Pesquisa mostra que alguns cães aprendem palavras sem treino direto

Cães que aprendem palavras ouvindo conversas revelam inteligência surpreendente; descubra como funciona esse fast mapping canino

13 jan 2026 - 10h30

Em algumas casas ao redor do mundo, cães parecem prestar mais atenção às conversas humanas do que muitos adultos distraídos. Relatos recentes e estudos acadêmicos indicam que determinados cães conseguem aprender novas palavras apenas ouvindo diálogos, sem que alguém lhes ensine de forma direta. Para tutores, a cena é familiar: basta mencionar o nome de um brinquedo ou de um objeto específico e o animal corre até ele, como se tivesse acompanhado cada frase da sala ao lado.

Pesquisas em comportamento animal mostram que essa habilidade não é fruto de truques isolados, mas de um tipo específico de processamento mental. Alguns cães são capazes de associar termos a objetos só observando o contexto: escutam um nome repetido em determinada situação, veem sempre o mesmo item ser manipulado, e, a partir daí, fazem a ligação entre palavra e coisa. Esse aprendizado passivo lembra a forma como pessoas assimilam informações em segundo plano, enquanto realizam outras atividades.

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A capacidade de captar palavras em segundo plano aproxima a cognição canina de processos observados em crianças e reforça a complexidade da relação entre cães e humanos – depositphotos.com / VitalikRadko
A capacidade de captar palavras em segundo plano aproxima a cognição canina de processos observados em crianças e reforça a complexidade da relação entre cães e humanos – depositphotos.com / VitalikRadko
Foto: Giro 10

Como cães aprendem palavras apenas ouvindo conversas?

De acordo com estudos de cognição animal, o cérebro canino combina pistas sonoras, visuais e sociais. Quando uma pessoa fala repetidamente "bolinha azul" enquanto pega o mesmo brinquedo, o cão registra o som, observa o objeto e nota a reação humana. Com o tempo, essa repetição em contexto cria um vínculo estável entre o sinal sonoro (a palavra) e o referente físico (o item). Em casos documentados, alguns indivíduos conseguem lembrar dezenas de nomes diferentes de brinquedos sem passarem por sessões formais de adestramento.

Um ponto relevante é que esses cães não dependem apenas de comandos. Eles parecem captar o conteúdo de conversas espontâneas, como quando alguém comenta "depois pega a corda vermelha para brincar com ele". Ao ouvir isso repetidas vezes, o animal passa a reagir à expressão, como se tivesse acompanhado a conversa do início ao fim. Pesquisadores destacam que, embora a maioria dos cães não atinja esse nível elevado de vocabulário, muitos demonstram uma compreensão mais ampla da fala humana do que se imaginava há algumas décadas.

Quais raças se destacam nessa habilidade de aprendizado de palavras?

Entre os casos mais conhecidos estão os Border Collies, frequentemente mencionados em pesquisas sobre inteligência e obediência. Exemplares dessa raça já foram alvo de estudos em que identificaram centenas de brinquedos diferentes apenas pelo nome, incluindo objetos novos apresentados depois de simples exposições auditivas. Além dos Border Collies, há registros de Australian Shepherds, Poodles e Pastores Alemães com grande facilidade para relacionar sons, gestos e objetos.

Especialistas ressaltam, porém, que não se trata apenas de genética ou raça. Fatores como estímulo constante, interação diária e um ambiente rico em comunicação humana também favorecem esse tipo de aprendizagem. Cães que convivem próximos às pessoas, participam de brincadeiras variadas e ouvem muitas conversas tendem a acumular mais associações entre palavras e situações. Nas pesquisas, esses animais "talentosos" costumam viver em lares onde o diálogo com o pet é frequente e variado, o que amplia o repertório de experiências sonoras e visuais.

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Raças como Border Collie e Poodle se destacam, mas estímulo diário e convivência próxima são tão importantes quanto genética para esse tipo de aprendizado – depositphotos.com / Ischukigor
Foto: Giro 10

O que o "fast mapping" em crianças revela sobre a cognição canina?

Para explicar essa capacidade, cientistas fazem uma comparação com o fast mapping, fenômeno observado em crianças pequenas. Nesse processo, a criança escuta um novo termo poucas vezes, em um contexto claro, e rapidamente o relaciona a um objeto ou ação, formando um rascunho mental do significado. Algo similar foi observado em alguns cães, que, após ouvir o nome de um brinquedo desconhecido em meio a itens já familiares, conseguem escolher corretamente o novo objeto por exclusão lógica.

As implicações dessa habilidade são amplas para a compreensão da cognição canina. O fato de alguns cães conseguirem aprender palavras apenas ouvindo indica que eles lidam com informações de maneira mais flexível e sofisticada do que simples condicionamento. Isso reforça a ideia de uma relação entre humanos e cães construída ao longo de milhares de anos de convivência, em que os animais passaram a decodificar melhor a linguagem e os sinais sociais das pessoas. Ao revelar que o cão pode ser um observador silencioso das conversas domésticas, a ciência amplia a percepção sobre o quanto esse companheiro de quatro patas entende do mundo humano e sobre como essa parceria ainda pode ser explorada em comunicação, bem-estar e pesquisa.

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