Abelhas sem ferrão da Amazônia se tornaram, no final de dezembro, os primeiros insetos do mundo a receber direitos legais. A medida, válida para determinadas regiões do Peru, assegura a esses animais o acesso a um habitat saudável e livre de poluição, a condições climáticas ecologicamente estáveis e à representação legal em casos de ameaça ou dano.
A importância das abelhas
De acordo com pesquisadores e biólogos, a espécie sem ferrão visível, considerada uma das mais antigas do planeta, é responsável por polinizar grande parte das florestas tropicais. Na Amazônia, por exemplo, esses insetos participam da formação de mais de 80% da flora, incluindo culturas como cacau, café e abacate. Dessa forma, contribuem para a biodiversidade do ecossistema.
Durante a pandemia de Covid-19, conforme relatou a especialista Rosa Vásquez Espinoza ao 'The Guardian', seu mel ainda foi utilizado como tratamento por comunidade indígenas. "Eu vi centenas de moléculas que comprovadamente possuem algum tipo de propriedade medicinal biológica. E a variedade era realmente enorme - sabe-se que essas substâncias têm efeitos anti-inflamatórios, antivirais, antibacterianos, antioxidantes e até mesmo anticancerígenos", explicou.
Entretanto, após conversas com nativos, a estudiosa também descobriu que estava cada vez mais difícil localizar as abelhas. Levantamentos mostraram que esse declínio populacional estaria relacionado tanto às mudanças climáticas e à competição com outras espécies quanto ao desmatamento e ao uso de pesticidas, que foram encontrados no mel.
Luta pelos direitos dos insetos
As descobertas, então, motivaram ativistas a reivindicar direitos para os animais. Assim, em 2024, eles conseguiram que o governo reconhecesse as abelhas sem ferrão como espécies nativas do Peru. A lei foi fundamental para que novas iniciativas surgissem em prol da proteção da espécie. Já em outubro de 2025, o município de Satipo concedeu direitos legais aos insetos e, em dezembro, a medida se estendeu à cidade de Nauta. Hoje, a proteção vale para toda a Reserva da Biosfera Avireri-Vraem.
Segundo estudiosos, o feito inédito deve fomentar a criação de políticas voltadas à garantia da sobrevivência da espécie, como o reflorestamento de habitats e a regulamentação mais rigorosa do uso de pesticidas e herbicidas. "Esta lei marca um ponto de virada em nossa relação com a natureza. Ela torna as abelhas sem ferrão visíveis, as reconhece como sujeitos detentores de direitos e afirma seu papel essencial na preservação dos ecossistemas", disse a advogada especializada em Direitos da Natureza, Constanza Prieto, ao jornal britânico.