Entenda como o excesso de telas pode confundir sintomas de TDAH em crianças e adolescentes

Neurocientista explica como a hiperestimulação digital pode prejudicar funções cognitivas em cérebros em desenvolvimento

16 jun 2026 - 14h01

Problemas de concentração, dificuldade para avaliar o próprio desempenho escolar e menor capacidade de reflexão têm se tornado cada vez mais comuns entre crianças e adolescentes. Esse cenário tem levado a questionamentos sobre a influência do uso excessivo de telas em comportamentos que, muitas vezes, são associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Alguns comportamentos associados ao TDAH podem estar relacionados ao uso excessivo de telas
Alguns comportamentos associados ao TDAH podem estar relacionados ao uso excessivo de telas
Foto: MAYA LAB | Shutterstock / Portal EdiCase

Segundo o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, existe uma confusão progressiva entre sintomas neurocomportamentais induzidos pela hiperestimulação digital e transtornos neuropsiquiátricos genuínos.

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"O cérebro infantil e adolescente ainda está em maturação cortical. Quando há exposição contínua a vídeos curtos, recompensas imediatas e excesso de dopamina associada ao consumo digital, ocorre uma fragmentação da atenção e um prejuízo da metacognição", afirma.

A metacognição corresponde à capacidade de o indivíduo pensar sobre o próprio pensamento, monitorando erros, desempenho e estratégias cognitivas. Essa função depende fortemente do córtex pré-frontal dorsolateral, região responsável pelo controle executivo, memória de trabalho e autorregulação comportamental.

Cérebro condicionado ao estímulo rápido

De acordo com Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, algoritmos digitais criam um padrão de recompensa intermitente semelhante ao observado em mecanismos compulsivos. A sucessão rápida de estímulos ativa circuitos dopaminérgicos ligados ao sistema de recompensa, sobretudo envolvendo o núcleo accumbens e conexões com o sistema límbico.

"O cérebro passa a funcionar num modelo de estímulo-resposta. Há redução da tolerância ao tédio, diminuição da atenção linear e perda da capacidade contemplativa. Isso afeta diretamente a consolidação da memória e a capacidade de autorreflexão", explica.

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O fenômeno tem sido percebido por professores e familiares. Após provas escolares, muitos estudantes já não conseguem sequer avaliar se tiveram bom ou mau desempenho. Isso revela um enfraquecimento da memória de trabalho e do processamento consciente da experiência.

Nem todo déficit de atenção é TDAH

O TDAH possui critérios clínicos específicos, com forte participação genética e alterações neurofuncionais bem documentadas. Contudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues alerta que sintomas semelhantes podem surgir de hábitos digitais inadequados.

"O problema é que estamos medicalizando cérebros hiperestimulados. Nem toda desatenção é TDAH. Muitas vezes existe um cérebro exausto pela sobrecarga sensorial, pela privação de silêncio cognitivo e pela incapacidade de sustentar o foco prolongado", afirma.

O uso constante do celular pode reduzir momentos de introspecção importantes para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes
Foto: Miljan Zivkovic | Shutterstock / Portal EdiCase

Desaparecimento do "tédio saudável"

Outro ponto destacado pelo especialista é a perda do chamado "tédio saudável", estado considerado importante para criatividade, introspecção e reorganização neural. "Hoje, qualquer microssegundo de vazio é preenchido pelo telemóvel. O cérebro perde a capacidade de permanecer em estado introspectivo, algo essencial para fortalecer conexões neurais ligadas à criatividade subjetiva, memória autobiográfica e reflexão crítica", diz.

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Ele ressalta que períodos sem estímulo externo favorecem a ativação da chamada Default Mode Network (DMN), rede cerebral associada à introspecção, construção narrativa interna e autoconsciência.

Desintoxicação digital como estratégia preventiva

O equilíbrio digital deve começar dentro de casa. Redução do tempo de tela, atividades analógicas, leitura física, prática desportiva e interação social presencial são estratégias consideradas importantes para preservar o desenvolvimento neurocognitivo de crianças e adolescentes.

Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues argumenta que o problema não está na tecnologia em si, mas no padrão crônico de hiperconsumo. "A tecnologia é uma ferramenta extraordinária. O problema é quando ela sequestra os mecanismos naturais da atenção e transforma o cérebro numa estrutura dependente de estímulo contínuo. Sem silêncio cognitivo, não existe profundidade reflexiva", conclui.

Por Angela Rocha

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