas porque aprendemos assim, sem questionar se ele é realmente seguro ou necessário. Informação de qualidade também é uma ferramenta de prevenção", afirma.
Entre as medidas que ajudam a reduzir os riscos estão:
-
Lavar as mãos nos momentos adequados, especialmente antes de preparar alimentos e comer, depois de usar o banheiro e após cuidar de alguém doente.
-
Separar alimentos crus daqueles que serão consumidos sem cozimento.
-
Cozinhar os alimentos adequadamente e respeitar as orientações de conservação e refrigeração.
-
Limpar regularmente as superfícies de uso frequente.
-
Utilizar produtos de limpeza conforme as instruções do fabricante.
-
Evitar misturas improvisadas de produtos químicos.
-
Manter esponjas e utensílios de cozinha limpos e em boas condições.
"Lavar as mãos nos momentos adequados, conservar e preparar os alimentos com segurança, limpar regularmente as superfícies de uso frequente e seguir as recomendações para a utilização de produtos químicos. Em vez de transformar a casa em um ambiente supostamente livre de germes, a proposta é conhecer os riscos reais e aprender a reduzi-los", finaliza Dra Paula.