A musculação nos membros inferiores estimula o retorno venoso, mas os cuidados circulatórios vão além da academia. Ficar sentado por longos períodos prejudica a circulação, sendo fundamentais pausas ativas diárias, boa hidratação e roupas confortáveis. O exercício não causa varizes e, embora elevar as pernas traga alívio temporário, não trata as causas. Por fim, inchaços persistentes ou dores atípicas devem ser avaliados por um médico especialista.
A musculação pode fazer parte de uma rotina que favorece a circulação sanguínea. Isso acontece principalmente quando os exercícios envolvem a musculatura das pernas, como panturrilhas e coxas. Mas o cuidado não termina quando o treino acaba.
Passar muitas horas sentado, usar roupas excessivamente apertadas, esquecer de beber água e ignorar inchaços recorrentes são hábitos que também merecem atenção.
Segundo o cirurgião vascular e endovascular Dr. Gabriel Novaes, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), manter as pernas em movimento ajuda o sangue a retornar ao coração.
"Quando movimentamos as pernas, especialmente a musculatura da panturrilha, ajudamos o sangue a vencer a gravidade e retornar ao coração. Por isso, atividade física regular é uma grande aliada da circulação. Mas o comportamento durante o restante do dia também importa", explica.
Como a musculação ajuda na circulação?
A panturrilha tem um papel importante no retorno do sangue das pernas em direção ao coração. Quando caminhamos ou fazemos exercícios que movimentam os tornozelos e as pernas, a contração muscular auxilia esse processo.
Por isso, atividades como caminhada, corrida, ciclismo e exercícios de fortalecimento dos membros inferiores podem favorecer a circulação.
Isso não significa, porém, que exista um exercício capaz de prevenir varizes sozinho.
"Não significa que exista um exercício milagroso para evitar varizes. Há fatores genéticos, hormonais, idade e outras condições envolvidas. Mas manter as pernas ativas ajuda o funcionamento da circulação e traz benefícios importantes para a saúde como um todo", afirma Novaes.
Treinar não compensa passar o resto do dia parado
Fazer musculação ou outro exercício regularmente é importante. Ainda assim, isso não elimina os efeitos de passar muitas horas sem se movimentar.
Quem treina pela manhã e depois permanece diante do computador durante boa parte do dia deve incluir pequenas pausas na rotina.
Longos períodos de imobilidade reduzem a ação da musculatura das pernas que auxilia o retorno venoso.
"A academia é excelente, mas não deve ser a única hora do dia em que o corpo se movimenta. Pequenas pausas para caminhar e movimentar as pernas também são importantes", explica o cirurgião vascular.
Durante o expediente, levantar regularmente e movimentar os tornozelos já pode ajudar a manter a musculatura da panturrilha ativa.
Roupa apertada pode causar desconforto
Roupas esportivas fazem parte da rotina de quem treina. Mas elas precisam permitir movimento e conforto.
Peças excessivamente apertadas podem provocar desconforto e marcas na pele. Também não é indicado permanecer por muitas horas com a roupa suada após o exercício.
"Se a peça provoca dor, dormência, formigamento ou deixa marcas muito profundas, é importante observar se o tamanho e o modelo estão adequados", orienta Novaes.
Também é importante não confundir uma legging apertada com uma meia de compressão medicinal.
As meias elásticas possuem compressão graduada e indicações específicas. Em algumas situações, precisam ser recomendadas por um profissional de saúde.
Hidratação também merece atenção
A hidratação costuma ser associada ao desempenho durante o exercício e à reposição dos líquidos perdidos pelo suor. Mas beber água adequadamente também faz parte dos cuidados gerais com o organismo e com o sistema circulatório.
Em treinos longos, temperaturas elevadas ou situações de grande perda de líquido pelo suor, essa atenção deve ser ainda maior.
Não existe, porém, uma quantidade de água que seja ideal para todas as pessoas.
"Peso, intensidade do exercício, temperatura, duração do treino e condições de saúde interferem nessa necessidade", explica o especialista.
Elevar as pernas depois do treino ajuda?
Deitar e elevar as pernas se tornou um hábito popular nas redes sociais. A prática pode proporcionar uma sensação temporária de alívio para algumas pessoas.
Segundo Novaes, elevar os membros pode facilitar temporariamente o retorno venoso. A medida também pode ajudar quem apresenta sensação de peso ou edema ao final do dia.
Isso não significa, entretanto, que a prática trate a causa de varizes ou de um inchaço persistente.
"Se a pessoa precisa elevar as pernas praticamente todos os dias porque sente peso, dor ou percebe edema frequente, vale investigar a causa em vez de apenas aliviar o sintoma", orienta.
Musculação causa varizes?
Essa é uma dúvida que pode surgir, principalmente entre mulheres que começam a aumentar as cargas nos exercícios para as pernas.
De acordo com o especialista, a musculação realizada adequadamente não deve ser encarada como causa direta de varizes.
A doença venosa é multifatorial. Entre os fatores relacionados estão predisposição genética, idade, fatores hormonais, gestações, obesidade e longos períodos em pé ou sentada.
"O fortalecimento muscular, inclusive das pernas e panturrilhas, pode fazer parte de uma rotina saudável. Quem já possui doença vascular diagnosticada ou apresenta sintomas deve conversar com seu médico sobre as adaptações necessárias", explica Novaes.
Quando o inchaço nas pernas merece atenção?
Nem toda alteração nas pernas depois do treino deve ser atribuída ao exercício.
Dor muscular pode aparecer após uma atividade intensa. Já um inchaço persistente, principalmente quando ocorre em apenas uma perna, merece atenção.
O cuidado é ainda maior quando o quadro aparece junto de:
- Dor.
- Aumento da temperatura.
- Vermelhidão.
- Mudança de coloração.
- Edema importante.
- Surgimento súbito de sintomas.
"Existe uma tendência de achar que toda dor na perna de quem treina é muscular. Quando o sintoma é diferente do habitual, aparece de maneira súbita ou vem acompanhado de edema importante, é necessário procurar avaliação médica", alerta o cirurgião vascular.
Pequenos movimentos também contam
Cuidar da circulação não significa passar mais tempo na academia. Parte desse cuidado pode acontecer durante atividades comuns do dia.
Algumas atitudes simples ajudam a manter as pernas em movimento:
- Levantar durante o expediente.
- Caminhar para buscar água.
- Usar escadas quando possível.
- Movimentar os pés enquanto trabalha.
- Fazer pequenas caminhadas ao longo do dia.
A ideia é evitar longos períodos de imobilidade.
"Nosso sistema circulatório se beneficia de movimento. Não precisamos pensar apenas em performance ou em quantas calorias foram gastas. Exercício também é uma ferramenta de prevenção e de saúde vascular", afirma Novaes.
Por isso, para quem já treina, o cuidado com a circulação não precisa ficar restrito aos minutos passados na academia. Manter-se em movimento ao longo do dia também faz parte de uma rotina ativa.