Na música, o cantor pernambucano Lenine já avisa: "eu finjo ter paciência". Cá entre nós, eu também. De tanto fingir, aprendi a ter. É até engraçado ver a reação dos outros quando a gente se mantém posturada e calma diante de um ato que mereceria uma cadeira voando. Porém, a idade traz, além de cabelos brancos, alguma sabedoria. Maturidade mesmo! Hoje, ter as emoções em ordem, é um ato de rebeldia contra o mundo.
Basta pensar que a gente vive sob a ditadura da pressa. Em um cotidiano marcado por áudios acelerados, entregas expressas e a gratificação instantânea dos algoritmos, pausar tornou-se um desafio. No entanto, o que muitos consideram uma "virtude passiva" é, na verdade, uma ferramenta poderosa de resistência. Ao exercitarmos a calma, não estamos apenas esperando; estamos protegendo nossa clareza mental e fortalecendo nossos vínculos afetivos.
Paciência
A ciência corrobora essa visão. Um levantamento realizado pela University of California Riverside, nos Estados Unidos, aponta que a paciência funciona como um mecanismo de regulação emocional. Em vez de um traço de personalidade imutável, ela é uma estratégia que nos permite processar desconfortos sem sermos dominados por eles.
O esgotamento da nossa paciência não é culpa apenas da tecnologia. Porém, de uma mentalidade que exige utilidade em cada segundo. Atualmente, a lógica do trabalho invadiu o lazer: sentimos culpa por descansar ou tentamos resolver problemas enquanto comemos. Antigamente, o tédio em uma fila nos forçava a observar o redor. Hoje, o celular serve como uma fuga imediata, impedindo o cérebro de praticar a espera. Vejo crianças, inclusive, sem a menor noção do que é esperar. Tudo é imediato, tem que estar na mão. E depois? Como vão saber o que fazer diante do tédio? E as frustrações, os desejos do imediatismo que não foram atendidos, para onde vão? Explodem?
Hoje, vejo jovens que não enfrentaram uma fila de banco enfadonha que fazia com que a gente precisasse arrumar o que fazer para passar o tempo. Tudo era válido: um livro, um dedo de prosa, observar o contexto ali, olhar para o lado e reparar que o senhor que opera o caixa está cansado, contando os minutos para ir embora. Ou que a moça da frente que despejou umas cem moedas no balcão e está contando vagarosamente...
Como lidar com o tédio? Aliás: ele existe?
Não existe mais essa espera. O celular tomou conta desse 'vazio' que é tão necessário e rico de aprendizados. Mas nunca é tarde para desafiar a regra imposta pelo digital e aprender a saborear o tédio.
Cultivar a paciência exige consciência. Assim, o primeiro passo é identificar seus gatilhos pessoais — aquelas situações específicas que fazem o seu sangue ferver — e observá-los sem julgamento. Sabe aquela respirada bem funda, contando até 10? Funciona. Esta técnicas simples de respiração consciente ajuda a acalmar o sistema nervoso. Além disso, permite que você saia do modo reativo e recupere a capacidade de avaliar a situação com a serenidade que seu organismo merece. Que tal começar por aí?