Descoberta inédita: verme de cobra atinge órgãos humanos de australiana

O caso recente do parasita Ophidascaris robertsi chamou atenção da comunidade científica internacional por envolver, pela primeira vez, a infecção de um ser humano por esse verme nematódeo. Saiba como isso aconteceu.

28 fev 2026 - 15h03

O caso recente do parasita Ophidascaris robertsi chamou atenção da comunidade científica internacional por envolver, pela primeira vez, a infecção de um ser humano por esse verme nematódeo. O episódio aconteceu na Austrália e levantou questões sobre como doenças que circulam entre animais silvestres podem, em situações específicas, atingir pessoas. Pesquisadores de parasitologia e infectologia passaram a observar com mais cuidado esse tipo de transmissão, que recebe o nome de zoonose.

Embora o caso seja raro, ele ilustra como o contato próximo com ambientes em que há animais selvagens pode expor moradores de áreas rurais a microrganismos pouco conhecidos. A paciente afetada era uma mulher de 64 anos que vivia em uma região com grande presença de cobras e animais silvestres, o que ajudou a reconstruir a cadeia de transmissão. O episódio recebeu descrição detalhada em periódicos científicos, reforçando a necessidade de monitoramento de agentes infecciosos em ecossistemas onde seres humanos e fauna nativa dividem o mesmo espaço.

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Ophidascaris robertsi é um verme nematódeo. Ou seja, é um parasita cilíndrico que normalmente vive no trato digestivo de cobras da espécie carpet python, muito comuns em algumas áreas da Austrália – depositphotos.com / dwiputra18@gmail.com
Ophidascaris robertsi é um verme nematódeo. Ou seja, é um parasita cilíndrico que normalmente vive no trato digestivo de cobras da espécie carpet python, muito comuns em algumas áreas da Austrália – depositphotos.com / dwiputra18@gmail.com
Foto: Giro 10

O que é Ophidascaris robertsi e como vive nas cobras?

Ophidascaris robertsi é um verme nematódeo. Ou seja, é um parasita cilíndrico que normalmente vive no trato digestivo de cobras da espécie carpet python, muito comuns em algumas áreas da Austrália. Nessas serpentes, o verme completa seu ciclo de vida, alojando-se principalmente no estômago e nos intestinos. Em geral, as cobras infectadas eliminam ovos do parasita nas fezes, que acabam contaminando o solo e a vegetação ao redor.

No ambiente, esses ovos podem ser ingeridos por pequenos mamíferos, marsupiais e outros animais que se alimentam de plantas ou pastam em áreas contaminadas. Assim, dentro desses hospedeiros intermediários, as larvas migram por órgãos internos, como fígado e pulmões, formando cistos e aguardando a próxima etapa do ciclo. Porém, quando a cobra se alimenta desses animais, ingere também as larvas encapsuladas, que retornam ao intestino da serpente e chegam à fase adulta, fechando o ciclo do Ophidascaris robertsi.

Como o Ophidascaris robertsi pode infectar humanos?

Na infecção humana que houve registro, os pesquisadores acreditam que a paciente fez a ingestão de ovos do Ophidascaris robertsi de forma acidental. Possivelmente, ao consumir plantas silvestres colhidas em uma área onde circulavam cobras carpet python. Ademais, folhas, ervas e vegetais podem ser contaminados por solo ou fezes de animais infectados, e a ausência de higienização facilita a entrada do parasita no organismo humano.

Depois de ingeridos, os ovos liberam larvas que podem migrar pela corrente sanguínea e alcançar diferentes órgãos. Entre os locais mais vulneráveis estão cérebro, fígado e pulmões. Em hospedeiros animais, essa migração é parte do ciclo normal. Porém, em seres humanos trata-se de um desvio acidental, e o corpo reage com inflamação e danos nos tecidos. No caso australiano, uma das larvas estava no cérebro da paciente, o que explica parte dos sintomas neurológicos relatados.

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Quais foram os sintomas e por que o diagnóstico foi tão difícil?

A paciente inicialmente apresentou sinais inespecíficos, como cansaço intenso, dores abdominais, tosse persistente e alterações respiratórias. Assim, esses sintomas podem ser confundidos com uma série de outras doenças comuns. Por isso, o quadro dificultou o reconhecimento imediato de uma infecção parasitária rara. Ao fim, exames de imagem apontaram alterações em órgãos internos, incluindo fígado e pulmões, sugerindo um quadro inflamatório sistêmico.

Com o tempo, surgiram manifestações neurológicas, como lapsos de memória, alterações de humor e dores de cabeça. A investigação avançou para exames de imagem do cérebro, que revelaram uma lesão incomum. Somente durante um procedimento cirúrgico, ao tentar esclarecer a natureza dessa lesão, os médicos se depararam com um verme vivo em uma área cortical. A identificação laboratorial confirmou que se tratava de Ophidascaris robertsi.

Esse percurso evidencia alguns desafios diagnósticos:

  • Sintomas genéricos, semelhantes aos de outras infecções ou doenças inflamatórias.
  • Raridade do parasita em humanos, o que faz com que ele não seja considerado de início nas hipóteses clínicas.
  • Limitações de exames de rotina, que muitas vezes não detectam parasitas incomuns sem suspeita prévia.

Por que esse primeiro caso humano é tão relevante para a medicina?

O registro do primeiro caso humano de Ophidascaris robertsi tem impacto importante para a medicina, a infecção humana por parasita de cobra passa a fazer parte do mapa global de zoonoses. Para a parasitologia, o episódio amplia o conhecimento sobre a capacidade de adaptação de vermes nematódeos a novos hospedeiros, mesmo quando a infecção é considerada acidental e rara.

Esse caso também contribui para:

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  1. Atualizar protocolos de investigação em pacientes que vivem próximos a áreas de fauna silvestre.
  2. Alertar equipes de saúde sobre a possibilidade de parasitas pouco conhecidos causarem quadros incomuns em humanos.
  3. Estimular pesquisas sobre outros vermes de cobras e de animais selvagens que, em tese, poderiam atravessar a barreira entre espécies.

Além disso, o relato detalhado do caso orienta médicos de diferentes países sobre como proceder diante de sintomas semelhantes, especialmente quando há histórico de exposição a ambientes rurais, contato com solos contaminados ou consumo de plantas silvestres.

Com o tempo, surgiram manifestações neurológicas, como lapsos de memória, alterações de humor e dores de cabeça – depositphotos.com / imagepointfr
Foto: Giro 10

Como prevenir infecções zoonóticas em áreas com cobras parasitadas?

A prevenção de infecções zoonóticas envolvendo o Ophidascaris robertsi e outros parasitas de serpentes depende, principalmente, de medidas simples de higiene e de manejo do ambiente. Em regiões onde a carpet python e outras cobras são comuns, a população é orientada a ter cuidados redobrados ao manipular alimentos de origem vegetal e ao circular em áreas de mata e pasto.

Entre as principais recomendações, destacam-se:

  • Lavar cuidadosamente folhas, ervas e vegetais colhidos diretamente do solo ou próximos a áreas onde circulam animais silvestres.
  • Evitar consumir plantas cruas que não possam ser higienizadas de forma adequada.
  • Usar calçados fechados e luvas em atividades agrícolas ou de coleta de plantas em regiões com presença de cobras.
  • Manter animais domésticos sob vigilância, reduzindo o contato com carcaças ou fezes de animais silvestres.
  • Procurar avaliação médica em casos de sintomas persistentes após exposição a ambientes rurais ou de fauna intensa.

O caso do Ophidascaris robertsi em ser humano reforça a importância de integrar informações de saúde humana, saúde animal e meio ambiente, em uma abordagem frequentemente chamada de "saúde única". Ao compreender melhor o ciclo de vida de parasitas que circulam entre cobras e pequenos animais, autoridades de saúde e pesquisadores conseguem planejar estratégias de prevenção mais eficientes, reduzindo o risco de novos episódios semelhantes no futuro.

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