Por que fui inventar de correr a Comrades?

Vou correr a Comrades em junho e dividir aqui minha preparação, treinos, medos e logística para os quase 90K

28 mai 2026 - 09h57
(atualizado às 10h09)
Foto: Everton José
Foto: Everton José
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

A Comrades Marathon é uma das provas mais tradicionais e simbólicas da corrida mundial. Acontece desde 1921 e, dependendo do ano, tem entre 85 e 90K. Tem subida, descida, tempo limite, histórias quase folclóricas e um tipo de devoção difícil de explicar. E a coisa mais curiosa sobre a Comrades talvez seja essa: não conheço ninguém que tenha feito uma vez só. Isso sempre me intrigou.

Nunca pensei em fazer ultramaratona. Nunca. Para mim, maratona era o limite — e convivia bem com isso. Mas conheci a Comrades muitos anos atrás, numa feira de negócios de corrida que existia em São Paulo, muito antes do esporte virar esse fenômeno que a gente vê hoje. A Milk estava começando. A gente fazia algumas ativações no mercado esportivo, mas ainda não se entendia como uma empresa especializada em corrida. Eu corria, gostava do universo running e fui passear na feira. E lá tinha um estande da Comrades.

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Lembro pouco do estande. Mas lembro perfeitamente de uma pessoa que estava lá. Um sul-africano extremamente simpático. Acho que nem falava português. E lembro de olhar aquela prova de quase 90K como quem olha uma expedição ao Everest. Não era nem admiração esportiva. Era uma coisa meio "isso não pertence ao meu mundo".

Na época, eu nem entendia direito a distância. Uma hora falavam 89K, outra 86, outra 90. Até hoje varia, dependendo do percurso do ano. Mas lembro da sensação de pensar: "isso é completamente fora da realidade". E falei isso para esse sul-africano que conheci. A resposta foi simples: "Dá pra fazer."

Ele falou com uma naturalidade tão absurda que parecia que estava falando sobre atravessar a rua. Lembro de pensar: "claro que pra você dá".

Um brasileiro na Comrades

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A vida foi andando. A Milk começou a mergulhar cada vez mais no universo da corrida. Vieram provas, projetos, marcas, eventos, viagens, pessoas. E em algum momento comecei a ouvir falar do Nato Amaral

(ultramaratonista brasileiro e embaixador da Comrades). Quando o conheci, pensei imediatamente naquele sul-africano da feira.

Fui ficando fascinado pela cultura da Comrades. Não pela distância. Pela cultura mesmo. Talvez seja até "pecado" usar essa expressão, mas sempre enxerguei a Comrades como um caso muito puro de marketing de relacionamento — só que sem cara de marketing. A impressão que tenho é que várias das tradições da prova não nasceram para vender inscrição nem atrair patrocinador. Elas parecem ter surgido como reconhecimento genuíno: a medalha Back to Back; o Green Number (número vitalício de quem completa 10 edições); o muro com os nomes dos corredores; as histórias. Tudo ali parece construído mais por pertencimento do que por estratégia. Isso me pegou muito.

Depois conheci a Zilma Rodrigues (ultramaratonista de travessias extremas, brasileira com múltiplas participações na Comrades). E um dia ela apareceu na Milk para me contar mais sobre a Comrades, levando medalhas, materiais da prova, histórias e o Green Number dela. E me deu um chaveiro que uso até hoje: uma réplica da medalha da 90ª edição da Comrades. 

A essa altura, a prova já tinha virado uma obsessão silenciosa.

Há uns três anos, encontrei o Nato em um evento e confessei para ele: "Acho a Comrades a prova mais fantástica do mundo. Não pela distância. Mas pela paixão que as pessoas têm por ela." Porque é essa a verdade. Você conversa com quem fez a Comrades e raramente a pessoa correu uma vez só. Foram sete, oito, dez, vinte vezes. Isso é muito louco.

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A prova é difícil demais. Fica longe. É cara. Exige treino absurdo. Então por que as pessoas voltam? Essa pergunta nunca saiu da minha cabeça.

Foto: Edgar Mory
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Correr todos os dias

Mesmo fascinado, ainda achava tudo muito distante. Até que uma coisa começou a mudar. Em outubro de 2023, passei a correr todos os dias. Meu volume aumentou muito. Eu saí de 30, 40K por semana para 80, 90, às vezes mais de 100K. 

E aí tive uma percepção engraçada. Se a preparação para a Comrades seguisse uma escala de 0 a 10, antes de começar a correr todos os dias, eu me sentia no nível 3. Muito distante. Depois, correndo todos os dias, a sensação foi de que talvez estivesse chegando ao nível 6. Não significava que estivesse pronto. Mas, pela primeira vez, não me sentia completamente fora daquele mundo.

No final de 2024, mandei uma mensagem para o Nato: "Lembra daquele café que você falou pra gente tomar no dia em que eu pensasse seriamente na Comrades?" Então fomos tomar o café.

Ele me contou histórias da prova com aquele brilho no olho de quem claramente foi sequestrado emocionalmente pela experiência. Em algum momento perguntou quanto eu estava correndo por semana.

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Respondi. E ele falou: "Cado, você já está rodando mais do que eu."

Saí daquele café pensando seriamente em encarar a Comrades em 2025. Conversei com meu treinador, Sidney Togumi. A resposta dele foi realista: "Você termina. Mas vai sofrer muito." Mesmo assim, virou uma possibilidade. 

Mas a vida bagunça treino, calendário e cabeça numa velocidade impressionante. Os planos mudaram no caminho. Em vários momentos achei que a história da Comrades tinha desandado.

Inscrições abertas!

Até que, no fim do ano passado, meu amigo Dani Costa me mandou mensagem: "As inscrições da Comrades estão abertas. Faz agora, porque vai acabar rápido."

Entrei no site da prova. Preenchi tudo. Cheguei na tela de pagamento. Fiquei com dúvida numa resposta do formulário, saí, fui resolver outras coisas… Quando voltei, as inscrições tinham acabado. Pensei: "Perdi."

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Aí fiz uma coisa completamente desesperada: entrei no histórico do navegador tentando recuperar a página do pagamento. Funcionou. Tudo preenchido. Fui pagar. Deu erro. Naquele momento, tive certeza: "Não era pra ser."

Mas, só de marra, tentei mais uma vez. E passou. Até hoje não sei exatamente por quê. 

Acho que foi ali que caiu a ficha de verdade. Porque inscrição paga transforma qualquer ideia abstrata num problema real. Escrevi para o Togumi: "A gente tem um problema." Ele respondeu: "Bora treinar."

E desde então a vida virou uma sucessão de treinos longos, adaptação, cansaço, pequenas crises, dúvidas e descobertas. 

Irmandade em Piracicaba

Maratona é difícil, claro. Mas deixou de ser um bicho de sete cabeças para mim - já completei sete vezes a distância. 

Talvez a experiência mais forte que vivi até agora nessa preparação tenha acontecido poucas semanas atrás, justamente em uma maratona, em Piracicaba (SP). Resolvi correr a prova quase de última hora e encontrei a turma da Ztrack (assessoria esportiva do Zeca Fernando, treinador que tem sete Comrades e mais de 60 maratonas no currículo) acompanhando o Avelino (Marques Costa, ultramaratonista amador com nove Comrades), que precisava fazer índice sub-5 horas para sua 10ª participação na prova sul-africana.

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O mais impressionante não era o objetivo. Era o jeito. O Avelino tem uma condição chamada disautonomia, um distúrbio que afeta o funcionamento automático do corpo — como controle da frequência cardíaca e pressão arterial — e por isso precisava correr num ritmo extremamente controlado. Éramos umas 12 pessoas correndo em volta dele o tempo inteiro. Gente controlando pace, mandando reduzir, mandando caminhar, fazendo piada, cantando, gritando incentivo. Em quase cinco horas de prova, não teve silêncio.

E aquilo mexeu comigo porque parecia resumir exatamente o espírito que sempre ouvi sobre a Comrades: uma sensação meio inexplicável de irmandade. No fim, cruzamos juntos em 4h56min. 

Foi curioso também o fato de eu ter terminado os 42K me sentindo inteiro. Como se tivesse feito um longão acompanhado de amigos — não uma maratona. Acho que foi a primeira vez que entendi, na prática, por que as pessoas voltam tantas vezes para esse universo.

A Comrades ainda parece um território desconhecido. Tenho medo da distância. Tenho medo da subida. Tenho medo do quilômetro 60. Tenho medo de descobrir alguma coisa sobre mim no meio da prova que eu ainda não sei. 

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Às vezes termino um treino inteiro. Às vezes termino pensando: "o que exatamente eu estou fazendo?" Mas acho que talvez exista uma coisa bonita nisso tudo. Porque, mesmo sem saber direito o que vai acontecer, eu nunca estive tão perto da Comrades quanto estou agora. 

Se vou conseguir completar? Sinceramente não sei. 

Acompanhe meus passos rumo à Comrades, aqui na CR, pelas próximas semanas!

* Cado Santos é publicitário, profissional de marketing, maratonista, triatleta e diretor executivo da Milk, empresa de inteligência estratégica e relacionamento no universo da corrida. Há mais de 20 anos no esporte, lidera projetos que conectam marcas, atletas e comunidades, transformando comportamento e cultura em estratégia de negócio.

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