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Mãe de filho autista vira cuidadora e transforma vidas na escola pública

Ao se tornar cuidadora de alunos com deficiência na rede pública, Kelly Cristina passou a compreender melhor o autismo do filho e transformou a própria experiência em acolhimento para outras famílias.

20 mai 2026 - 16h15

Receber o diagnóstico de autismo de um filho muda tudo. Para Kelly Cristina Oliveira dos Santos, de 49 anos, esse momento poderia ter sido o fim. Mas foi, na verdade, o começo de uma jornada que cruzou os limites de casa e chegou às escolas públicas.

A mãe e cuidadora Kelly Cristina Oliveira dos Santos com seu filho, Noah, de 8 anos | Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal
A mãe e cuidadora Kelly Cristina Oliveira dos Santos com seu filho, Noah, de 8 anos | Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal
Foto: Alto Astral

Mãe do Noah, de 8 anos, que tem autismo não verbal, TDAH e déficit de atenção, Kelly transformou o medo em aprendizado. Hoje, ela cuida de alunos com deficiência na rede estadual de Guarulhos, em São Paulo.

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Do diagnóstico ao trabalho com alunos autistas

Quando soube do diagnóstico do filho, Kelly sentiu o peso do desconhecido. "Eu achava que nosso mundo tinha acabado. Tinha muito medo do sofrimento que ele poderia passar", lembra ela. Mas, em vez de se paralisar, ela escolheu aprender.

Ela passou a trabalhar como cuidadora na rede estadual de ensino. No dia a dia, conviveu com adolescentes autistas, observou comportamentos e entendeu sinais. Esse contato mudou também a forma como ela via o próprio filho.

O que a escola ensinou sobre autismo em casa

Com a experiência profissional, Kelly passou a interpretar o comportamento de Noah de forma diferente. "Às vezes, o que parece birra para muita gente é só uma forma de uma pessoa com autismo expressar desconforto. Quando a gente entende isso, tudo muda", explica.

Ela passou a incentivar a autonomia do filho. Os resultados vieram aos poucos, no tempo dele. Um dia, Noah buscou o próprio prato. No outro, disse "batata frita". "Pode parecer bobeira, mas pra gente não é. Eu vibrei muito quando ouvi e vi aquilo", conta ela com emoção.

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Como Kelly estimula a autonomia do Noah

  • Incentiva pequenas tarefas do dia a dia, como buscar o próprio prato.
  • Celebra cada avanço, por menor que pareça.
  • Mantém paciência e firmeza ao mesmo tempo.
  • Observa os sinais de desconforto antes de reagir.
  • Pratica a escuta ativa e respeita o tempo da criança.

A inclusão que vai além da sala de aula

Na escola, Kelly também coleciona histórias marcantes. Um aluno de 16 anos resistia à rotina escolar e tinha dificuldade de demonstrar afeto fora de casa. Com paciência, ela construiu um vínculo. "Com jeitinho, fui ganhando a confiança dele. Hoje, ele gosta de ir à escola e já chegou a beijar minha mão", lembra.

A mãe do adolescente ficou emocionada ao saber. Para Kelly, esse é o significado real do trabalho. "Eu encaro como se fosse os olhos das outras mães dentro da escola. Cuido dos meus alunos como se fossem meus filhos", diz ela.

Cuidado e inclusão como missão coletiva

Kelly faz parte da equipe da Conviva Serviços, que atende mais de 10 mil alunos com deficiência em escolas públicas paulistas. Um dado chama atenção: 97% dos profissionais da instituição são mulheres, muitas delas mães.

Para Maíra Pizzo, diretora-presidente da Conviva Serviços, esse perfil faz diferença. "Temos muitas cuidadoras que são mães, tias ou irmãs de pessoas com deficiência e elas trazem uma sensibilidade muito grande", afirma.

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Segundo ela, o cuidador é peça essencial na inclusão, pois auxilia estudantes com deficiência em atividades como alimentação, locomoção e higiene.

Maíra reforça ainda que esse trabalho transcende a escola. "Muitas vezes, esse aprendizado todo ultrapassa a escola e transforma também a dinâmica familiar, como vemos na história da Kelly", finaliza a diretora.

"Hoje, eu entendo que cada dia é uma vitória com o autismo", resume Kelly. Uma frase simples que carrega o peso e a leveza de quem aprendeu a celebrar o que realmente importa.

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