Quando um bebê nasce, quase todas as perguntas se voltam para a mãe e para a criança. Pouca gente pergunta como o pai está.
No Dia dos Pais, vale olhar para esse silêncio, porque o homem que participa das consultas, divide as noites difíceis e assume o cuidado diário também pode sentir medo, irritabilidade, solidão e exaustão.
Reconhecer isso não diminui a atenção que a mulher precisa receber durante a gestação e o pós-parto. Pelo contrário. Ajuda a compreender que a chegada de um filho transforma a família inteira e que nenhum adulto deveria precisar atravessar essa mudança sozinho.
Costumo dizer que, quando uma mulher gesta, toda a família também vive uma gestação psicológica.
O pai não sente o bebê crescer dentro dele, mas recebe a notícia, revê planos, cria expectativas, enfrenta dúvidas e começa a construir uma nova identidade. A paternidade, portanto, não começa no nascimento.
A própria psicologia perinatal não se limita à mulher, porque o período em torno do nascimento também é vivido emocionalmente pelo pai e pelos demais integrantes da família.
A paternidade começa antes do bebê nascer
Participar do pré-natal, acompanhar exames e conversar sobre parto, amamentação, rotina e pós-parto ajuda o homem a sair do lugar de espectador.
No início, a gravidez pode parecer abstrata para ele, já que as mudanças acontecem no corpo da mulher. Quando esse pai escuta o coração do bebê, vê uma ultrassonografia e recebe orientação, a experiência ganha contorno.
Não por acaso, o Ministério da Saúde reconhece o pré-natal do parceiro como uma estratégia para fortalecer vínculos, ampliar a participação masculina e aproximar os homens dos serviços de saúde.
A proposta também abre espaço para prevenção, promoção da saúde e autocuidado do futuro pai.
Mas presença não se resume a comparecer à consulta ou cortar o cordão umbilical. Ela aparece nas decisões do casal, na preparação para o parto, na proteção dos direitos da mulher, na organização da casa e, depois do nascimento, no banho, na troca, no colo, na alimentação possível e nas noites mal dormidas.
Participar não é ajudar
Pai não é ajudante e, quando faz parte daquela família, também é responsável pelo bebê. A rede de apoio ajuda tanto a mãe quanto o pai, mas isso não substitui a função que ele mesmo exerce.
Ainda existe uma cultura que trata o homem como um anexo da gestação. Ele pode entrar na consulta, acompanhar o exame e assistir ao parto, mas raramente alguém se dirige a ele para perguntar o que entendeu, como se sente ou se precisa de orientação.
Ao mesmo tempo, depois que o bebê nasce, muitas famílias ainda esperam que a mulher saiba tudo e que o homem aguarde instruções.
Na vida real, essa lógica sobrecarrega a mãe, dificulta o vínculo paterno e mantém o homem distante de tarefas que também são dele.
Um pai presente, que divide responsabilidades e assume o cuidado, pode funcionar como fator de proteção para a saúde emocional materna. A mulher deixa de se perceber sozinha diante de uma função que deveria ser compartilhada.
Isso não significa que o homem precise ocupar o lugar da mãe ou viver a parentalidade da mesma forma que ela. Significa que ambos precisam assumir responsabilidades reais, de acordo com as necessidades daquela família.
Saúde mental do pai / Canva
Depressão paterna também existe
A participação paterna não torna o homem imune ao sofrimento emocional.
A gestação, o parto e o pós-parto podem trazer ansiedade, estresse e depressão para ele também. O aumento das responsabilidades, o medo de não dar conta, as mudanças no relacionamento, a falta de sono, as preocupações financeiras e a sensação de não saber cuidar podem pesar.
Também observo que alguns homens adiam o contato com a própria dor. Enquanto a companheira está mais fragilizada, concentram energia em manter a casa e cuidar do bebê. Quando ela apresenta melhora, o sofrimento que ficou represado pode aparecer. Isso pode acontecer, mas não é uma regra.
A depressão paterna não surge apenas depois dos seis meses e não depende da recuperação da mulher. Ela pode começar durante a gravidez ou aparecer em diferentes momentos após o nascimento.
Pesquisas identificam sintomas depressivos paternos desde o período pré-natal até o primeiro ano depois do parto. Também existe uma associação entre o sofrimento emocional materno e o paterno, o que reforça a necessidade de observar a família de forma mais ampla.
Reconhecer a saúde mental do pai não serve para justificar abandono, violência, falta de participação ou irresponsabilidade.
Existem homens que se afastam porque não assumem seu papel. Em outros casos, porém, a fuga, o isolamento, a irritabilidade ou uma mudança importante de comportamento podem sinalizar que algo não vai bem.
É preciso olhar para o contexto sem transformar sofrimento em desculpa e sem tratar todo sofrimento como descaso.
8 sinais que merecem atenção
Os sintomas de depressão seguem critérios semelhantes em homens e mulheres, mas nem sempre aparecem do modo que a família imagina.
Em alguns pais, a irritabilidade, a raiva e o afastamento podem chamar mais atenção do que o choro ou a tristeza explícita. Muitos também escondem ou normalizam o sofrimento por medo de julgamento ou por acreditarem que precisam suportar tudo sozinhos.
Alguns sinais não devem ser ignorados:
- Alteração persistente do sono ou do apetite;
- Perda de interesse por atividades antes prazerosas;
- Irritabilidade ou raiva fora do padrão;
- Isolamento social;
- Sensação constante de culpa, incapacidade ou fracasso;
- Redução importante da libido;
- Dificuldade de criar vínculo com o bebê;
- Pensamentos de morte ou de se machucar.
Um sintoma isolado não confirma depressão. O que merece atenção é a intensidade, a duração e o impacto dessas mudanças na rotina, no relacionamento e no cuidado com a criança.
Pensamentos de morte ou de se machucar exigem atendimento imediato.
A avaliação não deve depender apenas de um teste, nem ser feita pela família. É importante que um profissional qualificado escute a história daquele homem, observe as mudanças de comportamento e indique o cuidado necessário.
Pedir ajuda também faz parte da paternidade
Muitos homens aprenderam que precisam ser fortes, racionais e provedores. Quando se tornam pais, essa cobrança pode aumentar.
Eles acreditam que não podem demonstrar medo, dizer que estão cansados ou admitir que não sabem o que fazer. Só que silêncio não é força. Às vezes, é apenas sofrimento sem espaço para aparecer.
A psicologia perinatal também atende pais.
O homem pode precisar de orientação antes do parto, apoio para lidar com a nova rotina ou acompanhamento psicológico diante de ansiedade, depressão, luto e dificuldades de vínculo.
Neste Dia dos Pais, talvez o melhor presente seja retirar o homem de dois lugares igualmente injustos: o de ajudante eventual e o de alguém que precisa suportar tudo calado. Pai é parte do cuidado. E, para exercer esse lugar com presença, também precisa saber que pode pedir ajuda sem deixar de ser pai.
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