Sabe quando a pessoa com quem você se relaciona curte exatamente aquela foto provocativa de um perfil que te faz sentir ameaçado? Ou, então, conversa com outras pessoas pela internet sem citar que é comprometida? Esses são exemplos de situações que podem ser traduzidas como micro cheating, termo que tem ganhado espaço na internet nos últimos anos. No caso, se tratam de “micro traições” ou “traições sutis”.
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Por mais que o termo tenha surgido nos últimos anos, assim como lovebombing e ghosting, não se trata de uma situação nova. É o que aponta a psicóloga Jéssica da Conceição Bonfim, especialista em saúde mental. No caso, o ‘micro’ é por não serem traições onde há um contato físico, íntimo e sexual com outra pessoa, mas que ainda assim levantam um questionamento sincero da ética de determinadas ações. “São comportamentos que um dos cônjuges adota com relação a interações através da internet”, explica.
Jéssica avalia que muitas vezes essas atitudes, de curtir fotos, puxar conversas, ou até mesmo de entrar em um aplicativo de relacionamento de namoro para “fuxicar”, não se concretizam em um encontro efetivo. “Tem muitas pessoas que buscam esse tipo de comportamento dentro do relacionamento muitas vezes por tédio, ou porque querem, de fato, algo novo, mas não tem a coragem de arriscar, de fato, a uma traição”.
Para a especialista, essa é uma forma das pessoas alimentarem “desejos ocultos”, mas sem se arriscar por completo. “Às vezes, a pessoa já está insatisfeita com a relação, ou ela é uma pessoa que gosta mesmo dessa sensação de possível interesse, de possível traição, de flertar. Aí ela adota esses comportamentos porque uma vez descoberto, é fácil justificar que ‘não foi uma traição’: ‘Eu só curti, eu só estava conversando, eu só estava curioso, não é nada demais, eu não fiquei com essa pessoa’. Então é meio que uma estratégia”.
O ponto disso ser ou não uma traição pode variar de acordo com compromissos estabelecidos em cada relacionamento. Mas, como aponta, não há como negar que são comportamentos inadequados para quem está dentro de um relacionamento e que podem, sim, ser considerados um tipo de traição.
‘Trazer aproximação’
Para Jéssica, dar nomes a situações do tipo é uma forma de aproximar o diálogo de mais pessoas, principalmente com os mais jovens.
“Talvez se a gente parar para poder falar sobre um termo de um problema dentro de um relacionamento de uma maneira mais aprofundada, talvez o alcance seja menor do que quando a gente nomeia com palavras-chave como essas: lovebomb, ghosting. Acho que as pessoas têm mais essa necessidade atualmente, também por conta desse advento da tecnologia, de abreviar as nomeações referentes aos problemas que nós temos enfrentado, principalmente dentro do relacionamento”.
Considerando que relacionamentos têm sido, também, espaços de conflito e, infelizmente, de violência, isso se torna ainda mais importante. Sendo assim, é necessário alertar comportamentos do tipo, mesmo que considerados “pequenos”.