A busca incessante pela perfeição e alta performance em todas as áreas da vida impacta negativamente a saúde mental e emocional das mulheres. Pressões sociais e autocobrança podem gerar ansiedade, exaustão e baixa autoestima. A psicóloga Juliana Gebrim alerta sobre os riscos do perfeccionismo e reforça a importância do autoconhecimento e do equilíbrio. 🧘♀️
Mulheres sofrem com a sobrecarga para ter alta performance em todas as áreas da vida, mas essa perfeição é inalcançável
É possível imaginar uma vida em que a cobrança por perfeição não dite todos os seus passos? Para muitas mulheres, esse parece um sonho distante, mas não deveria ser assim. A busca pela alta performance em todas as áreas da vida impacta diretamente a saúde mental e emocional. E isso transforma o processo de 'ser a melhor versão' em uma armadilha. Por isso, é importante estar atenta aos sinais do corpo e da mente para refletir se todo o esforço por evolução não está sendo, na verdade, uma tentativa de corresponder a expectativas irreais e inalcançáveis.
Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF), nos ajuda a compreender melhor esse cenário ao afirmar que a busca pela nossa melhor versão só é saudável quando esse processo promove crescimento, aprendizado e bem-estar. "O problema começa quando essa busca passa a trazer prejuízos para a saúde física e mental. Se a pessoa vive em um estado constante de ansiedade, sente que nunca é suficiente, perde a capacidade de descansar, desenvolve sintomas depressivos ou deixa de aproveitar a própria vida porque está sempre tentando alcançar um padrão inalcançável, é um sinal de que esse processo deixou de ser saudável", aponta.
São anos de uma cultura que prega perfeição a qualquer custo
Mas será que essa autocobrança surge mesmo de forma interna? De acordo com a profissional, não. Há uma pressão social específica sobre as mulheres que faz com que elas sejam submetidas a exigências muito maiores e mais amplas. Inclusive quando falamos de aparência física. "Há uma expectativa constante de que mantenham um corpo considerado ideal, um rosto sem sinais do envelhecimento e uma imagem que corresponda aos padrões impostos socialmente. Ao mesmo tempo, espera-se que sejam excelentes profissionais, mães, companheiras e cuidadoras. Essa soma de exigências faz com que muitas direcionem quase toda a sua energia para atender expectativas externas, deixando em segundo plano aquilo que realmente importa: a própria saúde mental e emocional. Esse excesso de cobrança favorece ansiedade, baixa autoestima, exaustão e uma sensação permanente de insuficiência", discorre Juliana.
Mil passos de skin care, cuidados com o cabelo, alta performance na academia… tudo o que parece ser para o bem-estar muitas vezes se torna um peso. O motivo? O excesso de cobrança, mais uma vez. "Muitas mulheres desenvolvem uma preocupação excessiva com a aparência e começam uma busca incessante por um padrão de beleza que, na prática, é inalcançável. Isso pode levar ao excesso de procedimentos estéticos, cirurgias, treinos exaustivos e gastos financeiros elevados na tentativa de alcançar uma perfeição que nunca chega." Ainda segundo a psicóloga, em alguns casos a distorção da autoimagem pode evoluir para um dismorfismo corporal. O que faz com que a pessoa nunca se perceba satisfeita com a própria aparência. "O perfeccionismo é uma meta impossível de ser alcançada e, justamente por isso, quando não é reconhecido, pode se transformar em um importante fator de sofrimento emocional", alerta.
"O desenvolvimento pessoal deve ampliar a qualidade de vida e não comprometer a saúde emocional. É importante refletir se essa busca está sendo motivada pelo desejo de evoluir ou pela necessidade de corresponder a expectativas irreais."
Pode ser uma dor silenciona
Na maioria das vezes é difícil reconhecer os sinais de sobrecarga, já que o perfeccionismo consegue 'se disfarçar' no dia a dia das mulheres, fazendo com que os sinais sejam silenciados. "Muitas mulheres incorporam o estereótipo da 'mulher-maravilha', acreditando que precisam dar conta de tudo ao mesmo tempo. Querem ser a profissional perfeita, a mãe perfeita, a esposa ou companheira perfeita, manter a casa impecável e ainda corresponder a um padrão de beleza idealizado. Muitas vezes isso é visto como competência ou dedicação, quando, na verdade, pode esconder um sofrimento importante", alerta a psicóloga. "A dificuldade em delegar tarefas, o excesso de responsabilidade e a necessidade de controlar tudo são manifestações frequentes desse perfeccionismo, que acaba gerando sobrecarga e aumentando o risco de adoecimento emocional", complementa.
É difícil, mas não impossível, e por isso o autoconhecimento é tão importante. Juliana alerta que o principal sinal de que a autocobrança está se tornando um problema grave é quando essa busca pela perfeição começa a gerar prejuízos em diferentes áreas da vida. "Isso pode aparecer no trabalho, nos relacionamentos, na dinâmica familiar e até na vida financeira. Muitas vezes, a mulher percebe que está emocionalmente desequilibrada, mais ansiosa, irritada ou triste, mas continua tentando manter o mesmo ritmo", elenca. Além disso, o corpo também costuma dar sinais importantes por meio de dores físicas, cansaço constante, alterações do sono e sintomas de ansiedade ou depressão. "Quando essas manifestações passam a comprometer a qualidade de vida, é um indicativo claro de que aquele padrão de funcionamento deixou de ser saudável e merece atenção", completa.
Atenção à saúde física também
Também é importante lembrar que o cansaço persistente nem sempre está relacionado apenas à sobrecarga emocional. "Alterações hormonais, menopausa, deficiência de vitaminas, baixa ferritina e outras condições clínicas podem contribuir para esse quadro. Por isso, quando o cansaço é frequente, é fundamental investigar tanto os aspectos emocionais quanto os fatores biológicos", orienta a psicóloga.
Parar é necessário
Para piorar, mesmo quando sentem o cansaço, muitas mulheres sentem culpa ao descansar, pois aprenderam a associar descanso à improdutividade. "Elas sentem culpa porque acreditam que aquele tempo poderia estar sendo utilizado para produzir, cuidar de alguém ou resolver alguma pendência", explica Juliana. Porém, é mais que necessário deixar algo claro aqui: descansar não é perder tempo, é ganhar. "O descanso é fundamental para o bom funcionamento do cérebro, para a memória, para a regulação das emoções e até para a produtividade", conclui.