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Por que virou tradição comer feijoada no Dia de São Jorge?

Ligada ao sincretismo entre São Jorge e Ogum, a feijoada de 23 de abril carrega uma história de fé, resistência e herança afro-brasileira

23 abr 2026 - 15h35

No dia 23 de abril, a cena se repete em muitos cantos do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro: casas cheias, bares movimentados, devoção em alta e um prato quase sempre garantido à mesa - a feijoada. Tão associada à celebração de São Jorge, ela já parece parte natural da data. Mas essa ligação não nasceu por acaso.

Entenda por que a feijoada virou tradição no Dia de São Jorge e como o prato se conecta ao sincretismo religioso
Entenda por que a feijoada virou tradição no Dia de São Jorge e como o prato se conecta ao sincretismo religioso
Foto: Reprodução: Canva/Pollyana Ventura/emkaplin / Bons Fluidos

Por trás desse costume existe uma história que reúne fé, sincretismo religioso, herança afro-brasileira e memória coletiva. Mais do que uma escolha gastronômica, a feijoada no Dia de São Jorge carrega um significado cultural profundo e ajuda a contar um capítulo importante da formação religiosa e popular do Brasil.

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A tradição vai além da comida

Embora a feijoada tenha se transformado em marca registrada do 23 de abril, sua presença nesta celebração não se explica apenas pelo sabor ou pela popularidade do prato. A origem desse costume está ligada à relação entre São Jorge e Ogum, orixá cultuado nas religiões afro-brasileiras.

Nas tradições de Umbanda e Candomblé, Ogum é associado à coragem, à proteção, à abertura de caminhos e à força de ação. Sua imagem de guerreiro aproxima o orixá da figura de São Jorge, santo católico também lembrado por bravura, defesa e enfrentamento dos males. Essa semelhança simbólica ajudou a construir, ao longo do tempo, a aproximação entre os dois.

O papel do sincretismo religioso nessa história

Para entender por que a feijoada aparece com tanta força nessa data, é preciso voltar ao período colonial. Durante a escravidão, povos africanos trazidos ao Brasil foram impedidos de praticar livremente suas religiões. Como forma de preservar suas crenças, muitos passaram a associar seus orixás a santos católicos com características parecidas.

Foi nesse contexto que Ogum passou a ser relacionado a São Jorge. A imagem do santo guerreiro serviu como uma espécie de ponte simbólica para que cultos, oferendas e tradições ligadas ao orixá continuassem existindo, ainda que sob outra aparência.

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Assim, práticas dedicadas originalmente a Ogum acabaram se misturando às homenagens a São Jorge. E é justamente daí que nasce a tradição da feijoada.

A feijoada como oferenda e celebração

Nas religiões de matriz africana, o feijão tem forte presença em preparações oferecidas a Ogum. O grão está ligado à ideia de fartura, força e alimento partilhado. Em muitas casas religiosas, ele aparece em pratos preparados em honra ao orixá, tanto em formas mais simples quanto em receitas mais festivas.

Com o passar do tempo, a feijoada foi ganhando espaço como prato principal dessas celebrações. A receita, robusta e coletiva, combinava com o espírito da data: reunir pessoas, alimentar muita gente e celebrar com abundância.

Foi assim que a chamada feijoada de Ogum também passou a ser reconhecida como feijoada de São Jorge. Na prática, as duas tradições se cruzam e têm a mesma raiz histórica.

Da religiosidade à cultura popular

Ao longo dos anos, esse costume saiu dos terreiros e ganhou as ruas, os bares, os encontros familiares e as rodas de samba. No Rio de Janeiro, principalmente, o Dia de São Jorge se consolidou como uma data em que fé e festa caminham juntas.

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A feijoada passou, então, a ocupar um lugar especial não só nas homenagens religiosas, mas também na cultura popular. Ela virou símbolo de encontro, devoção e identidade coletiva. Comer feijoada em 23 de abril, para muita gente, é uma forma de participar dessa tradição, mesmo quando a prática não acontece em um contexto religioso direto.

Um prato que ajuda a preservar memória

Mais do que acompanhar a celebração, a feijoada ajuda a manter viva a memória de um processo histórico marcado por resistência cultural. Sua presença no Dia de São Jorge fala sobre a permanência de costumes afro-brasileiros, mesmo em contextos de repressão e apagamento.

É por isso que essa tradição tem tanta força. Ela não é apenas culinária. É também um gesto de continuidade, de pertencimento e de valorização de heranças que ajudaram a moldar a cultura brasileira.

E onde entra o feijão nessa história?

O feijão, base do prato, também reforça esse simbolismo. Além de ser um alimento presente no cotidiano brasileiro, ele aparece, nesse contexto, como elemento ritual e afetivo. Ao mesmo tempo em que sustenta e reúne, ele conecta o prato a valores como fartura, partilha e ancestralidade. Também por isso a feijoada faz tanto sentido nessa data: ela une o sagrado e o popular em uma mesma panela.

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Uma tradição que segue viva

Ainda hoje, o Dia de São Jorge reúne missas, procissões, cerimônias em terreiros, encontros entre amigos e feijoadas espalhadas pela cidade. Em muitos lugares, a celebração mistura espiritualidade, música e comida de forma inseparável.

No centro de tudo isso está uma tradição que nasceu da necessidade de manter a fé viva, atravessou gerações e se transformou em um dos costumes mais marcantes do calendário popular brasileiro. Ou seja, a feijoada do dia 23 de abril não é apenas um prato típico. Ela é um símbolo de sincretismo, resistência e memória cultural.

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