Compreender o que um animal está sentindo nem sempre é uma tarefa simples. Diante de comportamentos como medo, ansiedade, apego excessivo ou mudanças repentinas de humor, alguns tutores da Coreia do Sul encontraram uma alternativa bastante inusitada: consultar o tarot.
Segundo reportagem publicada pela Reuters, o chamado pet tarot vem se consolidando como um novo nicho entre as tradicionais casas de leitura de cartas do país. Durante as sessões, os profissionais tentam interpretar emoções, incômodos e possíveis experiências traumáticas dos animais com base nas cartas escolhidas por eles.
A novidade surge em um momento em que os pets ocupam um espaço cada vez mais importante nas famílias sul-coreanas. Dados do governo indicam que o país possui cerca de 8,6 milhões de animais de companhia distribuídos por 6,38 milhões de residências.
Como funciona uma consulta de tarô para pets?
A dinâmica pode variar de acordo com o profissional, mas, em algumas sessões, o próprio animal participa da escolha das cartas. Cães, gatos e até répteis são incentivados a cheirar o baralho ou tocar uma das opções com a pata ou o focinho.
A taróloga Hwang Soo-Kyung, por exemplo, criou um conjunto de cartas desenvolvido especialmente para esse tipo de atendimento. Ela recebe os animais em seu estúdio, localizado no distrito de Gangnam, em Seul.
Interpretam-se as ilustrações como representações de questões emocionais ou físicas. Uma carta com espadas, por exemplo, pode ser relacionada a algum desconforto corporal. Já outras imagens seriam associadas a medo, insegurança ou processos de adaptação.
A consulta custa aproximadamente o equivalente a R$ 80, e muitos clientes retornam depois da primeira experiência. "Eles voltam porque, quando você começa a perguntar o que seu cachorro está pensando, não consegue mais parar", afirmou Hwang Soo-Kyung, em entrevista à Reuters.
Tutores buscam respostas para comportamentos difíceis de interpretar
Entre os clientes está Ahn Hye-Joo, que procurou o serviço de pet tarot para tentar entender a ansiedade apresentada por seu cachorro depois do nascimento dos filhotes. Para ela, a experiência trouxe conforto ao abordar aspectos que talvez não chamassem a atenção em uma consulta convencional. "Essas coisas que um veterinário ou adestrador não veria como particularmente problemáticas, o tarô conseguiu ler, e achei isso incrivelmente reconfortante", contou.
Outros tutores procuram as cartas para explorar possíveis traumas do passado ou mudanças no vínculo do animal com a família. Apesar do interesse crescente, é importante lembrar que o tarô não possui capacidade comprovada para diagnosticar doenças ou identificar dores. Médicos-veterinários devem avaliar mudanças de comportamento, dificuldade para andar, falta de apetite, agressividade repentina ou sinais de sofrimento.
Pets ganham cada vez mais espaço nas famílias
O crescimento desse serviço acompanha uma transformação social mais ampla. Cerca de 29,2% dos lares sul-coreanos possuem animais de companhia, número consideravelmente maior do que os 17,4% registrados em 2010.
A maioria dessas famílias têm cães e prefere utilizar a expressão "animal de companhia", reforçando a ideia de que os bichinhos são verdadeiros integrantes do núcleo familiar. Ao mesmo tempo, o mercado voltado aos pets movimenta bilhões no país, com serviços que vão de cuidados de saúde e estética a experiências cada vez mais personalizadas.
Tarô também cresce entre os jovens
A leitura de cartas já vinha conquistando popularidade entre millennials e integrantes da Geração Z na Coreia do Sul. Bairros movimentados de Seul, como Hongdae e Gangnam, concentram centenas de espaços dedicados ao tarot e ao saju, método tradicional de leitura do destino baseado no calendário lunar.
Agora, a combinação entre esse interesse espiritual e o forte vínculo dos tutores com seus animais abriu espaço para um novo tipo de consulta. Para algumas pessoas, trata-se de uma experiência simbólica e afetiva, capaz de estimular uma observação mais atenta do comportamento do pet. Para outras, é apenas uma curiosidade. Em qualquer caso, as cartas podem até servir como ponto de reflexão, mas nunca devem substituir cuidados veterinários, acompanhamento comportamental ou exames adequados.