Com a popularização das canetas emagrecedoras, o foco da perda de peso migrou da balança para a composição corporal. Especialistas alertam que o emagrecimento rápido pode causar perda de água e massa magra, essencial para o metabolismo e a longevidade. O cuidado deve ser redobrado por mulheres no climatério. Para garantir autonomia no envelhecimento, é fundamental aliar os tratamentos a uma nutrição proteica adequada e a exercícios de força, priorizando a manutenção muscular sobre a magreza.
Discussão sobre composição corporal ganha espaço e muda a lógica do "quanto menos peso, melhor"; para mulheres no climatério e na menopausa, atenção à massa muscular se torna ainda mais importante
A corrida para perder quilos rapidamente começa a dividir espaço com uma preocupação diferente: emagrecer sem perder força. Depois de um período marcado pela popularização das canetas emagrecedoras e por transformações corporais cada vez mais rápidas, a qualidade da perda de peso entra no centro da discussão.
Isso acontece porque os quilos eliminados não correspondem necessariamente apenas à gordura. Durante um processo de emagrecimento, o organismo também pode perder água e massa magra. Por isso, duas pessoas que eliminaram dez quilos podem chegar ao mesmo número na balança com composições corporais bastante diferentes.
Para a endocrinologista Dra. Patricia Gracitelli, essa mudança de olhar é importante para que o emagrecimento seja avaliado para além da estética.
"Não podemos considerar apenas quantos quilos uma pessoa perdeu. Precisamos entender de onde veio essa redução e buscar preservar a massa muscular durante o processo. O músculo participa da força, da funcionalidade e da saúde metabólica e se torna ainda mais importante conforme envelhecemos", explica.
Músculo começa a ser visto como investimento para o futuro
Entre as mulheres, essa preocupação ganha relevância principalmente a partir do climatério. As transformações hormonais dessa fase podem favorecer mudanças na distribuição de gordura e contribuir para a redução progressiva da massa muscular.
A alteração nem sempre fica evidente na balança. É possível manter um peso semelhante e, ao mesmo tempo, perder músculo e aumentar a proporção de gordura corporal.
"Na transição para a menopausa, precisamos prestar atenção não apenas ao peso, mas também à composição corporal. Preservar massa muscular nessa fase significa pensar no corpo que essa mulher terá nas próximas décadas", afirma Patricia.
Emagrecer rápido deixou de ser o único objetivo
A popularização dos medicamentos para obesidade também ajudou a colocar o assunto em evidência. Com perdas de peso que podem ser expressivas, cresce a importância de acompanhar aquilo que acontece com a composição corporal durante o tratamento.
Isso não significa que os medicamentos sejam necessariamente responsáveis pela perda muscular. A redução de massa magra pode acompanhar o próprio emagrecimento, especialmente quando existe baixa ingestão de proteínas, restrição alimentar excessiva e ausência de exercícios de força.
"Quando tratamos obesidade, queremos reduzir o excesso de gordura sem negligenciar outros componentes da saúde. Alimentação adequada e treinamento resistido são estratégias importantes para ajudar a preservar músculos, sempre respeitando as necessidades e condições de cada paciente", explica a endocrinologista.
A estética da força começa a substituir a obsessão pela magreza?
Durante muito tempo, as pessoas resumiam o sucesso de uma transformação corporal em fotos de antes e depois e em números cada vez menores na balança. A valorização da massa muscular começa a questionar essa lógica.
Mais do que definir o contorno corporal, músculos são necessários para tarefas básicas que ganham importância com o passar dos anos: subir escadas, carregar compras, levantar-se de uma cadeira, manter o equilíbrio e preservar independência.
"Um corpo saudável não precisa ser necessariamente o mais magro. Precisamos incluir nessa avaliação força, mobilidade e capacidade funcional. Massa muscular é uma reserva importante para o envelhecimento", ressalta Patricia.
Nesse novo olhar, musculação deixa de ser associada apenas à busca por um corpo definido e passa a ocupar espaço nas discussões sobre longevidade.
"Não faz sentido esperar chegar à terceira idade para começar a se preocupar com músculos. Essa construção acontece ao longo da vida. Quanto antes cuidamos da alimentação, praticamos atividade física e estimulamos a musculatura, melhor preparados estaremos para envelhecer com autonomia", conclui.
Se a balança reinou durante décadas como principal termômetro das transformações corporais, ela começa a perder exclusividade. A próxima fase do emagrecimento pode ser menos sobre ocupar um corpo menor e mais sobre construir um corpo capaz de permanecer forte por mais tempo.