Quando as três pequenas lesões surgiram no peito, Rafael Duarte*, 47 anos, achou que fossem espinhas. "Alguma alergia, alguma coisa", pensou. Natural de Niterói e agente da Polícia Federal, ele não imaginava que aquelas marcas discretas seriam o início de quase três meses de isolamento, dor intensa e incerteza.
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Dias depois, recebeu uma mensagem que mudaria o rumo da história: a pessoa com quem tivera contato avisou que havia procurado um médico no Rio e que "a probabilidade era alta de ele ter contraído uma Mpox". Rafael não hesitou. Foi direto a um hospital em São Paulo.
"Foi em agosto de 2022", contou ao Terra. Segundo ele, o diagnóstico ainda era um desafio para parte da rede médica naquele momento. Ele conta que precisou insistir com a médica que o atendeu para que a coleta fosse feita, porque a doença estava no início e havia pouca familiaridade com o protocolo. O resultado deu positivo.
"Eu fiquei desesperado. Tinha que buscar médicos infectologistas do Einstein, alguém com uma expertise", afirma. Na busca, encontrou o médico Ralcyon Teixeira, coordenador do Instituto de Infectologia do Emílio Ribas na época. "Foi a minha salvação, mas eu não sabia. Nem os médicos sabiam como é que essa doença ia evoluir, era muito diferente".
Causada pelo vírus Monkeypox, a doença é transmitida principalmente pelo contato próximo com lesões de pele, fluidos corporais, mucosas ou objetos contaminados. O sintoma mais comum é a erupção cutânea, que pode durar de duas a quatro semanas, além de febre, dores no corpo e gânglios inchados. O tratamento é voltado para o alívio dos sintomas e prevenção de complicações, já que ainda não há cura específica.
A dor veio poucos dias depois. Rafael relata que desenvolveu neuropatia, condição que provoca dor nos nervos. "Eu fui descobrir depois, eu não sabia o nome até então. E aí realmente foi bem terrível, porque é como se eu estivesse sendo agulhado e queimado ao mesmo tempo".
"Cinco dias, uma semana. Foi rápido, assim. Começou com uma dor, mas depois a coisa foi progredindo. Aí chegou um ponto que era insuportável". Para conseguir dormir, precisou de medicação forte. "Simplesmente impossível. Tinha que ter medicação. Era impossível ficar parado, era uma dor insuportável".
As três lesões principais, muito próximas uma da outra, acabaram abrindo a pele. O processo de cicatrização levou cerca de 60 dias. Durante todo esse período, ele ficou isolado em casa. "Impactou totalmente. A sorte é que eu moro sozinho, então não havia risco de transmitir pra terceiros, né? Mas eu só descia pra buscar comida e subia pra casa".
O estigma não foi, segundo ele, a parte mais difícil, mas o medo, sim. Ao acompanhar reportagens sobre casos graves, passou a temer complicações. "Teve gente que teve no olho e acabou perdendo a visão, teve gente que teve na boca e aí teve que ser alimentado por sonda, aí isso me dava um certo medo".
O início da doença, afirma, foi o período mais difícil. "No início foi punk, precisei tomar remédio apra dormir, ansiolítico".
"Você não sabe onde vai surgir. Vão surgindo as bolhas, as feridas, mas você não sabe muito bem onde". Criou o hábito de examinar o próprio corpo diariamente. "Cada dia você acorda sem saber. Aí começa a procurar onde surgiu alguma coisa". Com o tempo, quando percebeu que o quadro havia estabilizado, conseguiu se acalmar.
Após a cicatrização das lesões, recebeu alta. Mas, com a imunidade fragilizada, desenvolveu uma infecção no dedo que exigiu cirurgia e novo afastamento por mais três semanas. Ele acredita que o quadro pode ter sido consequência da baixa imunidade após a Mpox.
Hoje, Rafael diz que mantém os cuidados, mas reconhece que a transmissão pode ocorrer a partir de sinais quase imperceptíveis. "É uma coisa muito ínfima, como se fosse um cabelinho inflamado, uma coisa mínima. Então, é fácil transmitir por conta disso. você não tem ideia que aquilo ali é um início de Monkeypox".
*Nome fictício a pedido do entrevistado.